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Terça-feira, 22 de Junho de 2004

Universitários sofrem preconceito de colegas

RIO DE JANEIRO, Brasil, Maio 14, 2004

O reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), professor Raimundo Braz Filho, expressou, em nota, seu repúdio e indignação contra atitude racista de um grupo de estudantes da instituição, ocorrida no domingo, 9.

Ao retornarem de Campos, cidade do Rio, em ônibus fretado por alunos da UENF, eles pararam em restaurante no meio do caminho, quando o monitor do grupo recomendou que todos levassem seus pertences, pois em outra oportunidade sumira carteira de dinheiro de um dos integrantes.

Alguns estudantes dirigiram-se, então, a negros da turma dizendo que antes do ingresso de alunos de cor na universidade, que certamente desceram dos morros cariocas, tais fatos não aconteciam.

O caso foi denunciado pelo Fórum de Lideranças Negras Evangélicas e ocorre num momento em que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva definiu a implantação de quotas para alunos negros, pardos, índios e de baixa renda nas universidades federais. O sistema de quotas assegura metade das vagas nessas instituições para alunos que tenham cursado integralmente o Ensino Médio e Fundamental em escolas públicas.

O coordenador do Fórum de Lideranças Negras Evangélicas, pastor batista Marco Davi de Oliveira, perguntou, dirigindo-se ao reitor da UENF, o que a instituição de ensino "faz e vai fazer em relação ao racismo latente dos seus alunos?"

Na nota de repúdio, o reitor Raimundo Braz Filho, diz-se convicto de que, "tendo havido registro de ocorrência policial, o caso merecerá das autoridades constituídas a mais rigorosa apuração e a punição dos responsáveis na forma da lei".

Há 116 anos, no dia 13 de maio de 1888, era assinada a Lei Áurea, que terminou, formalmente, com a escravatura no Brasil. Um século depois, negros e pardos somam 46% da população brasileira, e são credores de uma imensa dívida social.

"Não fosse isso, não seria preciso colocar em debate a inclusão de cotas para os negros nas universidades", comentou o coordenador do Centro de Articulação das Populações Marginalizadas, Ivanir dos Santos, de São Paulo, para a repórter Rogéria Araújo, da agência Adital.

A diretora da Associação Quilombolas da Conceição, Aparecida Mendes, de Pernambuco, destacou para a Adital que, mesmo conseguindo entrar nas universidades, negros ainda precisam enfrentar o preconceito. "O fato de um negro estar na universidade ainda é considerado por muitos um absurdo", disse. O caso de grupo da UENF corrobora o alerta de Aparecida Mendes.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a maioria dos desempregados no país é negra. Outro estudo, realizado em empresas, aponta que o índice de presença dos negros aumenta na medida em que decresce o nível hierárquico. Em 2001, somente 2,6% dos cargos de diretoria eram ocupados por negros, índice que caiu, neste ano, para 1,8%.