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Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007

História de Guadalupe ilustra drama dos migrantes e a aids

Manuel Quintero, BANGKOK, Tailandia, Julho 10, 2004

A história de Guadalupe, uma criança mexicana de sete anos nascida em Jalisco, foi apresentada Taxi Heathrow Airport pelo reverendo Hernán Quezada num dos seminários do encontro "Acesso para todos: a resposta da comunidade de fé", e ilustrou dramaticamente a vulnerabilidade dos migrantes frente à pandemia da Aids.

Miguel, o pai da criança, viajara aos Estados Unidos antes do nascimento da menina. Depois de passar cinco anos no país do norte, regressou temporariamente ao México, e dessa visita nasceu Guadalupe, carinhosamente chamada Lupita.

Voltou, então, aos Estados Unidos, de onde regressou cinco anos depois, sem forças para trabalhar, perdendo peso e febril. As análises foram tão claras como brutais: havia contraído Aids. A mãe, contagiada pelo marido, e a própria Lupita, também acabaram com Aids. Faltava saber se o bebê por nascer também teria a doença.

Miguel morreu antes do nascimento do seu segundo filho. A mãe morreu pouco depois, no parto, deixando órfãos Lupita e seu pequeno irmão, que foram recolhidos por uma tia materna.

Mas quando o marido da tia descobriu que as duas crianças eram portadoras do HIV, encolerizado e violento, exigiu da esposa que as tirasse de casa, temendo o possível contágio de seus próprios filhos.

A mulher, amedrontada, jogou o bebê no rio e levou Lupita a um mosteiro, onde uma monja a recebeu e aceitou ficar com a criança.

A migração internacional, que barateia os custos de produção nos Estados Unidos, serve de mecanismo para propagar o HIV no território mexicano, denunciou Quezada, um sacerdote jesuíta e líder do projeto Migração e Aids, na Universidade Ibero-Americana.

Segundo informação da Associação Administrativa de Serviço e Saúde (AASS), há cerca de 23 milhões de mexicanos nos Estados Unidos, dos quais mais da metade (12 milhões) nasceu no México; 8,5 milhões são migrantes com residência fixa naquele país e 3,5 milhões são trabalhadores temporais do setor agrícola.

De acordo com relatório do Conselho Nacional de Prevenção e Controle da Aids, da Secretaria de Saúde do México, um número significativo de casos de Aids tem antecedentes no país do Norte, e algumas das taxas mais elevadas de Aids correspondem a Estados e cidades onde ser verifica a maior migração para os Estados Unidos.

Por outro lado, 90% dos migrantes mexicanos nos Estados Unidos não têm acesso a serviços de saúde, e ao menos uma quinta parte do total padece duas ou três enfermidades crônicas. Só na Califórnia, 68% dos casos de HIV e Aids correspondem a pessoas nascidas no México, em sua maioria homens (77%) em idade de trabalhar.

"Os migrantes enfrentam a pobreza, a discriminação e a exploração, a alienação e o anonimato; o acesso limitado aos serviços sociais, educacionais e de saúde; a separação de suas famílias e a separação das normas sócio-culturais que regem o comportamento em comunidades estáveis. Todos esses são fatores determinantes de crescente risco de infecção pelo HIV para os migrantes e suas famílias", assinalou Quezada.

A migração não será detida, tampouco a Aids. A América Latina encara um novo rosto da epidemia, o rosto do Jesus migrante, que fugiu de Herodes, que emigrou nos braços de José e Maria em busca de oportunidades de vida. E isso traz novos e grandes desafios para as igrejas, concluiu Quezada.