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Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007

Angel Furlan, ex-presidente da Igreja Evangélica Luterana Argentina, coordena o Programa sobre Dívida Externa Ilegítima. [Foto:ALC]
Angel Furlan, ex-presidente da Igreja Evangélica Luterana Argentina, coordena o Programa sobre Dívida Externa Ilegítima. [Foto:ALC]

A usura eqüivale a apoderar-se da vida do outro, diz Furlan

Manuel Quintero, QUITO, Ecuador, Julho 29, 2004

No "Mercador de Veneza", uma das obras mais populares de Shakespeare, o judeu Shylock, que Taxi Heathrow Airport vive de juros, faz um convênio com o seu arquiinimigo, o comerciante Antônio. Segundo o convênio, se Antônio descumprisse o pagamento do empréstimo dentro do prazo estabelecido, teria que pagar a Shylock com uma libra de carne do seu próprio corpo.

O pastor Angel Furlan, da Igreja Evangélica Luterana Unida da Argentina (Ielu), atualiza o drama shakesperiano para analisar o que ele denomina de "dívida ilegítima" dos países latino-americanos.

"A usura é um crime porque ela se apodera da vida das pessoas, porque lhes tira a vida, e isso é o que está ocorrendo com a dívida dos povos latino-americanos", assinala.

O pastor luterano argentino está em Quito, onde participa do Fórum Social das Américas, evento que teve início no domingo e que reúne milhares de militantes e ativistas de muitas causas justas, entre elas dos que reclamam o fim do pagamento da dívida externa.

Com outros pastores e bispos luteranos do continente, Furlán promoveu de forma consistente a participação das igrejas e organismos ecumênicos numa batalha de proporções épicas, na qual se joga o presente e o futuro de milhões de latino-americanos.

Graças sobretudo à pressão dos luteranos da América Latina, na última Assembléia Geral da Federação Luterana Mundial (FLM), realizada no Canadá, em 2003, foi aprovada declaração pública pedindo às igrejas membros que se somem às ações que impulsionem a luta contra o pagamento da dívida.

Segundo o reverendo Furlan, no caso da Argentina há razões muito poderosas para declarar a ilegitimidade da dívida.

A dívida argentina foi contraída por governantes ilegítimos e a maior parte do dinheiro recebido nunca chegou ao país. Parte desses empréstimos foram utilizados para comprar armas e financiar a guerra das Malvinas, e é moral e éticamente inaceitável que se pague por dinheiro que serviu para ceifar milhares de vidas humanas. Depois, a Argentina já pagou o capital emprestado, explica.

Furlan e o pastor Pedro Schaad, da Igreja Evangélica do Rio da Prata (Ierp), são os coordenadores do programa que analisa a incidência da dívida externa nas políticas públicas, um programa auspiciado pela FLM.

"Vamos tomar o caso da Argentina como base para desenvolver estratégias e ações de incidência das igrejas nas políticas públicas em relação ao pagamento da dívida externa. Isso inclui a animação e a capacitação, assim como o diálogo com organizações da sociedade civil que estão comprometidas nessa luta", aponta.

Uma contribuição específica das igrejas seria a oferta da sua capacidade de mediação e de diálogo para levar a uma mesma mesa diferentes organizações e forças sociais e políticas que apontem para o mesmo objetivo, mas com estratégias diferentes.

"Isso nos permitiria encarar o perene problema da divisão das forças progressistas e de esquerda no seio da sociedade civil", afirma.

Ainda mais importante seria a contribuição, "a partir da perspectiva da fé, de uma fé vivida como esperança ativa que crê e defenda a vida e luta por ela.

Isso nos permite introduzir um elementos de utopia escatológica e mobilizadora no processo", destaca.

No drama de Shakespeare, Shylock se vê obrigado a desistir de sua reclamatória uma vez que, se tomar a libra de carne derramará sangue do corpo de Antônio e sua vida seria ceifada imediatamente, já que a morte de Antônio não estava estipulada no contrato. No veredito final, o tribunal condena o usurário por ter atentado contra a vida de um cidadão de Veneza.

Como na Veneza do século XVI, as igrejas e os organismos ecumênicos têm a obrigação de denunciar a dívida como um atentado contra a vida de milhões de latino-americanos, conclui Furlan.