![Marcha da polícia pelas ruas de Manágua [Foto: El Nuevo Diario]](/picture/A100.jpg)
Marcha da polícia pela paz surpreende nicaragüenses
Trinidad Vásquez, MANAGUA, Nicaragua, Maio 25, 2004
Uma marcha de policiais pela paz e a não-violência, ocorrida ontem nesta capital e em Taxi Heathrow Airport outras cidades da Nicarágua, surpreendeu a opinião pública. Pela primeira vez na história do país agentes da ordem expressam dessa maneira sua posição.
Os policiais desfilaram com cartazes pedindo "Não mais violência, sim à paz", e distribuíram folhetos que reivindicavam "Respeito à lei, respeito ao estado de direito".
O chefe da Polícia Nacional, Edwin Cordero, disse, no término da marcha pelo centro de Manágua, que a polícia está disposta a morrer pelo cumprimento da lei, porém "não sentimos prazer em matar estudantes, porque eles são nossos irmãos, filhos, sobrinhos e netos".
Na semana passada, Manágua e outras cidades foram cenário de violentos confrontos entre policiais e universitários, que reclamavam do governo o cumprimento de lei que ordena a aplicação de 6% do orçamento da República na educação superior. Os estudantes garantem que continuarão com os protestos até que se cumpra a lei.
O chefe policial agregou que sua instituição segue firme no combate à delinqüência e está disposta a chegar até o sacrifício para manter a paz e a segurança cidadã, mas não se dispõe a continuar batendo em estudantes e muito menos tirando-lhes a vida. No confronto da terça-feira passada, dia 18, o policial Róger Rodriguez perdeu a vida e dois estudantes ficaram gravemente feridos.
Na manifestação, os policiais também pediram aumento de salários e aumento da quota de combustível para veículos. As reclamações foram feitas na presença do Ministro da Casa Civil, Julio Vega, que não disse uma palavra.
Os líderes evangélicos Willian González, da Igreja de Deus, e Sixto Ulloa, da Igreja Batista, qualificaram a marcha como um excelente sinal de mudanças. "Não se pode esquecer que a policia é um aparato repressivo, porém hoje vemos sinais de convivência", disseram.
A marcha é um exemplo de civismo e de cultura de paz. É uma mensagem de que a policia quer harmonia com a sociedade, disse Gónzalez. Ulloa comentou que a marcha surpreendeu a Nicarágua. "Creio que é tempo de pensarmos em caminhar juntos sob a bandeira do civismo e da paz", acrescentou.
O pastor batista afirmou que o presidente Enrique Bolaños, presente no encerramento da marcha da polícia, fez bem em não dizer uma palavra, porque não teria direito depois de regressar de uma farta boda na Espanha, quando aqui seu povo sofre de fome.
O cardeal Miguel Obando y Bravo chamou o governo, a oposição e os estudantes para encetarem um diálogo nacional, com o intuito de evitar uma catástrofe. Assinalou que a destruição e a morte continuarão, se não for contida a violência gerada pelas reclamações dos estudantes.
Os reitores das universidades pediram ao chefe da Igreja Católica que atue como mediador no conflito, porém ele não confirmou ainda se aceita a função. Nos últimos 34 anos, o cardeal não tem recusado mediar conflitos, quando solicitado.
Jornalistas perguntaram ao cardeal sobre um documento do Vaticano que proíbe abordar temas de política na missa. O prelado respondeu que esse mesmo documento diz que se deve procurar iluminar, a partir de Cristo, os acontecimentos da vida, o que se interpreta como uma defesa a opinar sobre temas atuais.
O líder da União Nacional de Estudantes da Nicarágua (Uneni), Yasser Martinez, culpou o presidente de ser responsável pelos protestos estudantis e suas deploráveis conseqüências. Disse que as manifestações de protesto continuarão até que se entregue às universidades os fundos ordenados por lei.
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