![Germán Zijlstra, novo presidente do Sínodo das Igrejas Reformadas da Argentina [Foto: CLAI]](/picture/German_z.jpg)
Com Accra às portas, reformados diferem sobre "status confessionis"
Manuel Quintero, QUITO, Ecuador, Junho 24, 2004
Os delegados das mais de 200 igrejas congregacionais, reformadas, presbiterianas e unidas, procedentes de mais Taxi Heathrow Airport de 100 países e que se reunirão em Accra, África, em julho, para o XXIV Concílio Geral da Aliança Reformada Mundial (ARM), terão em suas mãos um tema de vital importância para a comunhão da família reformada: decidir se a ordem econômica mundial tem que ser rechaçada como "pecaminosa" e "herética".
O tema já colocou em posições opostas igrejas que têm uma compreensão diferente dos mecanismos da globalização, do papel do mercado na economia e de sua própria responsabilidade como "guardiã" da Criação.
"Muitas igrejas não vêem a necessidade de tomar uma posição frente à injustiça econômica, nem compreendem a forma como as igrejas do Sul enfrentam essa realidade", declarou o reverendo Germán Zijlstra, em uma visita a Quito de 16 a 19 de junho.
"Algumas igrejas do Norte estão temerosas de que, se enfrentarem essa realidade mediante uma tomada de posição clara e forte a partir da fé, afetarão suas relações com as grandes corporações, que são os pilares do sistema econômico mundial", disse Zijlstra, secretário executivo da Aliança de Igrejas Presbiterianas e Reformadas da América Latina (AIPRAL).
No ano passado, igrejas reformadas do Sul reuniram-se em Buenos Aires. Concluíram que "enquanto a economia de Deus é includente, a economia neoliberal é excludente. Enquanto que a economia de Deus é uma economia que protege os pobres, a neoliberal é uma economia que explora os pobres. Enquanto que na economia de Deus a riqueza flui do rico para o pobre, na economia neoliberal ocorre o inverso".
Em conseqüência, manifestaram rejeição à "propriedade absoluta de entidades privadas, trate-se de pessoas ou de empresas, porque nega a propriedade soberana de Deus sobre todas as coisas", numa franca denúncia de uma das doutrinas essenciais do capitalismo.
Algumas igrejas reformadas do Norte consideram essa posição "um tanto simplista e maniqueísta", segundo Paraic Reamonn, secretário de comunicação da ARM.
Ainda que exista um acordo geral dentro da Aliança de que "o mundo em que vivemos gera a destruição ecológica e a injustiça econômica numa escala inaceitável, o ponto de debate é precisamente como as igrejas reformadas devem responder a essa situação", disse Reamonn.
"Muitas de nossas igrejas na América Latina e em outras regiões estariam contentes se no Concílio de Accra sair uma declaração rechaçando a atual ordem mundial como um 'sistema pecaminoso', assim como o XXI Concílio Geral de Ottawa, em 1982, declarou o 'apartheid' na África do Sul", explicou.
O Concílio de Ottawa empregou palavras como "pecaminoso" e "herético", e declarou que o "apartheid" representava um "status confessionis".
As origens da doutrina do "status confessionis" remontam ao reformador luterano Matthias Flacius (1520-1575). Ele argumentou que num tempo de confissão, escândalo ou perseguição, assuntos que de outra maneira poderiam ser considerados secundários deixavam de ser neutros ou irrelevantes para a confissão da fé.
A adoção do "status confessionis" em relação ao "apartheid" sul-africano significou que as igrejas membros da ARM tinham que rechaça-lo como contrário à fé cristã. Em dado momento, ele provocou que várias igrejas reformadas sul-africanas, que legitimavam teologicamente esse regime, rompessem com a Aliança.
Porém, comentou Reamonn, as igrejas do Norte não estão contentes com essa maneira de abordar o problema.
"A dificuldade que elas encontram na posição de fé adotada em Buenos Aires é que, ainda que ela reflita a experiência de muitas igrejas do Sul, não pode ser comunicada e nem aceita facilmente por igrejas em outros contextos", assinalou.
Essas igrejas do Norte não são favoráveis ao emprego da linguagem de "status confessionis" e estão preocupadas com a tendência de "demonizar" os indivíduos e as instituições que são vistas como as principais responsáveis pelo problema, destacou.
Documento aprovado por líderes de igrejas européias que se reuniram no mês de abril em Utrecht, Holanda, assinala que, na tradição reformada, o "status confissionis" somente tem sido aplicado em casos de doutrina errônea da igreja
"Os fenômenos sociais ou econômicos, inclusive os de escala mundial, nunca foram qualificados para serem declarados na categoria do 'status confessionis'", argumentaram. Zijlstra, em troca, entende que existe uma tradição reformada que justificaria essa tomada de posição radical.
"O próprio Calvino, a fonte da qual os reformados bebem, foi bastante claro em sua crítica a um sistema econômico que não favorecia a vida humana. E em vários continentes e países houve exemplos de 'confissionis' frente a situações que afetavam a vida humana, como ocorreu durante o regime nazista e a Igreja Confessante na Alemanha", enfatizou.
Reamonn está preocupado que o debate converta a reunião de Accra numa "típica batalha presbiteriana em torno de um texto, com emendas às emendas das emendas".
"A grande questão será até onde podemos chegar de comum acordo em uma descrição do que está mal em nosso mundo, e o que o Evangelho nos desafia a fazer frente a essa realidade", disse.

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