
A chave teológica da Paixão
Tomás Gómez, SANTO DOMINGO, República Dominicana, Abril 13, 2004
Entre as contribuições importantes que Mel Gibson faz, através do filme "A Paixão", está a Taxi Heathrow Airport recuperação, sem os argumentos convencionais, da historicidade de Jesus. Recuperamos um Cristo mais real frente ao Cristo místico e revestido de pietismo religioso ao qual nos acostumaram outros filmes tradicionais.
A película não segue um roteiro estritamente apegado ao texto bíblico, mas isso não lhe tira o rigor escritural nem a consonância com a verdade revelada nos evangelhos. Trata-se de uma recriação, de uma visão particular apoiada num sério exercício hermenêutico e também teológico.
Destacado o trabalho artístico de Mel Gibson e sua excelente interpretação visual dessa parte dramática dos evangelhos, queria enfatizar um pouco o aspecto teológico que o filme revela. A morte de Cristo é um evento crucial de sua obra redentora. A morte de Cristo, como destaca Gibson, cria uma tensão em todo o cosmos. Percebe-se um confronto de poderes. Há uma emergência universal latente girando em torno de um homem.
Trata-se de uma batalha crucial. É a tarefa de Deus de recuperar tudo o que o pecado levara a perder, sem deteriorar a justiça de seu caráter. Não se tratava de um assunto simbólico ou místico. O assunto não era um mero jogo religioso com simples fins didáticos ou ilustrativos. Era uma tensão universal e cósmica. Era a grande batalha da existência e da história.
Não é possível albergar no pensamento humano o que poderia se passar se Cristo falasse nessa hora suprema em que sua missão estava submetida à prova mais dura e cruel. Os olhos de Deus estavam sobre um ponto fixo na terra, todo o céu e todo o universo criado estavam em tensão... em apuros.
Horas antes do início da perseguição definitiva contra o Senhor Ele ceara com os discípulos. O gesto não podia ser mais estremecedor e significativo. Ele lhes disse que o pão que estavam triturando com os dentes representava seu corpo, que em breve seria exposto aos mais desapiedados maus tratos; e que o vinho que ingeriam representava seu sangue, que seria derramado. Esse gesto passaria a ser parte da vida sacramental da igreja e sua celebração anuncia e antecipa a vitória de Cristo sobre os poderes das trevas.
Jesus Cristo enfrenta um processo de sofrimento, que tem profundas implicações metafísicas, cósmicas, universais, históricas e suprahistóricas. Não se tratava de um sofrimento corrente. Era sua responsabilidade assumir todos os pecados da humanidade, os que se cometeram antes Dele e os que se cometeriam depois Dele.
Para entender os sofrimentos de Cristo é preciso entender o caráter perverso do pecado, um pecado que se desloca ao longo da história da humanidade. É sobre a base de um sofrimento infinito, não concebível humanamente, que Cristo vence o pecado e a morte. De maneira que seu sacrifício tem um valor e um alcance infinito.
A gravidade dos sofrimentos de Cristo, apresentada por Gibson, causa maior impacto no público quando se desconhece a perversidade atávica do pecado; quando, por outro lado, também se desconhece o caráter santo de Deus e seu amor encarnado no seu Filho Jesus Cristo. Sem esse quadro, sem uma idéia clara dessa transcendência universal e cósmica que implicou todo o sofrimento que Cristo assumiu, só se percebe crueldade e selvageria, golpes, maus tratos e atropelos injustificados. Apenas se pondera o sofrimento que Cristo assumiu quando, do seu estado de santidade, decidiu cobrir todo o pecado da raça e do universo.
O cristianismo, que se reconciliou com Deus através desse sacrifício de Cristo, não fica na lamentação do acontecido, mas o acolhe, sem negar a dor, sem perder seu sentido de compaixão, um sentimento sublime de libertação e paz suprema, que não é outra coisa que a verdadeira conquista que Cristo conseguiu através desses sofrimentos que hoje são denunciados, mas não compreendidos de modo cabal.
Damos graças a Deus pela entrega desse filme através de Mel Gibson, que de alguma maneira levou grande parte das pessoas pensar sobre o que Deus fez, permitindo que seu Filho assumisse por nós o sofrimento, a dor e a culpa que nos correspondia de forma justa.
O Senhor quer que lembremos seu sofrimento, mas não com ânimo de lamentação, mas em espírito de libertação em meio à viva esperança de paz permanente que Ele conquistou com esse angustioso processo que o levou à morte.
"Cancelando o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz" (Colossenses, 2,14-15).
O filme de Gibson destacou uma estéril polêmica que revela a loucura, a desorientação da qual nos fala Paulo dos homens sobre a cruz de Cristo e seu sacrifício. Muitas pessoas, ao invés de irem aos motivos centrais da morte de Cristo, ficam lamentando seu sofrimento e buscando culpados fora deles mesmos. As implicações desse evento não se devem ser segmentados, buscando elementos para a segregação e as acusações, mas para dar um passo à reconciliação com Deus, que foi o verdadeiro propósito dos sofrimentos e da morte de Cristo.

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