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Quarta-feira, 10 de Novembro de 2004

Luteranas do Cone Sul querem abrir espaços na igreja

Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Maio 20, 2004

"Mulheres em busca de plenitude de vida", com enfoque na mulher jovem, é o assunto Taxi Heathrow Airport que puxa ao debate as 45 representantes de igrejas luteranas do Cone Sul filiadas à Federação Luterana Mundial (FLM), reunidas na Casa Matriz de Diaconisas, nesta cidade, de 18 a 21 de maio.

"Queremos discutir quem é essa mulher jovem na igreja e na sociedade. Sabemos que ela trabalha, estuda, tem filhos, mantém família, mas também quer espiritualidade. Mas quais são os espaços que a igreja abre para esse novo tipo de mulher?" – pergunta-se a coordenadora de mulheres luteranas do Cone Sul, Vera Roth.

"Vida em sua plenitude encontra espaço e razão de ser na vida em comunidade", disse a secretária executiva do setor Mulher na Igreja e na Sociedade (Wicas, a sigla em inglês) da FLM, pastora indiana Priscilla Singh, na palestra de abertura do encontro.

Luteranas da Argentina, do Brasil e do Chile vão estudar, nesses dias, o documento "As igrejas dizem ‘não’ à violência contra a mulher", elaborado pela FLM.

Mas esse não é um assunto que diz respeito somente a elas. Se o movimento feminista reclama um novo modelo para a mulher, no qual ela seja artífice do seu destino e não uma vítima, também fazem falta novos modelos de masculinidade, que não dependam do domínio sobre a mulher, arrola o documento.

A violência doméstica, aponta o caderno de estudo da FLM, é a forma mais comum de violência contra a mulher. Estudos realizados em 35 países mostram que de um quarto à metade das mulheres atacadas sofreram agressão perpetrada pelo companheiro atual ou ex-parceiro. Das violações sexuais contra meninas menores de 16 anos, de 40% a 58% são realizadas por algum integrante da família ou conhecido.

Relatório das Nações Unidas informa que a cada ano são mutiladas 2 milhões de meninas: 75% dos casos acontecem no Egito, Eitópia, Quênia, Nigéria, Somália e Sudão. Rituais de mutilação genital, tidos como um dever religioso, são fundamentados sob o argumento de que se trata de um rito de passagem e uma cerimônia de iniciação à vida adulta.

O documento da FLM também enfoca os efeitos da modernização e da globalização na vida econômica e pessoal. "A mundialização da produção incrementou a feminilização dos postos de trabalho, sobretudo em setores como a elaboração de alimentos, a confecção e as cadeias de montagem. Esses postos não equipam a mulher para que adquira alguma qualificação, mas a submete a uma produção em massa e rotineira e isenta de criatividade", diz o estudo do organismo ecumênico.

O documento conclama à reflexão e mudança, começando esse processo com a intrigante pergunta: "Há violência dentro das igrejas?" O próprio texto, no capítulo primeiro, intitulado "Nomear o pecado pelo seu nome", responde à pergunta: "O mais importante é confessar que também há violência dentro das igrejas, por causa de algumas políticas e práticas que impedem o acesso da mulher à liderança".

As igrejas, continua o documento, devem analisar se "pregaram o Evangelho durante séculos de modo que contribuíram à predisposição dos homens à violência, à impotência das mulheres e meninas, e à tolerância social da violência familiar".

Em muitas partes do mundo, arrola o texto, a igreja tende a marginalizar as mulheres separadas, divorciadas, solteiras ou mães solteiras. A condenação se intensifica se as mulheres forem prostitutas ou vítimas de violação, sem fazer nenhum esforço por compreender o sistema que contribui para tais situações.

Enquanto isso, homens sequer são julgados, nem mesmo quando criaram ou contribuíram para o surgimento desses casos. "O sexismo perpetua a crença de que algumas pessoas são superiores ou inferiores a outras em função da biologia", arrola o texto, constatando que "a lei impõe mudanças mas as estruturas continuam sendo as mesmas".


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