
Viajando com Kobia de Ubuntu a Karibia
Manuel López, MADRI, España, Agosto 25, 2004
Coisa enfadonha, a religião? Bem fariam os que desqualificam a mensagem dos líderes religiosos por "extemporânea" em prestar alguma atenção na trajetória de Samuel Kobia, ministro metodista do Quênia e atual secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas (CMI).
Antes de cumprir um ano de sua eleição, Kobia cunhou não um, mas dois novos termos, duas palavras que vão diretamente ao dicionário do movimento ecumênico: "ubuntu" e "kairibia".
"Ubuntu" é a voz do zulu que designa "aquilo que torna os humanos humanos". Kobia lançou o "conceito ubuntu" em sua primeira entrevista coletiva na qualidade de secretário geral eleito do CMI, no dia 30 de agosto de 2003. Kobia queria inaugurar sua contribuição como africano no desempenho dessa função crucial. Um servidor dedicou ao tema uma coluna nesse sítio na rede, Ubuntu.
Onze meses depois, em discurso inaugural da Comissão Plenária de Fé e Constituição, reunida em Kuala Lumpur a partir de 28 de julho, Kobia lançou um novo conceito africano. Desta vez não é uma voz, mas um conjunto "trinitário" em torno de uma mesma raiz semântica: "karibu" – "karibia" – "karibia tena".
Trata-se de termos usados diariamente no Quênia, Tanzânia e outros países de fala suahili, da África Central e Oriental. "Karibu" é a palavra que usam para dar boas-vindas a um convidado. Mas a expressão "bem-vindo", "welcome", é um pálido equivalente de "karibu". Porque "karibu" é a palavra utilizada para dar boas-vindas a um convidado... ao estilo africano. Isto é, uma saudação que leva implícito o convite ao visitante para que se aproxime com o intuito de dialogar.
"Esse diálogo começa por saber como está o convidado", explicou Kobia, "para interessar-se depois por sua saúde e o bem-estar de sua família". "Também são feitas perguntas sobre o estado do gado e os cultivos no campo", acrescentou.
Mas "karibu" é apenas a introdução ao diálogo, que desembocará em questões sobre a própria vida. Essa é a fase da "karibia". Ser chamado depois ao "karibu" e à "karibia" supõe aproximar-se ainda mais para entabular uma verdadeira conversa na qual o diálogo entra em discursos éticos. Está subjacente ao conceito "karibia" o compartilhar mútuo de alegrias e problemas, mas trata-se também de buscar juntos a solução desses problemas.
"Nossa missão", declarou Samuel Kobia em recente entrevista a Juan Michel, publicada em ALC Notícias, "é ajudar as pessoas a redescobrirem a humanidade do próximo e o valor fundamental das relações humanas". Assim, receber o estrangeiro não é um problema, mas uma bênção. Kobia denomina isso de "teologia da hospitalidade".
"Karibu-tena". Essa é a fórmula suahili para a despedida. Antes de pensar tema para a próxima coluna, me vi examinando o meu próprio nível de "ubuntu". Vivo numa cidade, Madri, onde residem cidadãos procedentes de meia centena de países do mundo. O fato de que nunca chegam a ler esse artigo é irrelevante. O que importa é assimilar e pôr em prática a lição de Kobia em sua viagem de Ubuntu a Karibia...

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