![Sturla Stalsett com a Anne e os filhos Eivor (3 anos) e Adne (5 anos). [Foto: Ingelore S. Koch]](/picture/Staalset_2_b8e073.jpg)
Não há lugar no globo para o "superman"
Entrevista: Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Junho 1, 2004
O sonho da invulnerabilidade humana perpassa a História e é um dos mais potentes motores Taxi Heathrow Airport do processo de modernidade, que hoje leva o nome de globalização. Esse sonho vê a vulnerabilidade como um erro, falta ou carência, que precisa ser superado.
"Estamos numa situação limite", alerta o teólogo norueguês, Dr. Sturla J. Stalsett, que declara, ao contrário da corrente hegemônica da atualidade, que a vulnerabilidade humana é um valor antropológico, ético e teológico fundamental. "O sonho da invulnerabilidade nos conduz ao inumano", proclama.
É preciso resistir àquela lógica mortal e propor uma lógica "antropo-lógica, polito-lógica e teo-lógica" alternativa. "Urge re-valorizar a vulnerabilidade humana", destaca, lembrando que "a força paradoxal da fraqueza e da vulnerabilidade é um tema constante na Bíblia".
Sturla, 40 anos, é professor de Teologia Sistemática na Universidade de Oslo e coordenador do Programa "Religião na Era Globalizada", desenvolvido naquela instituição.
O teólogo luterano esteve na América Central várias vezes, a iniciar pela Costa Rica, em 1985, quando estudava a teologia da libertação; acompanhou o trabalho diaconal da Igreja luterana em El Salvador em meio à guerra civil, depois, através do trabalho que realizou no Departamento para a América Latina em Ajuda da Igreja Norueguesa acompanhando o desenrolar do processo de paz naquele pais.
Professor visitante neste primeiro semestre letivo de 2004 na Escola Superior de Teologia (EST), em São Leopoldo, Brasil, Sturla ministrou seminário no Instituto Ecumênico de Pós-Graduação (IEPG) sobre crítica da teologia ao neoliberalismo na América Latina e proferiu palestras sobre "Globalização e vulnerabilidade". Contatado pela ALC, Sturla fala desse tema na entrevista abaixo.
ALC: Em recente palestra na Escola Superior de Teologia (EST) o senhor falou de vulnerabilidade e globalização. O que seria a vulnerabilidade?
Sturla: A vulnerabilidade é um valor que tem que ser resgatado do ponto de vista da antropologia, da ética e da teologia. A vulnerabilidade humana é um fator fundamental. Somente podemos viver em segurança se reconhecermos a própria vulnerabilidade e a vulnerabilidade do outro, protegendo essas vulnerabilidades e sabendo conviver com elas em tempos de globalização e antiterrorismo.
A globalização pode ser interpretada como uma vulnerabilidade com aceleração de processos, como a revolução tecnológica, a revolução digital, que aumenta a velocidade da comunicação, da informação.
Uma segunda causa é a ideologia da economia neoliberal, que propõe o mercado total como utopia. O resultado disso é uma instabilidade mais aguda, mais tensa. A vulnerabilidade toca a todos. O globo é o mesmo para todos. Mas é preciso reconhecer que a vulnerabilidade é assimétrica. Há os mais e os menos atingidos. Os mais vulneráveis são os excluídos, os pobres, as mulheres, as crianças, os países do Sul, os sem-terra, os indígenas. Os fortes, os ricos do primeiro mundo, não assumem essa vulnerabilidade como uma situação biológica, existencial.
ALC: E como se consegue fazer ver a todos essa condição humana?
Sturla: É preciso uma volta às raízes, às bases antropológicas da condição humana. Essa situação não é algo apenas inevitável, mas também é um valor, uma riqueza. A vulnerabilidade humana é dimensão antropológica constituinte que cria a necessidade de uma ética. Assim, a vulnerabilidade é um valor ético constituinte.
ALC: Por quê?
Sturla: Porque é uma característica do ser humano ser impactado, também a de ser ferido. Através da minha própria vulnerabilidade estou em condições de reconhecer a vulnerabilidade da outra pessoa, e o que ela requer de mim. A vulnerabilidade é um valor, porque ela nos faz seres humanos. O contrário seria inumano.
ALC: Mas o mundo dá mostras de buscar justamente o contrário, ou não?
Sturla: O sonho da vulnerabilidade total tem dominado todos os impérios da História. Ele foi e continua sendo um dos mais potentes motores do processo da modernização, que hoje se chama globalização. A civilização moderna busca cada vez mais ser invulnerável. Esse sonho vê a vulnerabilidade humana como erro, como falta ou carência, como algo que há que se superar. Mas quanto mais se busca isso, mais vulnerável ela fica, como é o caso das tecnologias e das guerras. A invulnerabilidade, caso isso fosse possível, seria inumana. O sonho da invulnerabilidade nos conduz ao inumano.
ALC: É possível fazer diferentes leituras da vulnerabilidade, dependendo do contexto, uma no primeiro mundo, outra no terceiro mundo?
Sturla: Basicamente, a condição humana é igual para todos. O problema de querer buscar essa invulnerabilidade é mais uma questão do mundo rico e privilegiado, também no Sul, e os impactos negativos de um mundo invulnerável são mais sentidos no terceiro mundo.
No mundo pobre e excluído – também no Norte - sofre-se a dor dos que crêem ter o poder e a riqueza para se fazer invulneráveis. Existem, contudo, maneiras de encarar isso, mesmo descobrindo que não se tem força suficiente para enfrentar um poder hegemônico. Povos indígenas, por exemplo, buscam maneiras, a seu jeito, de sobrevivência, de aplicar sua própria debilidade como uma força.
De uma perspectiva bíblico-teológica, há muito a oferecer como resistência a esse sonho da invulnerabilidade e suas conseqüências. A força paradoxal da fraqueza e da vulnerabilidade é um tema constante na Bíblia. Lembremos, a título de ilustração, que o povo escolhido por Deus no Antigo Testamento não o foi por ser forte, mas por ser pequeno e oprimido. Deus se apresenta como o Deus das viúvas e dos órfãos.
No Novo Testamento, o Messias não vem como o rei guerreiro esperado, mas como um menino pobre de origens incertas. Ele come com pecadores, alegra-se na companhia de mulheres e crianças. Chama para segui-lo pescadores e gente sem boa fama. A força de Deus se esconde na pobreza, na debilidade.
ALC: Como se fala dessa perspectiva num mundo com muitas religiosidades?
Sturla: Acho que seria muito interessante buscar as possibilidades de diálogo inter-religioso exatamente a partir deste ponto: a força na debilidade como valor religioso e humano.
O maniqueísmo e os aspectos divisionistas são um problema sério enfatizado nas religiões. Os fundamentalismos sempre mantiveram uma perspectiva muito forte. Nota-se isso muito bem nas igrejas pentecostais, que centram o discurso na busca da vitória.
Teologicamente, é importante sublinhar outros aspectos da fé em Cristo: que sua vitória é a vitória de uma vítima e surge da vulnerabilidade. Em Cristo, Deus mesmo se mostra vulnerável.
ALC: O que leva um teólogo a se preocupar com um tema como esse da globalização?
Sturla: Fui presidente do Comitê de Assuntos Internacionais da Igreja da Noruega. Trabalhamos nesse comitê olhando para a situação política mundial. Acompanhamos muito de perto os vários conflitos existentes na década passada e sentimos um mal-estar quanto ao modo de se pensar a segurança como conceito de política internacional. Vimos como podemos, como igreja, contribuir efetivamente para essa reflexão.
O tema da vulnerabilidade oferece uma outra possibilidade de se falar da segurança. Isto ficou visível nos atentados de 11 de setembro de 2001. Desde então todo o mundo fala de vulnerabilidade, mas como algo que deve ser superado.
Destaco que a vulnerabilidade é um valor, mas também que pessoas e comunidades têm o direito de receberem proteção. É importante resgatar o valor da vulnerabilidade, até mesmo de idealizá-la.
ALC: Mas o império usou a mesma lógica dos terroristas na resposta que está dando ao mundo depois dos atentados...
Sturla: Uma primeira coisa que se podia esperar depois dos atentados seria a proposta de uma conversação internacional. Mas a reação foi, sim, segundo a lógica terrorista, que não aceita vulnerabilidade alguma. Os terroristas fazem da vontade de matar através do auto-sacrifício sua arma principal e a glorificam através de uma teologia do martírio que somente se pode interpretar como um elogio ao assassinato. O barbarismo contra o barbarismo só radicaliza o sofrimento.
O projeto de globalização neoliberal, o projeto dos terroristas e dos antiterroristas se parecem muito. Não aceitam reconhecer-se como vulneráveis e dependentes de outros. Anelam a vitória total. Em seu mundo só caberá um mundo, e esse será o mundo segundo sua preferência, seus interesses, seus credos, tudo considerado como verdade absoluta.
ALC: O senhor se considera um otimista?
Sturla: No momento é muito difícil ser otimista. A administração norte-americana está sem vontade de resolver os problemas de fundo, nem mesmo os compreende, não entende o mundo não-norte-americano. Veja a situação no Oriente Médio, o conflito israelense-palestino. Veja o caso do Iraque. Os Estados Unidos estão sem saída no Iraque. Embora as diferenças sejam muito pequenas, existe a possibilidade de derrota do presidente Bush nas eleições de novembro. A esperança reside na existência de forças mais racionais no mundo.
Já entre as igrejas constata-se um consenso quase incrível diante desse quadro, cruzando, inclusive, as fronteiras religiosas. Uma mudança daquela lógica, se houver, não passa pelo espetacular.
ALC: O senhor vê possibilidades de reeleição de Bush?
Sturla: Eu não sou especialista neste tema, mas sei que existe uma fortuna enorme de dinheiro para ser aplicada na campanha de Bush. Olhando de fora, parece incrível que o povo norte-americano eleja esse administrador que tanto mal tem feito ao mundo, basta avaliar todas as mortes que ocorreram no Iraque depois que Bush anunciou o término da guerra.
ALC: As igrejas têm uma palavra a dizer nesse mundo globalizado?
Sturla: Acho que as pessoas começam a se rebelar contra a fragmentação da vida no nosso tempo. Há uma busca maior por religiosidade, por espiritualidade. O globo busca a sua alma.
As religiões podem responder de modo positivo, mas também podem responder de forma inadequada. Elas terão um papel positivo se beberem das suas próprias fontes. E isso passa pelo diálogo, pela cooperação, pelas alternativas econômicas e sociais.
ALC: Existem aspectos positivos na globalização?
Sturla: A consciência de interdependência pode ser positiva, pode levar à necessidade de cooperação, a uma política menos conflitiva. A possibilidade de proporcionar uma comunicação barata, que possa criar uma fraternidade internacional, é rica. Ela aumenta a consciência de pluralidade do globo, das culturas e das religiões. São grandes possibilidades, de modo especial para essa geração que está crescendo com o ferramental da Internet.
Por outro lado, é preciso lembrar que mesmo em pleno século XXI metade da população mundial nunca falou ao telefone. A revolução digital está fortalecendo a assimetria do mundo.
Ainda assim, a globalização nos seus aspectos culturais é estimulante, pois possibilita ter experiências humanas mais amplas. Trocamos experiências que antes não eram conhecidas.
ALC: Qual seria a saída? O desenvolvimentismo é uma alternativa?
Sturla: É difícil uma resposta. Primeiro, é necessário acabar com o mito de que todo o mundo pode pertencer a uma elite privilegiada. Se só a China for se motorizar como estão motorizados os Estados Unidos, o meio ambiente não suportaria o aporte de 1,3 bilhão de carros e motos, por exemplo.
Os benefícios da globalização não chegam a todos. Não há riqueza para todos. Além disso, ela é mal distribuída. É preciso ser realista e começar pelas necessidades básicas, que elas sejam garantidas para todas as pessoas do globo, incluído ai também o desejo de dignidade. É preciso construir alternativas a partir das bases, com mudanças fundamentais na estrutura global. Há possibilidade de construir uma humanidade mais justa.
Hoje não se diz, por exemplo, que o sistema não tem lugar para todos, que ele beneficia apenas algo em torno de 40% da população mundial. Apontar esse fato de modo profético é um novo começo. Mas é preciso trabalhar em muitos níveis ao mesmo tempo. É preciso trabalhar desde a base, num processo político, também nas igrejas, fazer a autocrítica, e não ter medo de também envolver-se com os dirigentes políticos e com os que são economicamente privilegiados.

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