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Sábado, 6 de Novembro de 2004

Igreja venezuelana: órfã e sem voz

Igreja venezuelana: órfã e sem voz

Migdaleder Mazuera, CARACAS, Venezuela

A Igreja Católica venezuelana perdeu sua voz a partir de 11 de abril de 2002, Taxi Heathrow Airport quando seus maiores líderes foram flagrados na participação do golpe de Estado que derrubou, por algumas horas, o presidente Chávez.

Enquanto franco-atiradores matavam pessoas inocentes, os líderes religiosos ajudavam a planejar o golpe e seus documentos. Enquanto os golpistas matavam, insultavam, humilhavam e perseguiam simpatizantes do governo e seus familiares, os líderes religiosos tentavam convencer o presidente da República, constitucionalmente eleito, que renunciasse.

Imaginamos que isso deve ter se repetido em muitas partes do mundo. A diferença é que aqui ficou tão evidente que foi impossível ocultá-lo. Os personagens, ostentando um amplo sorriso, apareceram em todos os meios de comunicação durante os fatos vinculados ao golpe de Estado, em abril.

Muitos se perguntavam o que estariam celebrando com esse sorriso enquanto participavam de fatos tão terríveis como a assinatura da ata de constituição do governo golpista, quando passaram por cima da Constituição e das instituições, quando receberam o preocupado secretário geral da OEA, etc.

Ao fracassar o golpe, esses líderes ainda tentaram dirigir e intervir em comissões, mas alguma força os deve ter detido, bateram em retirada aos seus palácios e ficaram calados. Na atualidade, nenhum deles aparece no rádio, na televisão nem no jornal. Sua voz silenciou. Deixaram o seu rebanho órfão e sem voz.

Falamos da Igreja Católica enquanto hierarquia maior, porque se formos aos bairros, os padres continuam trabalhando e acompanhando um povo ativo e anônimo, mas presente nas missas, nas vigílias, nos grupos de música, nos grupos de estudo e reflexão, nos grupos de trabalho comunitário.

Lá pelo dia 18 de abril apareceu comunicado emitido pelos "bispos católicos que integram a Comissão Permanente do Episcopado", com uma mensagem totalmente contraditória à ação de seus líderes.

Contrasta com o quadro real a solidariedade que expressam com sua autoridade, quando a comunidade nacional sabe que tais pessoas participaram do golpe e não, como dizem, que teriam sido "fiadores da integridade pessoal do presidente".

Recentemente apareceram vozes de denúncia na Assembléia Nacional sobre as ações da Igreja Católica, e os primeiros chamamentos para que rompam o silêncio e se somem na busca da paz. Muitos se perguntam se vão fazê-lo, ou se o seu silêncio denuncia a continuidade da ação conspiratória.

E o que acontece no lado protestante?

Também a Igreja Protestante é órfã e sem voz? Não temos confirmação de que representantes dos grupos majoritários tenham participado do golpe, de sua preparação e derivados.

Mas vimos, sim, alguns deles acompanhando vigílias de massa, com as quais a oposição (a Chávez) lamentava as mortes ocorridas no dia 11 de abril, com rostos muito aflitos e palavras de muita identificação.

Também vimos outros nas vigílias e atos de massa oficiais, que choravam os mortos de 11, 12 e 13 de abril. Assim, podemos interpretar, sem temer equívocos, que existem representantes de grupos protestantes que estão com a oposição e favoreceram, com suas palavras e feitos, as tentativas dos golpistas, mas também existem outros líderes que acompanham o processo bolivariano.

É preciso mencionar que foram publicadas declarações de grupos protestantes a favor da paz, pela manutenção do filamento constitucional, pelo respeito à diversidade, pelo direito à participação quando essa é solicitada (o que soa como justificativa aos que acompanharam os setores golpistas), e a favor do clamor em oração para que reine a paz.

Apenas uma declaração foi a favor do governo e suas propostas. Nenhuma utilizou o termo "paz com justiça" ou "justiça que leve à paz". Mas, reconhecendo os esforços realizados, pode dizer-se que a Igreja Protestante segue sendo uma igreja com voz e presença, o que também foi reconhecido na Assembléia Nacional.

A igreja Evangélica Protestante está fazendo um trabalho, reconhecido, em favor da paz nacional. Ela está presente na Comissão da Verdade, na Comissão para o Diálogo Nacional e em múltiplos grupos e trabalhos a favor do processo revolucionário bolivariano e do diálogo nacional.

Essas expressões do sentir e pensar protestante não representam UMA VOZ, mas múltiplas vozes, pois não respondem a uma opinião de consenso, mas a de diferentes individualidades, que conseguem manifestar-se a partir de sua inserção em diferentes grupos organizados da sociedade civil.

Nesse sentido, podemos dizer que, apesar das vozes protestantes que se escutam, as igrejas, em seu conjunto, estão órfãs de oportunidades de diálogo e liderança. A liderança protestante, em sua maioria, soma-se à oposição. Os protestantes que assinam a proposta bolivariana não têm quem os represente enquanto organização grupal.

Falta sentar e dialogar, superar as divisões e os temores, encontrar líderes representativos que as convoquem. Dá a impressão de que toda a liderança evita o tema político porque teme perder sua membresia, teme ferir suscetibilidades.

Ainda não se alcançou a prática da tolerância, a convivência pacífica, o respeito às diferenças. Por isso também é uma igreja órfã.

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Migdaleder Mazuera é pastora da Igreja Presbiteriana da Venezuela, pároca da Igreja Presbiteriana La Esperanza, em Caracas, e diretora do Instituto Ecumênico de Estudos Superiores - IEES.