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Domingo, 30 de Maio de 2004

Polêmica sobre pílula do dia seguinte acirra-se

SANTIAGO, Chile, Maio 7, 2004

As discussões sobre o anticonceptivo conhecido como "pílula do dia seguinte", limitadas até então entre Taxi Heathrow Airport a Igreja Católica, que é contra o método, e autoridades e médicos, estendeu-se pelo Chile quando o ministro da Saúde, Pedro García, foi acusado de violar a Constituições, e com declarações de líder evangélico contra o episcopado católico.

O Ministério da Saúde, que se pronunciou a favor da pílula do dia seguinte, anunciou que a distribuição do medicamento nos serviços de urgência dos hospitais e consultórios, agendada para ter início no próximo dia 15, será postergada para o final do mês.

No domingo passado, em texto distribuído em todas as paróquias, o cardeal e arcebispo de Santiago, Francisco Javier Errázuriz, reiterou a oposição da Igreja Católica à distribuição gratuita da pílula nos centros de saúde pública, porque não está provado que o método não seja abortivo.

"Sempre queríamos respeitar as autoridades civis, mas às vezes sentimo-nos obrigados a refletir se decidiram o que é justo aos olhos de Deus, já que, do contrário, teremos que optar pela obediência a Deus e não pela obediência aos homens", argumentou o cardeal, acrescentando que a situação é pior quando isso se faz com recursos do contribuinte.

Como alguns prefeitos disseram que eram contra a distribuição da pílula nos postos de saúde sob sua jurisdição, financiados pelo Estado, o ministro da Saúde ameaçou esses prefeitos com o corte de fundos públicos. Diversos setores afirmaram que tal ação seria anticonstitucional. No palácio presidencial de La Moneda a ameaça do ministro não foi bem recebida.

O debate acirrou-se, na quinta-feira, quando o bispo evangélico e presidente do Conselho de Unidades Pastorais da Região Metropolitana, Emiliano Soto, disse que o "chamado das autoridades católicas a não distribuir a pílula do dia seguinte constitui uma nova intromissão na forma como as instituições devem operar".

Soto afirmou que as igrejas evangélicas condenam as práticas abortivas clandestinas, mas que no caso da pílula do dia seguinte, em "não havendo clareza sobre a eterna discussão quando se inicia a vida humana, respeitamos a liberdade de consciência". Mas, prosseguiu, "rechaçamos a tentativa de pressionar e impor à força os valores e convicções religiosas de um só credo a todas as pessoas".

O ministro García declarou que, como médico, era contrário ao aborto. "Estou convencido de que a pílula não é abortiva e será Deus quem fará o juízo final. Estou assumindo responsavelmente esse juízo como católico".

A ministra da Mulher, Cecilia Pérez, explicou que não é política de saúde pública usar a pílula como anticonceptivo. "O que está previsto é que ele esteja disponível diante de uma violação, que a mulher se informe sobre a possibilidade de usar esse fármaco" e se ela concorda com o uso.

O presidente do Instituto Chileno de Medicina Reprodutiva, médico Horacio Croxatto, explicou que "o levonorgestrel só interfere com o processo generativo alternando a ovulação. Quando a mulher o toma num momento de seu ciclo menstrual em que ainda pode interferir com a ovulação, consegue-se prevenir a fecundação. Se o tomar quando ela já ocorreu, o método não funciona e a mulher engravida, se esse ciclo era fértil".