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Sexta-feira, 16 de Julho de 2004

Batista: a ressurreição ajuda a sair da desesperança

Manuel Quintero, CARTAGENA DAS ÍNDIAS , Colombia, Março 25, 2004

O silêncio do profeta Ezequiel, que passou sete dias entre sua gente sem saber o Taxi Heathrow Airport que fazer nem o que dizer, poderia ser um paradigma adequado para a igreja de nosso tempo, quando tenta oferecer um testemunho profético, disse o secretário geral do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), pastor Israel Batista.

Batista destacou assim a complexidade de uma realidade histórica em que velhas análises e esquemas perderam validade, e na qual se vive a experiência de uma "peregrinação pelo deserto, com toda sua fragilidade e sua riqueza".

Em sua intervenção no painel que abordou o tema do messianismo a partir da perspectiva bíblica e teológica no encontro da Rede Ecumênica da Colômbia, o secretário geral do CLAI disse que uma das características mais perturbadoras da globalização é sua capacidade de fazer crer que todos dela participam, quando, na realidade, o fenômeno pertence e beneficia minorias e exclui muitos.

De frente a essa realidade é preciso construir um consenso cada vez mais amplo de que o sistema não é a resposta aos problemas da humanidade, e tentar uma síntese em que se conjuguem e complementem "o pastoral e o profético, de juízo e salvação, de resistência e ternura", disse.

Frente a um sistema com pretensões messiânicas, a Palavra oferece três poderosos paradigmas: o Êxodo como celebração da libertação, o Jubileu como compromisso ético, e a Ressurreição como sinal de que é possível romper o cerco da desesperança, sublinhou.

A biblista norte-americana Alicia Winters analisou a evolução do conceito de "ungido", ou "messias", na história do povo de Israel, dos juizes aos sumos- sacerdotes, e assinalou que a frustração do povo com seus líderes é uma das razões que explicam o surgimento da expectativa apocalíptica.

Se na tradição profética o que ocorria na história tinha a ver com os propósitos de Deus para o povo escolhido, na visão apocalíptica trata-se de um combate entre as forças do bem e do mal, no qual aparece a irrupção direta de Deus para derrotar o mal, enfatizou.

Na política, disse a biblista lotada na Universidade Reformada da Colômbia, o messias representa a expectativa de alguém com poderes excepcionais que vem solucionar uma crise e que dá um novo rumo na história.

Referiu-se, então, à forma como a mentalidade messiânica está presente na vida dos Estados Unidos. "Nós, norte-americanos, gostamos muito de cinema, e no cinema de Hollywood, nos filmes do Oeste, temos visto por muito tempo heróis vestidos de branco cavalgando em cavalos brancos e lutando contra o mal", comparou.

Para o povo de Israel o messias teria que ser um rei justo, assinalou a religiosa dominicana Aleyda Gómez, a terceira painelista. "Esse termo de justiça aplicado aos reis corresponde parcialmente ao que se segue chamando justiça em nossos dias, sobretudo em sua aplicação legal e administrativa. Mas a expressão 'a justiça do Messias' ou 'Messias de justiça' diz algo mais: o termo justiça está associado na Bíblia ao de salvação, libertação, com o estabelecimento e a manutenção da qualidade de vida para o povo", analisou.

A religiosa, que intitulou sua apresentação de "Metáforas alternativas ante os messianismos atuais", reconheceu que na Bíblia existe também "uma pretensão messiânica, teocrática e guerreira que apareceu no povo de Israel a partir da monarquia e vem unida à concepção patriarcal extra-bíblica dos povos vizinhos, que deslocou a liderança das deusas pelo poder dos deuses".

"Uma hermenêutica androcêntrica desses textos originais mantém até nossos dias como legítimo o poder em mãos do varão e o constituem, pela graça de Deus, como único capaz, tanto de governar como de salvar a mulher", enfatizou.

Na opinião de Gómez, é ali, precisamente, que se encontra "a origem ancestral dos sonhos messiânicos dos líderes políticos; algo assim como um complexo inconsciente de inferioridade, que se confunde com a incapacidade de responder a partir da força de projetos sociais reais".

A intervenção de encerramento do painel coube ao teólogo Amílcar Ulloa, secretário executivo da Comissão Ecumênica Teológica Latino-Americana (Cetela). A partir de exegese de textos do Apocalipse e da Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses, Ulloa assinalou que o programa de seguridade democrática na Colômbia reflete uma "escatologia perversa", e que semelhante projeto messiânico está condenado à "destruição repentina e total", porque o mesmo não se baseia na paz de Deus, mas na injustiça.

Ensinamento da literatura apocalíptica, disse, é que "os governantes que se erigem como deuses, apesar da grandeza e do poder que conseguem alcançar, têm os pés de barro".

A comprovação, no contexto colombiano, dessa debilidade humana dos poderosos seria a derrota sofrida pelo presidente Uribe no referendo do mês de outubro passado, explicou.

Em contraste, o propósito final da Palavra de Deus é "iluminar-nos para que vivamos uma espiritualidade alternativa, orientada por uma convivência de paz e santidade, movida pelo fogo do Espírito", concluiu Ulloa.


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