Uso da camisinha divide comunidades de fé
Manuel Quintero, BANGKOK, Tailandia, Julho 13, 2004
Quando o governo do Brasil - o país com a maior população católica do mundo - distribuiu o número recorde de 10 milhões de camisinhas no mês de fevereiro, às vésperas do Carnaval, a medida provocou uma reação negativa da Igreja Católica que, como seus pares em outras partes do mundo, é contrária à distribuição de contraceptivos.
A Igreja Católica prega a castidade e alega que a única resposta efetiva à epidemia de Aids é o comportamento moral, um comportamento que rechaça a promiscuidade e pratica a abstinência e a fidelidade nas relações sexuais.
Há poucos meses, cardeais católicos chegaram a afirmar que o uso da camisinha não assegurava a proteção contra a infecção do vírus da imunodeficiência humana (HIV), o que para muitos significou um ataque imprudente e infundado contra um dos métodos universalmente aceitos para o sexo seguro.
No Quênia, um dos países africanos mais seriamente atingidos pela epidemia da Aids, o Conselho Nacional de Igrejas (NCCK, a sigla em inglês) tem demonstrado uma atitude radicalmente diferente: solicitou ao governo que considere uma redução no preço das camisinhas femininas, já que, como disse a presidenta do organismo, Mary Githinji, essa medida ajudaria a reduzir as doenças sexualmente transmissíveis, entre elas o HIV e a Aids.
A atitude do NCCK é comum a outros organismos eclesiais africanos nos quais a Igreja Católica não participa. Em reunião realizada em Nairobi, em junho, a Conferência de Igrejas de Toda África promoveu o uso da camisinha como uma ferramenta para prevenir a infecção do HIV. O presidente da Conferência, reverendo Nyasako-Ni-Nku, disse que aqueles que se opõem ao uso da camisinha logo vão se dar conta quão importante ela é para salvar vidas humanas.
Em algumas igrejas evangélicas que não são necessariamente contrárias ao uso de anticonceptivos, a oferta da camisinha como um dos principais meios para evitar a infecção do vírus da imunodeficiência humana eqüivale a promover a promiscuidade.
Por isso preferem uma aproximação mais integral para encarar o problema que a abstinência, a fidelidade e, se elas não são possíveis, o uso da camisinha acarretam. Porém, nem sequer essa estratégia satisfaz a todos na comunidade cristã, porque em muitas congregações e sociedades, afirmam, a decisão final sobre a abstinência e a fidelidade é uma prerrogativa quase exclusiva dos homens.
Assim como nas igrejas cristãs, a comunidade islâmica não escapa do polêmico e delicado debate. Assim como os prelados cristãos, os líderes islâmicos temem que o uso da camisinha abra a porta para as relações extramatrimoniais, que são estritamente proibidas no Alcorão.
Os muçulmanos liberais aceitam o uso da camisinha em alguns casos, quando se trata de proteger a vida de um dos cônjuges. Porém, na Somália, um país de maioria muçulmana, os líderes islâmicos disseram recentemente que proibiriam o uso da camisinha, e que aqueles que a vendem ou a utilizam seriam castigados segundo a Sharia ou lei islâmica.
O problema alcança maior virulência quando os líderes religiosos sentem-se obrigados a criticar as campanhas governamentais contra o uso da camisinha. Porém, em alguns países que são duramente açoitados pelo flagelo da Aids, esses líderes têm assumido uma atitude de não interferência nos assuntos públicos.
"Nós não criticamos as políticas do governo neste campo, mas dentro da comunidade islâmica afirmamos os ensinamentos do Islã no sentido de que as relações sexuais somente podem ter lugar dentro do matrimonio", disse Racha Satrohman, um professor tailandês do islamismo, que participa da Conferência Internacional sobre Aids, em Bangkok.
No Senegal, os líderes religiosos e o governo parecem ter encontrado uma fórmula mutuamente satisfatória para abordar o assunto; os bispos católicos e os imanes se concentram na pregação da abstinência e da fidelidade, porém não se opõem às campanhas públicas que promovem o uso da camisinha. O governo, por sua parte, assegura que essas campanhas não sejam estridentes em demasia e que incluam também um chamado a uma sexualidade responsável.
Uma solução salomônica que governos e líderes religiosos em outros países deveriam considerar, enquanto os teólogos morais e os professores de Alcorão continuam seus debates e chegam a um consenso sobre o tema.

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