![Carlos Martínez, pesquisador do Centro de Estudos do Protestatismo Mexicano [Foto: ALC]](/picture/Martinez_Carlos_23c26d.jpg)
A violência religiosa em Chiapas sob análise
CIDADE DO MÉXICO, México, Maio 10, 2004
As origens, evolução e fatos relevantes da perseguição a indígenas evangélicos no Estado de Chiapas, Taxi Heathrow Airport perpetrada por indígenas católicos tradicionalistas, foram objeto de análise de Carlos Martínez García em mesa redonda organizada pela Fraternidade Teológica Latino Americana (FTL), seção do México, e o Seminário Teológico Presbiteriano.
Martínez falou do "Protestantismo, direitos humanos e tolerância aos povos indígenas de Chiapas". Em diferentes áreas do Estado, com preponderância de população indígena, o protestantismo foi-se enraizando nas primeiras décadas do século XX.
Com ritmos mais intensos em alguns lugares, menores em outros, os protestantes indígenas tiveram que enfrentar hostilidades simbólicas e violentas por parte de populações que respeitaram o direito de mudar de religião, disse.
Nas sociedades indígenas de Chiapas, a tradição religiosa representa a coluna vertebral de sua cosmovisão. Essa religiosidade é uma mescla na qual sobrevivem algumas crenças pré-hispânicas, com adições que surpreendem, como o papel ritual que joga a Coca-Cola entre os chamulas, anotou.
Esse conglomerado considera uma ameaça todos aqueles que se convertem a credos como os evangélicos e as testemunhas de Jeová. Todo ato de agressão contra uma pessoa ou coletividade que se faz de maneira contínua implica argumentações ou preconceitos que estigmatizam os agredidos e apresentam os agressores como os que têm razões justificadas para perpetrar seus atos, explicou Martínez García.
Os indígenas evangélicos são acusados de romper a unidade dos povos. Essa indicação provêm tanto de cientistas sociais como de certas forças políticas e sacerdotes católicos. É óbvio que se rompe a unidade quando ela descansa na suposta unanimidade religiosa. Exigir dos índios que guardem a unidade religiosa de seus povos significaria negar-lhes um direito que outros setores sociais têm - o direito à diversidade, disse Martínez.
Outra carga que é imputada aos dissidentes religiosos é que atentam contra os costumes e tradições. Mas elas não são permanentes. Elas são mudadas e re-elaboradas por diversos atores sociais. Os índios desde sempre têm sabido inovar suas tradições, negociar com seu entorno, assimilar e remodelar as propostas exógenas que lentamente vão se convertendo em práticas indígenas, porque são índios quem as têm adotado, anotou Martínez.
As estimativas sobre o número de evangélicos expulsos de Chiapas, preponderantemente em Los Altos, variam, porém nos anos 70 do século passado começaram a ter lugar deslocamentos forçados de grandes grupos. Segundo levantamento feito em dezembro de 1993 por líderes evangélicos mestiços, o número de crentes expulsos pela intolerância religiosa em Los Altos foi de 33.531.
A maioria dos expulsos pertence às igrejas evangélicas, mas alguns são católicos identificados com a linha pastoral do bispo Samuel Ruiz García. Esses católicos têm conflitos com a simbiose religiosa-política que representam os caciques do Partido Revolucionário Institucional, que ao mesmo tempo ostentam cargos religiosos tradicionais nas comunidades.
Ao ressaltar que a presença missionária norte-americana em Chiapas tem sido muito pequena, para desvirtuar a tese de que o protestantismo é uma ingerência estrangeira, Martínez anotou que longe de dissolver a identidade, o presbiterianismo, que chegou àquela área no início do século passado, potenciou-a e serviu de refúgio à etnia acossada por políticas educativas governamentais.
Outros estudos assinalam que uma das migrações à Selva Lacandona, na segunda metade do século XIX, foi formada por cristãos protestantes que buscavam terras onde pudessem praticar seu credo sem o temor das represálias padecidas nas zonas tzeltal y tzotzil, e conviveram pacificamente com outros grupos de emigrantes.
O protestantismo tem colaborado para legitimar o alfabetismo que, aos olhos de muitos indígenas, se associava de maneira negativa a leis e políticas repressivas do governo ladino, mas os campesinos estão aprendendo a ler e a escrever sobre sua fé na língua indígena e em espanhol, e o alfabetismo começa a ser visto como algo próprio, sublinhou o conferencista.
Finalmente, Martínez referiu-se aos estalidos de violência religiosa em diversos lugares e datas em Chiapas, que apoiam sua tese, à formação de alguns organismos de defesa, e o recurso nada frutífero aos órgãos jurídicos e estatais. Ele concluiu que a luta das comunidades evangélicas pela liberdade de crença derivou numa lide pelo respeito aos direitos humanos e à tolerância.
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