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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Maricel: enfatizar a beleza é importante para a mulher negra [Foto: E. Behs]
Maricel: enfatizar a beleza é importante para a mulher negra [Foto: E. Behs]

Sou negra e sou formosa

Entrevista: Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil, Agosto 27, 2004

Ao iniciar a conferência "Sou negra e sou formosa", que proferiu no I Congresso de Taxi Heathrow Airport Gênero e Religião, reunido em São Leopoldo, dias 18 a 20 de agosto, a Dra. Maricel Mena Lopez abriu o sorriso, marcando os lábios bem definidos por um batom vermelho forte e, com muita presença, perguntou: "O título não tem tudo a ver comigo?"

"Às vezes fico nervosa e foi uma maneira de descontrair", confessou essa colombiana de 37 anos de idade, a caçula numa família de oito irmãos e irmãs, natural de Cali, Colômbia, referindo-se à abertura da palestra. Maricel veio ao Brasil em 1995 para fazer mestrado e doutorado em Ciências da Religião. Hoje, ela é professora de Antigo Testamento na Escola Superior de Teologia (EST), em São Leopoldo.

Maricel e uma irmã foram as únicas da família Mena Lopez que conseguiram estudar, graças ao esforço da mãe, uma mulher branca que teve cinco filhos do primeiro casamento, costureira, que acabou criando sozinha os oito filhos, morando numa casa de dois quartos, sala e cozinha. Maricel conheceu cedo a discriminação. Familiares da mãe nunca aceitaram os filhos negros que gerou.

A caçula estudou em escola pública. Quando criança, teve problemas de locomoção e enfrentou cirurgia aos 11 anos de idade, passando, então, oito meses em hospital. Destacou-se nos estudos e por ter ficado entre as três primeiras no Ensino Fundamental conseguiu bolsa de estudo em colégio privado. Formou-se professora.

Começou o Ensino Superior na Filosofia. Conseguiu bolsa ao curso de Teologia para leigos católicos, semi presencial, na Universidade Javeriana, de Bogotá. Fez Curso Intensivo de Bíblia e, desde então, sempre esteve envolvida em trabalho teológico voltado a comunidades negras, seja em escolas, seja em centros culturais.

"Proselitismo etíope: uma proposta de leitura de Atos 8.26-40" foi o tema da dissertação de mestrado que desenvolveu junto ao Instituto Ecumênico de Pós- Graduação (IEPG) da Universidade Metodista, em Rudge Ramos, sob a orientação do professor luterano Milton Schwantes, que conheceu num dos cursos de Bíblia.

Schwantes também a orientou na tese de doutorado "Raízes afro-asiáticas nas origens do povo de Israel – uma proposta de reconstrução histórica-feminista", na qual focou a rainha de Sabá. Maricel é católica romana. Ela gosta de rir, "fazer palhaçadas", como diz, e contar piadas.

Junto a livros, na biblioteca da EST, numa fria manhã gaúcha, de pouco sol, Maricel concedeu entrevista à ALC. E pediu licença para pegar o batom vermelho antes de pousar para as fotos. Mas não lembrou de nenhuma boa anedota para incluir na entrevista.

ALC: Como é ser professora negra trabalhando numa instituição de formação vinculada a uma igreja que até há pouco tempo era conhecida, em muitos lugares, como a igreja dos alemães?

Maricel: Tenho uma boa circulação no mundo acadêmico, no mundo ecumênico. Em 2000, assumi aqui como professora visitante. Mas antes disso passei um semestre num instituto luterano em Frankfurt, na Alemanha. Então, eu já tinha uma caminhada com luteranos, mesmo porque o meu orientador, tanto no mestrado como no doutorado, foi o professor Dr. Milton Schwantes, que é muito ligado a essa cultura.

Mas também preciso dizer que senti um racismo dissimulado. No início do meu trabalho docente a resistência foi muito grande. Precisei provar que sou professora. Como tenho uma grande auto-estima, não me importei. Mas noto, no mundo acadêmico, que a gente precisa se desdobrar em três, quatro, para provar que é bom no que faz.

ALC: No Congresso de Gênero e Teologia você denunciou o feminismo branco. Por quê?

Maricel: O feminismo branco é de uma elite. Ele surge entre uma elite acadêmica, branca, mesmo porque era a classe média que tinha acesso ao mundo acadêmico. Ele colocou suas preocupações como sendo universais, válido para todas as mulheres, também as negras e as indígenas.

ALC: Você diria que existem, hoje, feminismos?

Maricel: Na América Latina há muitas características diferentes de feminismo. Muitas feministas, na região, não emergiram da classe média. Via de regra, no feminismo há uma tendência de se ver os diferentes rostos. Mas foi preciso brigar muito por isso, para que a mulher negra, a mulher indígena, fossem ouvidas. E é isso que se quer. O feminismo branco vê as mulheres negras, mas não como protagonistas. Protagonistas sempre são as brancas.

ALC: Dá para dizer que existe um feminismo negro, um feminismo indígena?

Maricel: Sim, o feminismo indígena um pouco menos elaborado, mas existe. Isso se deve porque as mulheres índias tiveram menor acesso à educação.

ALC: Quais são as bandeiras do movimento feminista negro?

Maricel: Diria que elas englobam três características: sexismo, classismo e racismo. A mulher negra é triplamente discriminada. A mulher branca, de classe média, só sofre sexismo. As pobres sofrem classismo e sexismo. Para a mulher negra entra, então, um outro elemento, que é o racismo.

ALC: E como é o homem negro?

Maricel: O homem negro é machista, androcêntrico. É preciso desconstruir isso na cultura negra. Os homens negros latino-americanos pegaram o machismo da cultura branca ocidental.

ALC: A mulher negra não ocupa um papel importante na religiosidade afro?

Maricel: As mulheres ocupam papel fundamental na religião. No canbomblé, por exemplo, elas fazem parte do sagrado, comungam com o sagrado. Elas estão em contato com o sagrado. No cristianismo a mulher serve para arrumar a igreja, não para ministrar a Santa Ceia.

ALC: Mas você é negra e cristã...

Maricel: A pluralidade é necessária. Tens que ir processando tuas raízes. Eu, particularmente, não me vejo dentro da tradição da religião dos Orixás, e isso não por ter algum tipo de preconceito. Há muitos negros cristãos. O cristianismo não é uma herança do Ocidente, ele também é africano. Ao trabalhar textos bíblicos recupero a tradição africana.

ALC: Onde isso fica claro?

Maricel: O povo de Israel surge no Egito, no Egito negro. O grande líder Moisés foi criado no Egito. Cinco das 12 tribos de Israel são africanas: Judá, Benjamin, Levi, Efraim e Manassés. Efraim e Manassés são filhos de Acená, a egípcia. Nas aproximações genealógicas encontra-se vínculos com a África.

ALC: O que você gostaria que acabasse de vez?

Maricel: O racismo, a xenofobia, o androcentrismo, o heterossexismo normativo, o patriarcado. Há tantas coisas que precisam ser mudadas...

ALC: O racismo também está presente na Colômbia?

Maricel: Na sociedade colombiana o racismo é mais forte do que aqui. Os bairros negros vivem numa espécie de "apartheid". O negro dificilmente consegue emprego.

ALC: Você não acha que o movimento negro peca, às vezes, pelo excesso de lamentações?

Maricel: Olha, vejo nele muitas proposições. Quando sugiro uma revisão epistemológica, a crítica ao universalismo, dizendo que outra coisa é possível, que a cultura negra tem elementos para tanto, então não estou me queixando, estou construindo. Quando se fala que negros têm identidade, se constrói em relação aos outros que são iguais a mim e está se fazendo uma mudança radical de fato. Quando se quebra paradigmas não se está chorando.

Dizer que se trata de lamentação é uma desculpa de quem não quer escutar, lembrar a história. Escutar, isso choca! Não tem que deixar o grito trancado, mas dar um passo adiante.

ALC: Do ponto de vista negro, você acha que um outro mundo é possível?

Maricel: É. A gente tem que acreditar nas utopias. O Fórum Social Mundial tem esse caráter inclusivo. Lá se pode ver o encontro de muitas espiritualidades. Trata-se de um espaço de poder conviver com os diferentes, sem hierarquias. Mas para que isso aconteça, os ricos tem que ceder.

ALC: Como seria o mundo que você sonha?

Maricel: Um mundo sem diferenças de classe, sexo e raça. Onde todos tenham acesso a tudo. Onde ninguém passa fome.

ALC: Você faz a crítica ao capitalismo?

Maricel: Com certeza. Os países ricos não repartem. Não se pode perder, ai, o eixo da economia, da política.

ALC: Que sistema político construirá esse mundo sem diferenças?

Maricel: Não se conhece ainda esse sistema político. Ele tem que ser construído. Achava que seria o comunismo. Mas não. Ele ainda não nasceu.

ALC: Ao abrir sua palestra "Sou negra e sou formosa", no Congresso de Gênero, você sorriu e perguntou se isso não teria a ver consigo mesma. Por quê?

Maricel: Porque sempre escutei que as mulheres negras eram feias, que os meninos não olhariam pra gente, de que eram pecadoras, boas só para a cama. Nosso corpo foi demonizado. Enfatizar a beleza negra é importante para nós.

A mulher branca vai ao salão de beleza e pede para ficar com o cabelo cacheado. Na praia, ela fica horas ao sol, mas isso tudo não é para ficar negra. É para ficar bonita. Já a negra quer ser branca. Não tem identidade.

Aqui no Sul passei a usar mais roupas africanas. Tem a ver com identidade, tem a ver com marcar a diferença.