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Domingo, 30 de Maio de 2004

HIV/Aids rompe o silêncio das igrejas

Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Abril 20, 2004

O assunto HIV/Aids não se restringe ao campo da saúde. Ele é profundamente teológico e Taxi Heathrow Airport eclesiológico, uma vez que as igrejas precisam definir o que entendem por inclusividade e qual a natureza de Deus revelada em Jesus Cristo.

A provocação é do pastor argentino Lisandro Orlov, 63 anos, coordenador da Pastoral Ecumênica HIV/Aids, que participou, no início de abril, da conferência de bispos e pastores presidentes de igrejas latino-americanas filiadas à Federação Luterana Mundial, em São Leopoldo.

"Deus não é democrático. Ele fez a opção pelos excluídos e perseguidos", disse Lisandro em entrevista à ALC. A maioria das igrejas, lamentou, continuam ignorando o assunto HIV/Aids, e algumas até proclamam que se trata de um castigo de Deus.

As igrejas, emendou, precisam ter claro qual o Deus que anunciam: o da religiosidade popular, que castiga, persegue e se deleita com o sofrimento, ou o Deus do perdão, da cruz, que sofre com o sofredor. "O HIV nos obriga a romper o silêncio que oprime minorias nas igrejas", afirmou.

Para Lisandro, as igrejas luteranas estão em dívida com a América Latina, "pois não ousamos proclamar a justificação por graça e fé (um dos pilares teológicos da Reforma protestante do século XVII) às últimas conseqüências". Falta coragem, avaliou.

O anúncio da Igreja libertadora é que ninguém está excluído da oferta salvífica e que todos necessitam da graça de Deus. A mensagem da cruz é dirigida a todos aqueles que estão sendo crucificados na sociedade, a todos os que são diferentes, assinalou.

O pastor argentino defendeu como paradigma de leitura o texto de Atos 8. 26-38, que narra o batismo de um etíope eunuco por Felipe. "O primeiro batizado de um não-judeu foi de um eunuco, que pertencia a uma minoria sexual, a quem Felipe perguntou apenas ‘crês isto?’, depois de falar sobre Jesus", lembrou.

Sempre é possível fazer dois tipos de leitura da Bíblia: uma leitura legalista, outra, profética. A leitura luterana das Escrituras é profética, crítica, não-fundamentalista. Lisandro tem 30 anos de pastorado e integra o quadro da Igreja Evangélica Luterana Unida (IELU), da Argentina.

Ele passou três anos na convivência com a comunidade de Taizé, na França, e foi um dos que trabalhou na reforma litúrgica promovida pela FLM. Lisandro denunciou a hipocrisia que existe tanto na sociedade como em igrejas, que condenam a homossexualidade tendo obreiros em suas fileiras.

Lisandro explicou que a homossexualidade é uma orientação, que não se limita ao aspecto sexual, mas envolve pessoas emotiva, afetiva e fisicamente.

Por que existem homossexuais "é um mistério", disse. E recorreu às estatísticas. De 5% a 10% da população mundial seguem uma orientação homossexual. O número de cegos e surdos obedece o mesmo percentual, enfatizou, destacando que é preciso aprender a respeitar o pluralismo das pessoas.

Comportamentos homossexuais, arrola o guia de estudos sobre o HIV/Aids da Igreja Evangélica Regional da Renânia, Alemanha, sempre foram verificados ao longo da história e nas mais diferentes culturas, descartando, assim, a idéia de que a homossexualidade seja uma degeneração cultural ou produto de uma civilização decadente.

Lisandro reportou-se a documento de bispos católicos dos Estados Unidos, o primeiro texto de Igreja que levou em conta os conhecimentos científicos até aqui alcançados a respeito da homossexualidade. O documento destaca que pessoas com essa opção "sempre serão nossos filhos e filhas".

A Igreja, disse o pastor, é uma comunidade de cura, espaço onde as relações sociais, familiares e humanas podem ser curadas. Na América Latina, definiu consulta luterana sobre o tema realizada no ano passado, a palavra compaixão precisa ser traduzida junto com justiça, e a palavra conversão exige uma ação cotidiana.

O pastor destacou que para fazer frente aos desafios plantados pela epidemia da Aids é preciso atuar de modo ecumênico, como a Pastoral que ele coordena procura trabalhar. A Pastoral proporciona cursos de capacitação dirigida a agentes comunitários, presta informações, faz estudos da Palavra sobre o assunto, e vê modalidades de acompanhamento àqueles que sofrem a doença.

"A cruz não é fácil. Ser cristão não é fácil, mas a gente se apaixona pelo que faz e a cruz dá sentido a cada momento da vida. Eu não quero ser um cristão light, que teme ser sal e luz do mundo. Temos que ser contraculturais. O Evangelho é profundamente contracultural", testemunhou Lisandro.