Voltar ao início

Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Doutor Oneide Bobsin, pastor e teólogo luterano brasileiro.
Doutor Oneide Bobsin, pastor e teólogo luterano brasileiro.

A mulher de Deus

Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil, Abril 27, 2004

No momento em que grupos feministas europeus, norte-americanos, africanos e árabes fundam uma aliança internacional de luta contra o fundamentalismo, é prudente trazer a público algumas concepções a respeito da mulher divulgadas no meio das novas igrejas da Teologia da Prosperidade no Brasil.

Livreto de um dos maiores líderes de uma dessas igrejas realça os traços de um fundamentalismo mitigado sob a forma de patriarcalismo, que degrada as mulheres como seres humanos. Abaixo seguem algumas das idéias machistas desse livreto representativo de uma corrente "evangélica" em ascensão, poucas vezes percebidas por pesquisadores do mundo acadêmico.

A idéia básica nasce da compreensão de que o casamento de "um homem de Deus" com uma "mulher de Deus" cria uma geração de filhos de Deus. Na prática, se a esposa não for de Deus e o marido sim, ela será responsável pela desgraça do homem e do desmoronamento do lar.

O rei Salomão, com suas 700 mulheres e mais 300 concubinas, é o exemplo. O fracasso e a perda da glória do poderoso rei de Israel são atribuídas a essas mulheres. Pobre Salomão que, apesar de sua sabedoria e poder, não soube se livrar dos caprichos das mulheres com quem convivia! Como elas eram idólatras, ele fracassou como homem e como rei.

A culpabilização última pelo fracasso do homem também se justifica pela incapacidade da mulher de "sujeitar a terra e dominar todo o tipo de animal", tarefa exclusiva do homem. À mulher cabe a grandeza de gerar filhos, isto é, tão-somente ser uma procriadora.

Alia-se a essa compreensão a idéia de que o diabo sabia muito bem como usar a mulher para fazer Adão cair em pecado. Como a mulher tem uma índole sedutora e, por isto, sabe persuadir, ela se confundia com a do diabo. Em capítulos posteriores o autor associa persuasão e sedução à prostituição. Deduz-se, portanto, que Eva foi a primeira prostituta no paraíso.

Mas a culpabilização não se restringe ao mundo doméstico. Os conflitos entre judeus e palestinos são imputados à Sara. Como era estéril, Abraão gerou um filho com Hagar, a qual desprezou a patroa. Abraão, coitado, sofreu muito por causa do ciúme de Sara! Porém, deste filho abandonado pela mãe ciumenta nasceu a nação árabe. Logo, os conflitos do Oriente Médio se devem à sugestão de Sara a Abraão.

Eva, Sara, Dalila e a mulher de Jó levaram ou tentaram levar seus maridos ao fracasso, porque eram idólatras ou porque desobedeciam ao Senhor/senhor-homem. Noemi e Rute são vistas como exceção. Talvez por serem viúvas!

Muitos fracassos de casamentos se devem às mulheres. Se o marido não é de Deus, cabe à mulher de Deus trazê-lo para a igreja. São os procedimentos da esposa que impedem o homem de se tornar um "homem de Deus". Oração e jejum tomam o lugar da crítica aos erros do marido. Se ainda assim o marido não mudar, a culpa continua sendo da mulher. Se sacrifica na igreja, sacrifica também em casa. A mulher temente a Deus e submissa ao marido sabe "aturar" os seus erros, porque sabe que ele ainda não se converteu ao Senhor.

Sendo assim, a "mulher de Deus" ou o "homem de Deus" deve buscar o seu cônjuge na própria igreja. Se casar fora da Igreja Universal, encontrará sofrimentos por causa das diferenças de doutrinas.

Por fim, o autor fundamenta tudo no amor. Exalta o amor de Deus que deu o seu Filho ao mundo (João 3.16)... como modelo de relacionamento do casal. Por dedução, as mulheres devem sacrificar- se de tal maneira aos seus maridos para que a sociedade atual não pereça, mas seja eterna.

Fecha-se, assim,o círculo interpretativo com um deus que é imagem e semelhança da sociedade patriarcal, que coisifica a mulher - imagem de Deus.

Certamente muitas perguntas surgiram ao longo da leitura dessa interpretação promovida pelas igrejas da Teologia da Prosperidade. Espero que elas provoquem reflexão e discussão entre todos nós, pois nosso silêncio poderá comprometer nosso testemunho.

---------------

Oneide Bobsin. Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo/RS/Brasil