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Sábado, 11 de Setembro de 2004

Promotoria de Nüremberg arquiva denúncias de casos de desaparecidos na Argentina

Esteban Cuya, NUREMBERG, Alemania, Agosto 9, 2004

Centenas de pessoas de diversas partes do mundo enviaram cartas, faz e mensagens eletrônicas a Taxi Heathrow Airport autoridades do Judiciário e políticos alemães, manifestando assombro e preocupação quanto à decisão da Promotoria de Nüremberg, que nega o direito à verdade e à justiça para um grupo de seis famílias judias-alemãs, cujos filhos foram vítima de seqüestro perpetrado por forças militares argentinas e que desapareceram.

A Promotoria de Nüremberg ordenou, de surpresa, o arquivamento das denúncias dos casos dos seis cidadãos descendentes de judeus-alemães seqüestrados, desaparecidos e/ou assassinados na Argentina entre 1976 e 1983. As denúncias foram apresentadas pelos advogados da Coalizão contra a Impunidade em 1998 e 1999.

Trata-se dos casos de Alfredo José Berliner, de 29 anos; Leonor Gertrudis Marx, de 28 anos; Alicia Nora Oppenheimer, de 22 anos; Walter Claudio Rosenfeld, de 21 anos; Juan Miguel Thanhauser, de 23 anos; y Marcelo Weisz, de 25 anos. Todos eles nasceram na Argentina em famílias judias-alemãs.

O argumento da Promotoria para o arquivamento das denúncias é que nenhuma dessas seis pessoas pode ser considerada "alemã" segundo o sentido estabelecido pela Constituição da Alemanha.

Nenhum deles contava, no momento do desaparecimento, com a nacionalidade germânica, segundo a Promotoria de Nüremberg. Por essa razão, a Promotoria entendeu que não tinha competência para julgar os crimes contra essas pessoas. Retomou, assim, o argumento utilizado em 1999 pela Promotoria Geral da Alemanha, que recomendou nessa oportunidade o fechamento dos casos.

Foi o regime nazista que, em 1941, anulou por decreto a nacionalidade alemã dos cidadãos judeus-alemães que residiam há várias gerações na Alemanha. Para salvar suas vidas da violência dos nazistas, que afetou a milhares de judeus europeus, muitas famílias judias emigraram, entre 1930 e 1944, para diversas partes do mundo.

Muitos foram à Argentina, aonde chegaram na condição de "apátridas". Seus descendentes, que teriam direito à nacionalidade alemã, não a puderam obter por causa da lei nazista de 1941, que atingira todos os judeus residentes na Alemanha.

Ainda que a lei nazista tenha sido posteriormente anulada, ficou decretado que todos aqueles que haviam perdido a nacionalidade alemã poderiam recuperá-la automaticamente. Para as pessoas que viviam no exterior foi exigida a declaração da vontade de recuperar a nacionalidade alemã, para o qual foi fixado um trâmite. Duas das seis vítimas já haviam recebido o passaporte alemão.

Anos mais tarde, já na Argentina, as famílias judias, entre outras, voltaram a ser objeto de violência por parte dos militares, influenciados por um forte sentimento anti-semita. O fato ficou comprovado pela Comissão Nacional de Desaparecidos (Conadep), que investigou os casos de desaparecimento na Argentina durante a ditadura militar de 1976 a 1983.

A Promotoria de Nüremberg decidiu encerrar as investigações desses casos, apesar de não haver ter empreendido qualquer investigação cuidadosa de todos os implicados nos crimes, como o ex-policial Julio Simón, conhecido como "Turco Julián". Em maio de 1995 ele confessou perante câmaras da televisão argentina ter feito desaparecer a família Weisz.

Tampouco ficou esclarecido o papel do ex-militar "major Peirano", torturador argentino infiltrado na embaixada alemã nos anos da ditadura, para obter clandestinamente informação sobre os desaparecidos alemães. A Coalizão Contra a Impunidade exigiu da Promotoria que interrogue esses dois agentes da repressão.

A senhora Ellen Marx, 84 anos, que perdeu a filha Leonor Gertrudis Marx na Argentina, declarou em Buenos Aires que, mesmo não compreendendo a decisão da Promotoria de Nüremberg, ela sente o desafio de continuar lutando com mais forças para conseguir a tão aguardada verdade e justiça.

A Coalizão Contra a Impunidade empreendeu, com o apoio de diversas organizações de direitos humanos, campanha de protestos em nível mundial, demandando a continuação das investigações, até que seja alcançada a verdade e a justiça que os familiares dos desaparecidos reclamam.

Se a Promotoria persistir no arquivamento das denúncias, ela estará ignorando os grandes avanços alcançados ultimamente no campo do direito internacional dos direitos humanos, como o demostram as investigações contra o ex-ditador chileno Augusto Pinochet e o ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger em andamento na Espanha, Argentina e Chile, por sua responsabilidade no terrorismo de Estado praticado no Cone Sul da América nos anos 70 e 80.


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