Luteranas do Cone Sul querem abrir espaços na igreja
Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Maio 20, 2004
"Mulheres em busca de plenitude de vida", com enfoque na mulher jovem, é o assunto Taxi Heathrow Airport que puxa ao debate as 45 representantes de igrejas luteranas do Cone Sul filiadas à Federação Luterana Mundial (FLM), reunidas na Casa Matriz de Diaconisas, nesta cidade, de 18 a 21 de maio.
"Queremos discutir quem é essa mulher jovem na igreja e na sociedade. Sabemos que ela trabalha, estuda, tem filhos, mantém família, mas também quer espiritualidade. Mas quais são os espaços que a igreja abre para esse novo tipo de mulher?" – pergunta-se a coordenadora de mulheres luteranas do Cone Sul, Vera Roth.
"Vida em sua plenitude encontra espaço e razão de ser na vida em comunidade", disse a secretária executiva do setor Mulher na Igreja e na Sociedade (Wicas, a sigla em inglês) da FLM, pastora indiana Priscilla Singh, na palestra de abertura do encontro.
Luteranas da Argentina, do Brasil e do Chile vão estudar, nesses dias, o documento "As igrejas dizem ‘não’ à violência contra a mulher", elaborado pela FLM.
Mas esse não é um assunto que diz respeito somente a elas. Se o movimento feminista reclama um novo modelo para a mulher, no qual ela seja artífice do seu destino e não uma vítima, também fazem falta novos modelos de masculinidade, que não dependam do domínio sobre a mulher, arrola o documento.
A violência doméstica, aponta o caderno de estudo da FLM, é a forma mais comum de violência contra a mulher. Estudos realizados em 35 países mostram que de um quarto à metade das mulheres atacadas sofreram agressão perpetrada pelo companheiro atual ou ex-parceiro. Das violações sexuais contra meninas menores de 16 anos, de 40% a 58% são realizadas por algum integrante da família ou conhecido.
Relatório das Nações Unidas informa que a cada ano são mutiladas 2 milhões de meninas: 75% dos casos acontecem no Egito, Eitópia, Quênia, Nigéria, Somália e Sudão. Rituais de mutilação genital, tidos como um dever religioso, são fundamentados sob o argumento de que se trata de um rito de passagem e uma cerimônia de iniciação à vida adulta.
O documento da FLM também enfoca os efeitos da modernização e da globalização na vida econômica e pessoal. "A mundialização da produção incrementou a feminilização dos postos de trabalho, sobretudo em setores como a elaboração de alimentos, a confecção e as cadeias de montagem. Esses postos não equipam a mulher para que adquira alguma qualificação, mas a submete a uma produção em massa e rotineira e isenta de criatividade", diz o estudo do organismo ecumênico.
O documento conclama à reflexão e mudança, começando esse processo com a intrigante pergunta: "Há violência dentro das igrejas?" O próprio texto, no capítulo primeiro, intitulado "Nomear o pecado pelo seu nome", responde à pergunta: "O mais importante é confessar que também há violência dentro das igrejas, por causa de algumas políticas e práticas que impedem o acesso da mulher à liderança".
As igrejas, continua o documento, devem analisar se "pregaram o Evangelho durante séculos de modo que contribuíram à predisposição dos homens à violência, à impotência das mulheres e meninas, e à tolerância social da violência familiar".
Em muitas partes do mundo, arrola o texto, a igreja tende a marginalizar as mulheres separadas, divorciadas, solteiras ou mães solteiras. A condenação se intensifica se as mulheres forem prostitutas ou vítimas de violação, sem fazer nenhum esforço por compreender o sistema que contribui para tais situações.
Enquanto isso, homens sequer são julgados, nem mesmo quando criaram ou contribuíram para o surgimento desses casos. "O sexismo perpetua a crença de que algumas pessoas são superiores ou inferiores a outras em função da biologia", arrola o texto, constatando que "a lei impõe mudanças mas as estruturas continuam sendo as mesmas".
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