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Sábado, 10 de Novembro de 2007

Franciscanos trouxeram a cerveja para a América

Manuel Quintero, QUITO, Ecuador, Abril 28, 2004

As velhas paredes do Convento de São Francisco, o maior e mais antigo do continente Taxi Heathrow Airport americano, abrigam, além de uma extraordinária coleção de pinturas, vestuários da época e móveis de fino desenho, antiquíssimas bandejas e tonéis. Trata-se das bandejas onde se misturavam os ingredientes utilizados para fermentar e amadurecer o produto do que foi a primeira cervejaria da América do Sul.

A curiosa iniciativa deveu-se aos esforços do fundador do convento, o frade flamengo Jodoco Rique (1498-1578), que era natural de Malinas. Esse povoado belga, situado a 32 Km ao sul de Amberes, era então a capital religiosa da Bélgica, e alcançou celebridade pela qualidade de seus encaixes, suas campainhas de bronze e... sua cerveja.

Não é estranho que Rique, fiel a seus costumes e ao espírito de sua terra, decidira desde cedo produzir aqui sua bebida predileta. Rique pertenceu à Ordem dos Franciscanos, a primeira enviada às Américas pela coroa espanhola com o intuito de evangelizar os autóctones desta parte do mundo.

O monumental conjunto arquitetônico, formado pelo convento e a igreja do mesmo nome, começou a ser levantado em 1535 sobre as ruínas do palácio do inca Huayna-Capac. A construção do conjunto, que mescla os estilos arquitetônicos italiano e espanhol, demorou 70 anos. Mas quando a estrutura básica estava em pé, por volta de 1560, uma seção do convento se destinou a destilaria da mundialmente célebre bebida.

A mais antiga menção à cerveja se encontra em tábuas de argila escritas em sumério, que remonta a 4.000 anos antes de Cristo. Nessas tabuletas aparece uma fórmula caseira para sua elaboração: o pão é aquecido, é partido em migalhas, prepara-se uma mistura em água e se deixa fermentar. O resultado, dizem as tabuletas, é uma bebida que faz com que a gente se torne "alegre, extrovertido e feliz".

Para realizar seus sonhos, o frei Rique trouxe o trigo da Europa, uma planta que encontrou solo propício em Quito. Também uma fórmula particular para produzir sua cerveja, que logo seria transmitida fielmente de um mestre cervejeiro a outro, ao longo de gerações.

"Esses primeiros missionários eram como Abraão. Deixavam sua terra e seus familiares para não voltar. Por isso traziam consigo seus livros e o que era possível de sua própria cultura", assinala o padre John Castro, diretor e historiador do Museu de São Francisco.

"Se esses frades tivessem sido franceses, seguramente teriam tentado produzir vinho. De fato, um franciscano vindo de Niza, o frade Marcos, trouxe cepas de uvas, mas nem o terreno, nem as condições climáticas daqui são favoráveis para os vinhedos", agrega.

Não se sabe qual foi a fórmula original utilizada por Rique, mas, pelo que diziam aqueles que a degustaram, a modesta destilaria produziu uma cerveja de ótima qualidade, fabricada artesanalmente, ano após ano, para satisfazer as necessidades dos habitantes do convento.

Se no primeiro século o número de frades franciscanos não era representativo, nas etapas subseqüentes o convento chegou a abrigar uma população de 200 monges, que eram abastecidos pela destilaria com uma cerveja leve e clara, para consumo cotidiano, e outra escura e mais forte, para as festas e ocasiões especiais.

"A cerveja é o pão da alma", é um dito que se atribui aqui aos franciscanos, e um monge famoso, Martim Lutero, provavelmente estaria de acordo, assim como outro personagem histórico, o desaparecido José María Velasco Ibarra, que foi presidente do Equador em cinco ocasiões no século passado, e a figura política dominante por mais de 50 anos neste país.

Dom Velasco Ibarra costumava assistir a missa na Igreja de São Francisco e, ao concluir a celebração, unia-se aos monges franciscanos para almoçar em um salão contíguo à destilaria. Além de toda hospitalidade e a culta conversa dos monges, o político tinha outra razão para participar desses almoços dominicais: desfrutar da excelente cerveja franciscana.

A cervejaria funcionou ininterruptamente desde meados do século XVI até os anos 80 do século passado, quando teve de fechar por causa de problemas trabalhistas, explica o padre Carlos. Mas seu testemunho de quatro séculos e meio de presença fica registrado, talvez porque as risadas de tantos frades que ela deixou "alegres, extrovertidos e felizes" ainda ressoam entre as paredes do convento.