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Domingo, 30 de Maio de 2004

Luteranas do Cone Sul analisam problemas das mulheres [Foto: Ingelore S. Koch]
Luteranas do Cone Sul analisam problemas das mulheres [Foto: Ingelore S. Koch]

Em busca da cidadania religiosa

Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Maio 21, 2004

Toda relação que se fundamenta numa perspectiva assimétrica de poder é violenta, é pecaminosa, mesmo Taxi Heathrow Airport na igreja, "na qual há espaços onde a mulher não tem plena cidadania religiosa", disse a pastora Eliane Neuenfeldt, da comissão de organização do encontro de mulheres de igrejas do Cone Sul filiadas à Federação Luterana Mundial (FLM).

A igreja deve "pro-vocar" esse tipo de discussão, numa perspectiva de alcançar relações de poder mais justas, equânimes e humanas entre homens e mulheres, entre pessoas em geral, definiu a pastora, refletindo, em entrevista à ALC, o trabalho desenvolvido pelas luteranas em plenário e em grupos menores ao enfocarem o assunto "Mulheres em busca de plenitude de vida".

As representantes de igrejas luteranas do Cone Sul se perguntaram "como trabalhar com mulheres jovens", aquelas que buscaram lugar no espaço público, no mercado de trabalho, na educação. "Existem trabalhos com jovens na igreja, mas que perpetuam as relações de gênero", assinalou Eliane. O difícil, emendou, é refletir tais relações com jovens dos 13 aos 25 anos de idade.

A sociedade experimenta rápidas mudanças comportamentais. "Mulheres de 30 anos de idade entendem submissão de uma maneira muito diferente da concepção que uma adolescente tem a respeito", exemplificou a pastora, admitindo que o discurso das relações de gênero não encontra mais a mesma repercussão nos jovens de hoje.

Toca à igreja, nesse amplo e complexo espectro da segmentação por grupos, proporcionar o espaço de encontro, de trazer os valores bíblicos e teológicos à mesa de debate, de não perder as raízes e de mostrar que existem percursos histórico, que as jovens mulheres de ontem lutaram e construíram uma processualidade na tentativa de desequilibrar as assimetrias de relações nos diferentes ambientes.

O grupo de mulheres discutiu muito esses aspectos, entendendo que é preciso sensibilizar o mundo adultocêntrico e levar em contra o protagonismo dos grupos. "Passa muito pelo ouvir. Elas vão dizer da sua vontade de se organizar na comunidade", avaliou a pastora. "O conflito de gerações existe e dele não se quer fugir, porque só se consegue lidar com ele quando se conversar a respeito", afirmou.

A troca de experiências e relatos das atividades desenvolvidas nas igrejas da Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai evidenciou que existe muito trabalho em voga com mulheres e jovens, seja na igreja, através de pastorais, seja em ONGs e seus programas. "O que falta é uma articulação em rede desse trabalho, que proporcione informações, conhecimento mútuo", apontou Elaine.

A abertura do encontro, reunido na Casa Matriz de Diaconias, em São Leopoldo, de 18 a 21 de maio, antecipou, de certa forma, o que mulheres luteranas esperam das suas igrejas. Num momento litúrgico, elas lavaram as mãos com água de cheiro, umas das outras, à medida que iam se apresentando ao grupo. Depois, manuseando fios, constituíram uma colcha de retalhos.

"A colcha é um símbolo da diversidade. Nós não queremos a homogeneização. Nós valorizamos a diferença. A água de cheiro representa a acolhida, a idéia de que o encontro seja uma coisa gostosa, onde possamos cuidar das nossas relações e vivenciar momentos de afetuosidade", traduziu a pastora Elaine, que é doutoranda no Instituto Ecumênico de Pós-Graduação.