
Riso santo
Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil, Agosto 7, 2004
O culto iniciou com louvor, acompanhado por uma banda estridente. Aos poucos o som dos Taxi Heathrow Airport instrumentos foi subindo. O dirigente do culto, por sua vez, puxava os hinos e intercalava versículos bíblicos e outras frases de efeito.
Lentamente, a música empolgava a todos e o dirigente pedia insistentemente que o Espírito viesse. Depois de 20 minutos, as pessoas começaram a cair. Possuídas pelo Espírito, ficaram deitadas por alguns momentos sem que ninguém se ocupasse delas.
No auge do louvor, abruptamente os instrumentos cessam. A calma e o silêncio produzem um ambiente de tranqüilidade. O pastor faz, então, um pedido de oferta e traz outros avisos. Segue com uma pregação sem grande empolgação, mas bem elaborada. Todas as pessoas estão atentas.
Após a pregação, voltam os cantos acompanhados com instrumentos. O pastor intercala versículos bíblicos e outras admoestações. A música sobe junto com um ritmo cada vez mais rápido.
O pastor pede que as pessoas formem duplas conforme o sexo. Uma pessoa vai orar pela outra, recomenda o pastor. O som é ensurdecedor. As pessoas abraçam-se e gritam. Choram, pulam, giram, inclinam-se, balançam o corpo, babam, dão ordens ao Senhor. E o riso toma conta do ambiente. Muitas caem ao chão. Lá ficam, como prova de que estão embriagadas pelo Espírito e no pleno gozo do Senhor.
O riso santo e a embriaguez do Espírito são a marca principal da nova onda pós-pentecostal, chamada a Bênção de Toronto, paralela à Guerra Espiritual e à Teologia da Prosperidade. O riso que toma conta do ambiente, como se estivessem "embriagados" (Atos dos Apóstolos 2.12.), incorpora a zombaria à festa de Pentecoste e dá o tom e a tonalidade ao culto.
A "nova onda do Espírito Santo", como é conhecida nos meios pentecostais, pós-pentecostais e carismáticos, iniciou-se em 1994. Na igreja de Airport-Vineyard, em Toronto, Canadá, aconteceram fenômenos estranhos, até então desconhecidos nos meios evangélicos.
Desde então, o riso santo e a embriaguez pelo Espírito se espalham pelo mundo afora, alcançando várias igrejas e, em alguns casos, como no Brasil, formando a Comunhão Ágape.
Um dos seus grandes pregadores, que reúne multidões, assim descreve a embriaguez pelo Espírito: "Foi como se alguém repentinamente houvesse se aproximado com um fósforo aceso na gasolina. Nesse momento caiu o fogo de Deus sobre mim envolvendo-me num fogo claro e brilhante. Fiquei embriagado e fora de mim pelo Espírito Santo. Começou um riso incontido que se tornava em choro, em falar em línguas. Quatro dias estive sob a glória de Deus e quase não pude agüentá-la."
Como o Espírito sopra quando e onde quer (João 3.8), ninguém pode tolher a liberdade de se manifestar desta maneira. Estranho que ele sempre se manifesta sob condicionamentos ritualísticos, sob forte impacto de músicas e de ritmos altos e intensos. Não seria, pois, a emoção, uma tentativa, como tantas outras, de prender o Espírito?
O profeta Joel tem uma visão extremamente democrática da efusão do Espírito Santo, e não condicionada por rituais. Depois disto, o Senhor derramará o seu espírito sobre toda carne (Joel 3).
Esse texto do profeta é antecedido de uma visão de abundância material. Os animais do campo exultarão de alegria pelos pastos que se tornaram verdes por causa da chuva de outono, que se assemelha à justiça.
A chuva da primavera cairá copiosamente. As eiras estarão cheias de trigo, as tinas transbordarão de vinho e óleo novo. Enfim, comerão até se fartar e não haverá mais vergonha no meio do povo. O riso será fruto da fartura.
O louvor testemunha a fartura porque o Espírito é e será derramado sobre toda a carne, indistinta e incondicionalmente, sem privilégios. Toda a criação é e será embriagada pela justiça de Deus. Então, o riso não será apenas fruto de um momento ritual.
-------------
Oneide Bobsin, Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo/RS/Brasil.

Portada
Início
Comenta este artigo