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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2005

Francisco Rodés, pastor batista cubano [Foto: José A.Paz]
Francisco Rodés, pastor batista cubano [Foto: José A.Paz]

O coração do cubano é uma bola de beisebol

José Aurelio Paz, HAVANA, Cuba, Abril 15, 2004

O Campeonato de Beisebol cubano terminou com o triunfo da equipe Industriales, representante desta capital. Taxi Heathrow Airport Durante meses, a paixão lotou estádios ou prendeu torcedores em frente à tevê, em agónica dependência do chamado esporte nacional.

Muitos crentes, como parte da identidade deste povo, integraram a legião de aficcionados, na qual o fanatismo ganha formas espetaculares como essa gigantesca aflição que se forma, dia-a-dia, no Parque Central da capital para discutir, jogada a jogada, o desempenho de cada uma das equipes e de seus jogadores.

Inclusive, diversas congregações constituíram equipes de beisebol na temporada e realizaram embates amistosos como parte das atividades recreativas, de modo especial os jovens.

O reverendo Francisco Rodés, mais conhecido por Paco no meio ecumênico, aproveitando o tempo livre de recém jubilado pastor batista, sua engenhosidade para tratar temas e seu bom humor, elaborou paráfrase sobre o popular esporte que, publicada no último número da Tribuna Ecumênica, o suplemento informativo do Conselho de Igrejas de Cuba, chama a atenção pelo alerta que faz sobre líderes incapazes de entregar mandatos às novas gerações.

No artigo, intitulado "Alegria en el dogout", termo que designa o chamado "banco beisebolero", o lugar onde os jogadores esperam sua vez para bater enquanto o capitão dá as ordens ao batedor designado, resulta um chamado a entender que, em momentos determinados da vida, os líderes cristãos têm que entregar o taco aos mais jovens e ficar, à sombra, assessorando o jogo.

Mas em sua acionar - escreve Paco - as câmaras, fração após fração, enfocam o dogout, ali onde se encontram os jogadores na espera de seu momento, e onde estão aqueles que, de cabelos já penteados, mas ainda vestindo uniforme, acompanham de perto o que ocorre em campo.

"Dá gosto ver suas expressões, algumas vezes de certa preocupação, outras de alegria, da maior serena confiança em seus meninos. Esses veteranos já foram estrelas e agora oferecem seu apoio como assessores, técnicos ou como se chame as novas gerações. Sentem-se felizes porque cada vitória é uma vitória deles também. E seu papel segue sendo importante em cada campeonato; a bola requer de sábias estratégias e da luz da boa experiência".

E reflete então: "Creio que é um estimulante exemplo do que deve se uma saudável sucessão das gerações. É a arte de passar, sem traumas nem dramas, o protagonismo àqueles que por lei natural ocuparão o lugar que lhes corresponde. E, poderia se assinalar, que em lugar de ser uma tragédia, poderia ocorrer em uma transmissão de gozo profundo."

A partir daí, ele conta seu testemunho pessoal, assim que, depois de 36 anos de pastorado numa mesma congregação, e sentindo-se em plena capacidade, força e gozando ainda do carinho de sua gente, o Senhor revelou que havia chegado o momento de dar lugar a uma nova etapa em sua vida e de sua comunidade.

"Não penso em termos de jubilação nem retirada, mas de mudança de atividade, de projeção para outras metas, sempre a serviço da Igreja e do Reino de Deus, tão atrativas como a de preparar aulas, escrever, dar conferências, assessorar pastores novos, etc. Mas é verdade que o púlpito tem sido meu trabalho habitual por quarenta anos. Como seria isso de abaixar-me, e sentar-me no banco como mais um na congregação? Não nego que há uma certa expectativa pelo novo papel".

"Confesso que se experimenta um secreto prazer ao contemplar as coisas de outro ângulo. Desfrutar de um culto, do qual não sou eu aquele que traz a Palavra, mas a recebe. Muitas vezes me sentia um pouco o centro da celebração; um bom sermão era um sinal de que o culto havia sido um sucesso. Não há dúvida de que existe uma tentação pastoral muito forte para o egocentrismo, de sentir-se imprescindível, a estrela principal do jogo. Penso que é normal que os pastores enfrentem com ansiedade o passo ao ‘dogout’. Mas eu estou agradecido a Deus, que este passo o dei com muita felicidade", expressa o reverendo Rodés.

Quem irá desempenhar em seus últimos anos ativos como presidente da Fraternidade de Igrejas Batistas de Cuba (FIBAC), disse que não existe maior felicidade para os que querem a prosperidade da obra Deus do que ver o surgimento de um novo líder como fruto de seu próprio ministério. É preciso entender que no êxito dos jovens está também o êxito daqueles que o precederam ensinando-lhes o caminho.

"Claro, sempre há os que pensam que os velhos possuem mais experiência, que o fazemos com mais soltura, que desejam que as coisas permaneçam como estão. Estes são os que se apegam às pessoas, crendo nos ‘imprescindíveis’.

"Mas a vida ensina que não existem imprescindíveis. Se a obra que se faz tem validade, se tem razão de ser, as pessoas aparecem, os líderes se formam, e sempre tem quem se levante para fazer a tarefa".

"Às vezes nós, os adultos maiores, estamos crentes de que sem a nossa presença as coisas não vão caminhar. Na verdade, com atitudes assim o que fazemos é bloquear o caminho aos que vêm com novas idéias, com sangue novo.

Em seu artigo, Ródes cita como exemplo o fato de que João Batista, sendo a "estrela" da história neotestamentária, batizou, um dia, a um jovem da Galiléia, ao qual chamou de Mestro, dizendo: "A ele convém crescer, a mim diminuir"; dando, assim, um exemplo da verdadeira sensibilidade histórica e de modéstia. E não esqueçamos, foi a pessoa que recebeu de Jesus o grande elogio de que 'dos nascidos de mulher não há maior do que João Batista, afirma.

Sobre as novas gerações, Paco expressa: "Elas sabem fazer tão bem ou melhor do que nós o fizemos quando, muitos anos atrás, começamos. E se desfruta tanto vendo-os lutar e crescer! Assim, é hora de pensar que o mundo se transforma, e nós também devemos mudar. Tem uma bela canção de Mercedes Sosa que diz: "Muda, tudo muda, e o que há de estranho que eu mude também".

Caminho largo resta para este homem que, no umbral da chamada terceira idade ou idade dourada, voltou a abrir a fenda e permanece andando, esta vez escrevendo interessantes e necessárias reflexões, desde seu "dogout", que são verdadeiros petardos contra esquemas sociais, políticos e religioso da Ilha, desde uma perspectiva otimista e alentadora.

E conclui Ródes: "Nós passamos, mas a obra que se constrói sobre uma base sólida permanece. Deus, em sua sabedoria, tem posto limite à vida humana. Ele quer que haja substituição, que se levantem rostos novos. Então, por que não O ajudamos?