Voltar ao início

Sábado, 10 de Novembro de 2007

Comunidades de fé vão trabalhar para erradicar as causas da Aids

Manuel Quintero, BANGKOK, Tailandia, Julho 16, 2004

Documento conjunto dos líderes das grandes religiões que participaram na XV Conferência Internacional sobre Aids expressa seu compromisso de trabalhar para a eliminação das causas da epidemia do HIV e da doença em escala mundial.

O documento afirma que religiões vão lutar contra "a desigualdade de gênero, o preconceito contra aqueles cujo estilo de vida ou orientação sexual são diferentes dos da maioria, a injustiça econômica e a desigual distribuição da riqueza".

A "declaração de compromisso dos líderes religiosos" foi assumida por budistas, cristãos, hinduístas, judeus e muçulmanos que participaram do evento. Ela é resultado de meses de trabalho e de delicadas negociações que procuraram evitar que as diferenças doutrinárias representassem um obstáculo no caminho para o consenso.

Porém, o frágil consenso esteve a ponto de romper-se quando os delegados que participaram de uma reunião com os líderes religiosos argumentaram a favor da inclusão no documento de temas controversos, entre eles a desigualdade de gênero e o uso da camisinha.

O acento que algumas igrejas evangélicas e a Católica Romana concedem a dois aspectos - abstinência e fidelidade - apoiadas pelo governo dos Estados Unidos, foi objeto de duras críticas durante a reunião de Bangkok.

Um dos conferencistas, o holandês Raol Fransen, comentou que "a ênfase nessa estratégia é um exemplo da imposição da desonesta moralidade de uma geração sobre outra". Acrescentou que "a chave para a prevenção não se arraiga em ideologias, mas em oferecer opções à juventude".

O governo Bush destinou a enorme soma de 15 bilhões de dólares a um programa mundial de luta contra a Aids, porém uma terceira parte dessa quantia está dedicada a organizações cristãs ou de outras religiões que promovem a abstinência como método de conter a epidemia.

Algumas igrejas evangélicas rechaçam o uso da camisinha por considerarem que ela fomenta a promiscuidade. Outras alegam que em muitas sociedades as mulheres não têm controle sobre sua sexualidade e, portanto, a fidelidade é uma prerrogativa dos homens. Em conseqüência, a ênfase na fidelidade somente serve para perpetuar a desigualdade de gênero e a vulnerabilidade das mulheres frente ao HIV e a Aids.

Ainda que a disciplina imponha o silêncio a muitas vozes em desacordo, também no seio da Igreja Católica o tema do uso da camisinha segue sendo matéria de acerbada disputa.

De acordo com matéria da agência UCAN, na reunião dos participantes católicos da conferência um sacerdote que trabalha na África disse que a posição da Igreja Católica a respeito da camisinha era cientificamente errônea. Essa postura, agregou, está "estragando" o bom trabalho realizado pelos católicos nas comunidades locais.

Outro sacerdote, que trabalha na América Latina, assinalou: "Chega de mentir. Digamos a verdade acerca da camisinha e reconheçamos que uma mudança de comportamento não ocorre da noite para o dia".

Superando o estigma

Na conferência prévia em Barcelona, em 2002, organizações não-governamentais e da sociedade civil envolvidas na luta mundial contra a Aids criticaram duramente os líderes religiosos por suas atitudes que, disseram, fomentam a discriminação contra os enfermos de HIV e Aids.

Em Bangkok, ao contrário, várias personalidades, como o diretor do programa das Nações Unidas para a Aids, Dr. Pier Piot, não hesitaram em destacar o papel positivo das comunidades de fé na assistência aos enfermos e o grande potencial que líderes religiosos têm de influenciar atitudes e comportamentos nas comunidades que contribuam na prevenção da enfermidade.

Já outras, como o professor Dennis Altman, uma reconhecida figura internacional na luta contra a Aids, criticaram o que qualificaram de "hipocrisia" da maioria dos governos e líderes religiosos. Altman denunciou as formas como "os fundamentalistas de todas as confissões perpetuam as desigualdades de gênero e de sexo que alimentam a epidemia".

O documento dos líderes religiosos reconhece que a resposta da comunidade de fé à epidemia foi motivada, muitas vezes, pelo "preconceito, a ignorância, o medo e os juízos de valor". Em conseqüência, comprometem-se a superar "o estigma, a discriminação, a rejeição e o temor a respeito do HIV e da Aids", e a rechaçar "as posturas negativas de alguns líderes religiosos que assinalam que a Aids é uma forma divina de castigo ou retribuição".

Se a comunidade de fé contribuiu para a aparição do estigma, ela mesma aparece estigmatizada aos olhos de muitos por causa da sua intolerâcia e rejeição de homens e mulheres afetados pela doença. Corresponde à comunidade de fé, como assinalou a Dra. Mercy Odoyuye na reunião ecumênica prévia à conferência, "um retorno à sua razão original, que não é outra do que a de apoiar e sustentar a vida que Deus criou".

Os estigmas não morrem facilmente. Mas se as promessas e os compromissos dos líderes religiosos em Bangkok se traduzirem em fatos concretos, a comunidade de fé terá feito o necessário para apagar seu própria estigma, somando seu valioso aporte para a erradicação das causas da epidemia mais mortífera na história da humanidade.