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Domingo, 4 de Junho de 2006

A flagelação

Hilario Wynarczyk, BUENOS AIRES, Argentina, Março 30, 2004

Creio que é um grande negócio. Mas o filme "A Paixão de Cristo" não merece, para o meu gosto, ser visto pela segunda vez e nem sequer justifica uma conversa de café de mais de 15 minutos.

Todo o relato trata da maneira como batem num homem. O único essencial que ele resgata da letra do Evangelho é a idéia de que Jesus se deixa matar porque crê que é enviado por seu pai Deus para redimir, com o seu sacrifício pessoal, os pecados da humanidade.

Em todo o caso, essa é a mensagem essencial do Novo Testamento e a mensagem sobre a qual os evangélicos conservadores (evangelicais) colocam acento. Para eles, o mais importante da vida cristã é, precisamente, arrepender-se dos pecados e aceitar Jesus como único mediador e caminho para ser salvo.

A partir desse lugar o homem é constitutivamente um rebelde perante Deus a partir do pecado de Adão, que marca para sempre a geração humana. Mas nem sequer essa idéia aparece com suficiente força e clareza no filme. O único que fica claro e aparece forte é a maneira sádica como maltratam Jesus e a culminação no cadafalso.

No filme não aparecem outros conteúdos do Evangelho. Algumas seqüências, como a da tentativa de apedrejar uma mulher, não podem ser compreendidas pelo público, a não ser que tivesse lido antes os Evangelhos. Não entenderia a imagem de Jesus desenhando na areia, nem a mulher no chão e nem as pessoas que deixam as pedras de lado e vão embora.

A quantidade de sadismo aplicado sobre Jesus parece exagerada. No Evangelho não há um relato sequer da flagelação como o que aparece no filme. Somente ouvi um relato do pregador Jimmy Swaggart, que apresentou um Jesus deformado pela tortura, creio que em 1986. Mas esse pregador não me parece um bom referente teológico. O nível que a violência alcança é doentio, na medida em que o filme se detém tanto em enfocá-lo.

Até agora, as discussões sobre o filme se referem ao seu caráter presumivelmente antijudeu. E sempre fica claro que os cristãos gostam do filme, enquanto os judeus argumentam que ele mobiliza sentimentos racistas.

Na minha opinião, o filme não é antijudeu nem permite inferir uma mensagem antijudia. Fica claro, pelo aspecto das vestimentas e dos personagens, que a comunidade judaica estava dividida entre uma classe alta e o povo, e a primeira é a que armou a farsa de condenação popular à noite para conseguir que os romanos aplicassem a pena capital a Jesus. Inclusive dentro da classe alta apareceram dissidentes, mas foram expulsos pelos que queriam a condenação.

No setor popular Jesus contava com muitos simpatizantes. Isso é o que se vê no filme. Contudo, a classe alta judia condenou-o por subverter a ordem de sua organização teocrática, na qual o poder estava nas mãos de alguns sacerdotes que tinham boas relações com os romanos que dominavam o território deles.

A atuação de vários intérpretes é muito boa. Refiro-me às interpretações de Jesus, Pilatos como um patrício, Herodes como um rei perverso e os flageladores romanos como sádicos. Mas as atrizes que interpretam o papel de Maria, mãe de Jesus, e Maria Madalena não me parecem convincentes. Em seus rostos se nota que não estão compenetradas no papel, salvo em algumas seqüências em que aparecem mulheres que sofrem.

Por outro lado, Maria é apresentada com Jesus numa cena da vida do lar e de felicidade, ao estilo doméstico americano. A linguagem gestual da seqüência resulta marcadamente norte-americana e não é fácil destinguir se a mulher é a mãe (primeiro se imagina que sim e se quer crer que sim) ou a esposa de Jesus, tal é a pouca diferença de idade e aparência dos dois intérpretes.

Algo que me chamou muito a atenção ao percorrer a lista de nomes dos que participaram da produção é que são, em sua grande maioria, italianos. Não entendo por que nas notícias e comentários do filme não encontro menção ao assunto.

Penso que a polêmica sobre antijudaísmo foi um eficaz mecanismo de venda. Incluo-me entre os curiosos espectadores, assistindo o filme no dia da sua estréia.