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Quinta-feira, 24 de Junho de 2004

Doutor Oneide Bobsin
Doutor Oneide Bobsin

Self-service religioso

Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil, Junho 4, 2004

Aquela não foi mais uma batalha contra Deus e contra os homens como tantas outras. Taxi Heathrow Airport Foi a luta noturna que deixou para sempre marcas  na alma e no corpo. Depois de uma noite lutando com alguém anônimo (Gênesis 32.23 –33),  Jacó saiu abençoado, mas mancando  e com outro nome.

“Vencendo” a Deus, Jacó temerosamente se preparou para encontrar-se com seu irmão, do qual havia roubado o direito de primogenitura e que, agora, o acolhe com generosidade.

Lutar contra Deus e contra  os seres humanos é próprio de homens e mulheres, pois o maior inimigo de Deus não é o diabo, mas o próprio ser humano. E desta luta contra Deus as pessoas saem aparentemente vencedoras, com a ilusão da autonomia.

Foi Pico della Mirandola, em 1496, quem vislumbrou o mundo moderno que lentamente se libertava  da hegemonia de uma instituição eclesiástica.  Paulatinamente,  Deus deixaria de ser o centro. O mundo começava a fazer-se a si mesmo e as pessoas poderiam ser o que desejavam para si. 

O ser humano todo-poderoso era saudado porque poderia criar  a si mesmo. Por conseguinte, Deus e a Terra deixavam de ser centro do mundo. Assim, liberto de Deus poderia se auto-divinizar.

A linguagem das pessoas freqüentadoras de salões de beleza pode  revelar  a sensação de quem se cria a si mesmo. Ali, homens e mulheres dizem que são “produzidos” à imagem e semelhança   de outros homens e  de outras mulheres modelos, sacerdotes e sacerdotisas que  simbolizam os valores capitalistas.

Uma vez produzidas, as pessoas sentem-se na comunhão das vencedoras de corpos esbeltos e sorriso largo, como se o mundo fosse um grande spa e  uma academia de malhação que ditam os padrões para  cada corpo e cada alma. 

Assim sendo,  corpo é sacrificado e maquiado com produtos da indústria de cosméticos, produzindo uma nova imagem de si que afugenta o caos. Desta forma,  a luta  consigo mesmas e com as deusas e os deuses de nosso século produzem novos visuais.

A terra sem forma e vazia deixa de ser uma situação dos tempos imemoriais da gênesis do mundo e passa  a ser uma luta cotidiana para auto-produzir.

Desta luta as pessoas não saem mancando, mas marcadas no corpo e na alma. Promessas de auto-salvação fundamentam-se em auto-produção. Criam-se  espaços religiosos de self-service com fast-food espiritual. Cada um serve a si mesmo. Assim, o espírito do tempo se faz mensagem de auto-salvação pela auto-ajuda exacerbada. Os seres humanos vivem na sensação de serem auto-móveis, desvinculados dos outros.

Mas as propostas sedutoras  não são de hoje. Pendurado na cruz ouviu insinuações: salvou os outros,  salve–se a si mesmo, diziam os transeuntes. A outros salvou, a si mesmo não pode salvar, ironizam sacerdotes e escribas. Salva-te a ti mesmo e nós, disse um dos mal-feitores. Também os soldados ridicularizaram-no: Se  és Rei dos judeus, salva-te a ti mesmo.

Uma frase, porém,  que torna concreto  o caminho de Jesus que renega a auto-salvação foi encontrado num muro por um filho de um colega meu: “Todo homem quer ser rei; todo rei quer ser Deus; só Deus quis ser pessoa.” Por meio Dele fomos criados e Nele vivemos. Criamo-nos porque somos criados.

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Oneide Bobsin, Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo/RS/Brasil.