Evangélicos celebram os 200 anos das Sociedades Bíblicas
BUENOS AIRES, Argentina, Setembro 24, 2004
María Jones ganha, hoje, nomes distintos, idiomas e nacionalidades. Ela poderia ser encontrada nas pobres e olvidadas ruas de Calcutá, sedenta de água e esperança no Sudão, exposta ao perigo em um subúrbio de São Paulo ou limpando vidros de carros em uma avenida de Buenos Aires, sublinhou Marcelo Figueroa.
O secretário geral da Sociedade Bíblica Argentina (SBA) referia-se a María Jones, a jovem galesa que trabalhou seis anos para poupar dinheiro suficiente e comprar a sua própria Bíblia. Ela caminhou 40 km para adquiri-la. Sua epopéia inspirou um pequeno grupo que, em 1804, fundou a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira para difundir a Bíblia.
Figueroa falou, na tTerça-feira, 21, no ato comemorativo dos 200 anos do que agora são as Sociedades Bíblicas Unidas.
A Bíblia está traduzido em 2.355 idiomas dos aproximadamente 6 mil falados no mundo. As Sociedades Bíblicas Unidas, presentes em mais de 200 países, distribuem aproximadamente 600 milhões de Escrituras ao ano.
Figueroa anotou que a SBA, fundada em 1825, tem distribuído a Bíblia nas línguas indígenas toba, mocoví, pilagá, chorote, wichí, yagahan e quichua. A história de María Jones, enfatizou, repetiu-se há poucos meses, quando Adriana e Verónica, duas jovens wichís que vivem no monte da província de Formosa, ao saberem da chegada de Bíblias em wichí, caminharam 15 km levando seus artesanatos como único bem de troca. "Adriana e Verónica nos aclamam, nos desafiam e dão forças para seguir adiante", disse.
A SBA, informou Figueroa, incentiva iniciativa oficial para que se aprove na Argentina lei que instaure o quarto domingo de setembro como o Dia Nacional da Bíblia. Essa proposta é apoiada por representantes da Igreja Católica e de organizações evangélicas.
O presidente da SBA, Salvador Delluttri, ressaltou que a Bíblia, sendo a Palavra de Deus da eternidade, está sempre integrada ao tempo. "Quando iniciamos o século XXI, o fizemos cheios de esperança", afirmou.
No entanto, o curto trecho transcorrido desse novo século está mostrando que o otimismo era infundado: a intolerância, a violência, o ódio, a morte, a opressão, a fome e a miséria ocupam o centro da cena, apontou.
"Estamos frente a uma escalada internacional de violência. Porém o mais terrível e vergonhoso é que em alguns casos se esgrima o nome de Jesus Cristo para justificar 'guerras preventivas contra o mal' e se pretende disfarçar a voracidade e a rapina sob o rótulo de 'guerra justa' ou, o que é pior, de 'guerra santa'", criticou.
Porém, junto com a violência abertamente bélica acontece outra tanto ou mais impiedosa: a da miséria e da pobreza. O egoísmo, a ambição e o materialismo tomam conta do cenário mundial. Poderosos capitais transnacionais impõem o modelo neoliberal e a universalização do mercado, respondendo aos interesses capitalistas mais injustos e desumanos que se recordam, assinalou Dellutri.
"Caminhamos para um futuro em que 500 milhões de pessoas viverão na opulência, enquanto 5,5 bilhões sofrerão com a fome e a miséria", vaticinou.
Se o panorama internacional não é alentador, o que ocorre dentro da Argentina também se reveste de extrema gravidade. "Somos um país em quebra, com profundos problemas sociais e aterradores quadros de pobreza e miséria. Vivemos em meio ao terror, sobressaltados pela constante insegurança, confundidos pelos limites imprecisos entre delinqüentes e servidores públicos. Por que traçar este sombrio panorama nesta celebração? "Porque, como cristãos, não podemos fazer de nossa fé uma borbulha para nos narcotizarmos de espiritualidade e deixar de ver a descarnada realidade que nos rodeia", definiu Dellutri.
Hoje o roubo, a morte e a destruição parecem prevalecer na sociedade argentina. Por isso é preciso voltar os olhares e o coração para Jesus Cristo, porque é o único capaz de conceder a verdadeira vida. "Como argentinos, temos que convocar-nos uns aos outros a um genuíno arrependimento. Sem esta renovação espiritual que nos conduza a uma mudança de conduta não haverá nenhum futuro venturoso. Hoje estamos rodeados de sombras que nos assustam. É chegado o momento de colocar-mos frente a Deus, de cara ao sol", concluiu.
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