Mosaico das dores do povo.
Antonio Carlos Ribeiro, RÍO DE JANEIRO, Brasil, Junio 29, 2002
O dia amanheceu chuvoso, dando a impressão de que nada de interessante poderia acontecer. Mas Taxi Heathrow Airport a manifestação pedindo esclarecimento das autoridades para o assassinato do jornalista Tim Lopes estava marcada.
Agendado pelo Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, esse evento já acontecera no domingo anterior, reunindo as poucas pessoas que decidiram marchar atrás de um carro de som.
Nessa ocasião, essa data já tinha sido marcada. A decisão se mostrou cada vez mais acertada com as contradições que apareceram no correr da semana.
O Ministério Público intervém na Prisão de Segurança Máxima em Bangu, depois que a Polícia Federal gravou ligações de telefones celulares, mostrando que criminosos ainda comandam o tráfico de dentro das prisões.
A governadora reivindicou ter sido avisada, mas as polícias ainda enfrentam dificuldades para prender traficantes, por vezes, logo libertados pela Justiça. E a sociedade fica novamente exposta à violência.
A caminhada começou tímida, com cerca de 30 pessoas e sob forte chuva, mas foi se adensando ao longo das avenidas Delfim Moreira e Vieira Souto, beirando o mar de ondas altas. A chuva se alternava, à medida que as pessoas desciam dos prédios ou abandonavam o passeio no calçadão para se somar ao grupo.
As vozes iam mudando. Do locutor do Sindicato, o microfone passou aos religiosos. Um bispo anglicano, um pastor luterano e um frade capuchinho católico marcaram a presença das Igrejas.
Depois vieram entidades profissionais, entre as quais a OAB, movimentos como o Viva Rio e da Vítimas do Palace, e, por último, depoimentos diversos de vítimas da violência. O cenário final era um mosaico das dores do povo, da cidadania não garantida e das violências diversas a que nossa gente está entregue.
Os repórteres ocupavam duplo papel. Pela primeira vez, a maioria eram os profissionais da Rede Globo de Televisão. Sem microfone e câmera, eram homens e mulheres comuns que vivem do seu trabalho, se sentiram ameaçados ao sofrer a perda do colega e foram obrigados a dar a trágica notícia. Não representavam a emissora.
Outros, em bem menor quantidade, captavam imagens, colhiam depoimentos e tiravam fotos. É interessante observar como os profissionais da informação se comportam quando estão dos dois lados do drama.
Outro fato que despertou a atenção de quem acompanha manifestações públicas nesta cidade há mais de duas décadas foi o total silêncio no ataque à emissora do Jardim Botânico, por razões políticas e ideológicas.
Pode não ser verdade, mas deixou a profunda sensação de que a ira desmesurada cede lugar a certa civilidade. Não rejeita os parceiros possíveis, porque o inimigo é poderoso e é comum. Situação típica de momentos de tragédia, talvez seja descrita na expressão de Cazuza, o poeta que era a cara da cidade: "digo alô ao inimigo, descubro um abrigo no peito do meu traidor".
Por último, a presença das Igrejas adquiriu significado ao mesclar-se à densidade do problema. Não foi apenas por orar o Pai-Nosso, a pedido do presidente do Sindicato dos Jornalistas, Nacif Elias, mas por perceberem que seu papel não se reduz à pregação da palavra e à administração dos sacramentos.
Elas não podem assistir caladas ao sofrimento de sua gente mas, como Deus, devem ouvir o clamor do seu povo. Jornalistas e religiosos vivem o mistério da palavra. Dita a Deus e dita a seu povo. São instrumentos da verdade e não seus donos. Fazem o papel do canário dentro da mina. Quando ele morre, todos correm risco de vida. Foi no sepultamento do jornalista Wladimir Herzog, concelebrado pelo rabino Henri Sobel, o cardeal Arns e o pastor Jaime Wright, que a ditadura militar começou a cair.
A acomodação nas casas, o dizer que é uma morte como outras ou simplesmente guardar silêncio só favorece a ordem, mesmo injusta, cruel e desumana. Não dizer nada diante do narcotráfico é sancionar a brutalidade, legitimar a injustiça e aplaudir a agressão.
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Antonio Carlos Ribeiro, Jornalista e pároco da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.
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