O espetáculo da miserável realidade
Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Maio 24, 2004
O sobrinho, de lá seus 7, 8 anos, conta ao tio que já sabe navegar Taxi Heathrow Airport na internet e que inclusive fez contatos virtuais pela rede. O tio, orgulhoso com a façanha, pergunta ao sobrinho, afinal, quem ele contatara. "Ora, todos os meninos da minha rua", respondeu o moleque.
A ilustração foi apresentada pelo professor Paulo Reyes, coordenador do curso de Arquitetura da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), na VII Semana da Imagem, organizada pelo curso de Comunicação Social da mesma instituição. Paulo enfocou "O cotidiano da urbe afetado pela imagem".
O professor da Arquitetura ecoou, na palestra, um grito a favor da rua, perguntando-se o que as pessoas fazem para não querer mais estar na avenida. As ruas e praças estão cada vez mais marginalizadas no espaço da cidade.
"O espaço público é o espaço da diferença, do encontro do outro, que é diferente. Ele nos chama, então, cotidianamente à negociação", definiu Paulo. Com a presença da mídia no universo da cidade, primeiro o rádio, depois a televisão e recentemente a internet, ganham lugar no lar, trazendo a vida pública para dentro de casa.
A intrusão da mídia alterou os espaços da cidade. Um primeiro processo do fenômeno ocorreu com a inserção do automóvel, exemplificou, quando a cidade teve que se transformar para recebê-lo.
A internet, disse o coordenador da Arquitetura, "nos coloca numa espécie de casulo, pasteurizando a realidade. Eu não busco mais o outro (como na rua), mas busco um outro, que é igual a mim". Navegar pela rede otimiza o tempo, dando ao internauta a sensação de tempo dilatado.
"Com a internet, vou aos locais sem sair de casa, sem precisar entrar em contato com o mendigo na rua. Ela constrói uma realidade totalmente protegida. Ela nos deixa numa condição de 'superman' - eu posso tudo, tudo me é permitido", explicou Paulo.
Ao mesmo tempo em que fica difícil tolerar o encontro com o mendigo, com o pedinte, com o menino em situação de risco na rua, as pessoas consomem sem grandes dramas imagens que invadem as casas pela televisão, as mais cruéis, da guerra no Iraque, do confronto no Oriente Médio, da morte por inanição do menino africano.
"A vida está cada vez mais miserável, e a mídia cada vez mais fantástica", destacou Paulo. Também em palestra na Semana da Imagem, na quarta-feira, 19, o professor Fabrício da Silveira, da Comunicação, disse que o cotidiano, entendido como o banal, o ordinário, é o mais rentável dos produtos televisivos.
O cotidiano foi espetacularizado, disse, remetendo aos programas Big Brother Também lembrou o sociólogo Pierre Bourdieu, que disse que jornalistas usam óculos e vêem o que pode ser dramatizado no mundo.
Fabrício analisou o lugar da televisão no ambiente particular de um lar e no ambiente público de um bar. A tevê simplesmente incorporou-se a esses espaços. "No Brasil - frisou em tom provocador - não se assiste TV, se come TV".
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