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Quinta-feira, 18 de Maio de 2006

Wanda Deifelt, teóloga luterana brasileira [Foto: Ingelore Koch]
Wanda Deifelt, teóloga luterana brasileira [Foto: Ingelore Koch]

Modelo do masculino já não satisfaz mais

Entrevista: Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Março 29, 2004

Se o século XX representou o avanço das mulheres em busca de sua emancipação e Taxi Heathrow Airport cidadania, o XXI será o grande século de mudanças para os homens. A profecia é da Dra. Wanda Deifelt, professora da Escola Superior de Teologia (EST), do Instituto Ecumênico de Pós-Graduação (IEPG), em São Leopoldo, e coordenadora do Núcleo de Pesquisa de Gênero (NPG).

Para a mulher que experimentou a emancipação numa gradativa autonomia, esse modelo do masculino, que teve início no século XIX, já não satisfaz mais, aponta Wanda. Os próprios homens, prossegue a professora de Teologia Feminista na EST, estão descobrindo o papel do afeto, da interconexão, da subjetividade.

O NPG acaba de lançar a coletânea "À flor da pele – ensaios sobre gênero e corporeidade", falando dos corpos que se pintam e se contam, que redescobrem e se descobrem, que apreendem e se aprendem, que reconhecem e se conhecem, que curam e se curam. O livro busca o diálogo da teologia com outras áreas do conhecimento.

Além do livro, Wanda Deifelt falou do seu novo campo de trabalho. Em agosto, ela assume docência no Lutheran College de Delorah, em Iowa, nos Estados Unidos. "Trata-se de uma oferta irrecusável quando penso no tempo que terei para me dedicar à pesquisa. Quero escrever mais, publicar mais", comentou.

O livro do NPG, o papel da educação, dos meios de comunicação na formatação de novos papéis comportamentais e a realização do I Congresso Latino-Americano de Gênero e Religião são analisados na entrevista que a teóloga feminista luterana concedeu à ALC.

ALC – Qual será o enfoque desse primeiro congresso de gênero e religião?

Wanda Deifelt – O I Congresso Latino-Americano de Gênero e Religião vai se voltar ao cristianismo, mas não só ao protestantismo, também ao pentecostalismo, ao catolicismo; vai se voltar, ainda, a outras religiões, como a umbanda, as religiões ameríndias, perguntando como as religiões influenciam nos condicionamentos de gênero e vice-versa, como relações de gênero são tratadas no âmbito religioso.

ALC – O cartaz que divulga o evento fala de três eixos básico.

Wanda Deifelt – Os três eixos básicos são: corporeidade, etnia e masculinidade. No Núcleo de Pesquisa de Gênero (NPG), da Escola Superior de Teologia (EST), o tema da corporeidade vem sendo tratado com muita ênfase. Achamos interessante, então, o Congresso perguntar como as religiões vêem o corpo, como vêem a dimensão ética, o dualismo corpo-alma. Queremos descobrir o que as diferentes expressões religiosas postulam a respeito do corpo humano.

ALC – Do que tratará o eixo da etnia?

Wanda Deifelt – Tratará a questão como os condicionamentos, os racismos, os estigmatismos são fundamentados ou podem ser superados pela própria religião. A sociedade civil garante, por exemplo, igualdade, mas o que as religiões têm a dizer a respeito?

ALC – O eixo mais interessante talvez seja o da masculinidade...

Wanda Deifelt – Há uma pergunta muito atual, a partir da teoria feminista, sobre os modelos de masculinidade existentes. Fala-se em gênero masculino e gênero feminino. Mas essa classificação simplista já não é mais possível. Existe toda uma discussão, a partir da teoria de Queer, que questiona o heterocentrismo e o dualismo homo-heterosexual.

ALC – Mas como vês essa questão?

Wanda Deifelt – Entendo que o século XX foi o grande século das mulheres. O século XXI será o grande século de mudança para os homens.

ALC – Em que sentido?

Wanda Deifelt – Com as mudanças processadas no século XX, a mulher experimentou a emancipação, uma gradativa autonomia. Para a mulher que passou por tal processo, o modelo do masculino vigente, que teve início no século XIX, já não satisfaz mais. Os próprios homens estão descobrindo o papel do afeto, da interconexão, da subjetividade.

ALC – Isso significa que os homens disponíveis, hoje, não satisfazem mais as mulheres?

Wanda Deifelt – Tomando os relacionamentos afetivos, por exemplo, vejo, no próprio trabalho que desenvolvo na EST, que os jovens hoje têm expectativas bem diferentes das que tinham seus pais e avós. O que eles esperam de um relacionamento já não segue o modelo do homem-provedor e da mulher dona-de-casa. Há mudanças significativas já acontecendo e outras que precisam ser ensaiadas.

ALC – O que precisaria ser ensaiado?

Wanda Deifelt – A redistribuição dos papéis, por exemplo. Quando você anda de metrô por aqui, vê muitos pais levando crianças à escola. Já não causa espanto um homem cuidando da casa e das crianças, trocando as fraldas de um bebê. Isso jamais se via na geração de homens como meu pai.

ALC – Entramos no campo do comportamento. Quem trabalha essas questões comportamentais na sociedade?

Wanda Deifelt – As áreas da teologia, psicanálise, antropologia, sociologia...

ALC – E quais são as perspectivas que se vislumbram?

Wanda Deifelt – Existe um mapeamento das mudanças comportamentais. O modelo hegemônico heterossexual, branco, classe média não é mais o único padrão vigente.

ALC – O homem está se "feminilizando"?

Wanda Deifelt – Não, não é isso. O homem começa a viver todas as suas potencialidades. Ele não precisa ser o outro para ser ele próprio. Viver a totalidade de sua potencialidade significa viver tudo aquilo que Deus lhe concedeu. Não significa "feminilizar".

ALC – As mulheres já conseguem viver essa totalidade?

Wanda Deifelt – Não, porque como seres humanos somos ambíguas, contraditórias. Nenhum ser humano consegue viver essa plenitude. Isso seria tornar-se divino. No entanto, isto não nos impede de ensaiar relações humanas que vislumbrem esta liberdade e plenitude. E a mulher não se tornará totalmente livre, se o homem também não o for. Trata-se de possibilitar relacionamentos de companheirismo, afirmação mútua, reciprocidade.

ALC – Qual o papel da educação nesse processo?

Wanda Deifelt – A educação tem um papel importantíssimo. A crítica que se fazia no século passado é que a mulher recebia uma educação estereotipada. Mas se olharmos para a educação de meninos, também ela é uma violência. A cultura impõe esses estereótipos, como o de ser o provedor do lar, de ter a iniciativa no campo sexual. E se ele não consegue cumpri-los, que outra alternativa lhe resta? Muitas vezes o homem não consegue viver essa expectativa que a sociedade lhe coloca nos ombros. É uma violência, que explica, talvez, o grande número de suicídios que se verifica entre os homens.

ALC – Qual o papel dos meios de comunicação social nesse processo?

Wanda Deifelt – Vivemos, hoje, uma ditadura das mídias, que propagam o ideal do corpo perfeito, a obsessão estética corporal. Mas como é que fica a pessoa portadora de deficiência? E quem não tem o corpo perfeito? Por isso a questão homem/mulher parte da nova relação de gênero, como homem e mulher são educados, o que homem e mulher fazem com o que lhes é incutido. Na própria teologia, histórias de vida se tornaram objeto de pesquisa. Celebramos a individualidade no âmbito da coletividade.

ALC – E o papel da educação, qual é?

Wanda Deifelt – A educação serve, em grande medida, para perpetuar estereótipos de gênero. As mulheres, por exemplo, são educadas para a dependência.

ALC – Ainda hoje?

Wanda Deifelt – Ainda hoje. Mesmo que a realidade econômica, política e social imponha novos desafios para as mulheres, no seu imaginário ainda aparece o desejo de encontrar um príncipe encantado. Afinal, são milhares de anos de educação nesse sentido. Mas mudanças estão acontecendo, sem dúvida.

ALC – Essa obsessão pelo corpo malhado também é uma imposição...

Wanda Deifelt – É, sim. Pesquisa realizada com jovens mostrou que os casos de anorexia e bulimia aumentaram, e muito, nos últimos anos. Por detrás dessa realidade está esse mito do corpo perfeito, essa obsessão do corpo. Mas se detecta uma grande contradição: as meninas querem se tornar adultas o quanto antes para, uma vez adultas, terem mais tempo para conquistar a eterna juventude. Isto provoca confusão pois significa não assumir a própria corporeidade. Minha orientadora no doutorado, a teóloga católica norte-americana Rosemary Ruether, diz que as academias e dietas são as modernas câmaras de tortura e de autoflagelo, como as que existiam na Idade Média.

ALC – O que motivou vocês a lançarem o livro "À flor da pele – ensaios sobre gênero e corporeidade"?

Wanda Deifelt – O livro é resultado de dois anos de trabalho do Núcleo de Pesquisa de Gênero (NPG), da Escola Superior de Teologia (EST). O Núcleo existe desde 1999, congrega estudantes do Instituto Ecumênico de Pós-Graduação (IEPG) em torno da temática de gênero, perpassando diferentes áreas de concentração.

Como coordenadora do NPG, instiguei colegas a trabalharmos numa publicação a partir das nossas pesquisas. A metodologia usada também foi nova. Primeiro, cada qual escreveu sua contribuição, a partir de sua área. Discutimos todos os textos nas reuniões mensais do Núcleo e apresentamos sugestões aos colegas e às colegas nos trabalhos que estavam desenvolvendo.

O livro procura estabelecer um diálogo da teologia com a psicanálise, da teologia com as artes, da teologia com a antropologia. Trata-se de uma coletânea que permite vários enfoques, que podem ser muito úteis numa sala de aula, por exemplo.

ALC – O enfoque de gênero avança no Brasil?

Wanda Deifelt – Sim, avança, e muito. Percebe-se que no Brasil essa é uma das áreas na academia de maior proliferação, também na pesquisa. O referencial de gênero não é só da teologia, mas também é instrumento de análise da antropologia, da psicanálise, do direito, da história, num enfoque interdisciplinar. No caso do Brasil, a Teologia Feminista acompanha as discussões de ponta nessa área, acompanha o que se tem de mais novo. Há muita produção na Teologia Feminista.

ALC –Há uma razão para a Teologia Feminista ocupar um lugar de ponta no Brasil?

Wanda Deifelt – No Brasil existe essa tradição muito acentuada da participação de mulheres envolvidas em movimentos sociais, na história do país, na defesa dos direitos cidadãos. A imprensa do final do século XIX e início do século XX repercutia um movimento feminista forte no Brasil, país que tem ótimas intelectuais.

A Teologia Feminista aliou-se ao movimento feminista. Feministas estão envolvidas na área da saúde, dos direitos reprodutivos, nas questões que envolvem aspectos sanitários. As feministas brasileiras não são apenas teóricas, elas também são militantes, com os pés no chão, propagando essas idéias país afora.