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Igrejas são chamadas a praticar compaixãoComunidades de fé aliviam o sofrimento dos que vivem com HIV/Aids
Manuel Quintero, BANGKOK, Tailandia, Julho 9, 2004
O papel da comunidade de fé na luta contra a Aids foi destacado em painel Taxi Heathrow Airport que reuniu, nesta capital, representantes de igrejas, de organizações não-governamentais e da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A boliviana Gracia Violeta Ross Quiroga, da Comunidade Internacional de Mulheres que vivem com HIV e Aids, apresentou um dramático testemunho sobre a sua própria experiência ao reconhecer-se como portadora do vírus. "Nesse momento compreendi o sentido do meu nome, e o que a graça de Deus representa para os cristãos", disse.
Filha de família evangélica - seu pai é pastor -, Gracia viveu momentos de muita tensão quando soube de sua doença e considerou a idéia de contar o assunto aos pais.
Sabia que, em outros casos, a resposta fora negativa, inclusive de um pai, também pastor evangélico, que, ao saber que a filha solteira estava grávida, recomendou-lhe que abortasse.
"A resposta que recebi de meus pais demostrou que eles eram verdadeiros cristãos, que estavam repletos de compaixão. Também a resposta da minha congregação foi positiva. Na igreja, algumas senhoras me acompanham como grupo de oração", destacou.
Isso tem significado uma grande diferença, contou, "porque conheço muitas pessoas que têm o HIV e, ao não receberem apoio da família ou de uma comunidade, vivem tristes, abandonam os medicamentos e às vezes se suicidam".
O papel positivo das igrejas foi ressaltado pelo Dr. Jack Chow, representante da OMS. Ele relatou que viu, com os próprios olhos, em muitos rincões do planeta o valor da comunidade de fé.
"Quero agradecer-lhes publicamente pelo que têm feito, o que estão fazendo e o que farão para aliviar o sofrimento das pessoas que vivem com o HIV e a Aids", disse.
Chow mencionou vários aspectos da luta contra a enfermidade e disse que a comunidade de fé tem potencial para contribuir de maneira particular na educação e na prevenção, bem como na assistência às pessoas enfermas.
Destacou que 6 milhões de pessoas morrem de Aids, tuberculose e malária por ano, e que 38 milhões contraíram o HIV, enquanto que dezenas de milhões vivem o temor de contrair a enfermidade.
Relatório das Nações Unidas, divulgado na terça-feira, 6 de julho, aponta que, apesar do esforço global para conter a epidemia, os casos novos de infecções do HIV alcançaram no ano passado cifras sem precedentes.
Em 2003, 5 milhões de pessoas foram infectadas, número superior a de qualquer ano anterior. Nove de cada dez pessoas que precisam de tratamento urgente não o conseguiram. A prevenção alcança apenas uma de cada cinco pessoas, segundo o relatório.
Na América Latina e no Caribe, de 165 mil a 260 mil pessoas contraíram a doença em 2003, o que elevou para mais de 2 milhões de pessoas o número dos que convivem com o HIV/Aids no continente.
Países como Brasil reduziram a incidência de infecções, mas nos países do Caribe de fala inglesa a taxa de incidência entre os adultos encontra-se entre 1,9% e 3,1%, as mais altas no mundo depois da África Subsaariana.
A relação entre a epidemia e a pobreza encontrou eco na intervenção de outro painelista, o reverendo Michael Czerny, responsável para a África da Rede Jesuíta contra a Aids. Ele disse que mais de 95% das 38 milhões de pessoas que padecem da enfermidade vivem em países em vias de desenvolvimento.
"A pobreza reduz a capacidade e as opções das pessoas e, obviamente, é um obstáculo formidável, talvez o principal, para aceder à atenção e ao tratamento. Muita gente na África está morrendo de Aids por causa da pobreza", denunciou.
Além de compaixão, disse, é preciso competência para enfrentar a epidemia. "Necessitamos conhecimentos científicos, médicos e profissionais... e uma competência compassiva que inclua o espiritual e o ético, além de estar próximo às pessoas", manifestou o sacerdote jesuíta.
"Essa qualidade indispensável de ter uma competência horizontal é algo próprio das comunidades de fé, algo que poucos podem igualar", destacou.

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