Voltar ao início

Sexta-feira, 16 de Julho de 2004

Fred Morris, diretor para América Latina do Conselho Nacional de Igrejas dos Estados Unidos [Foto: M. Quintero]
Fred Morris, diretor para América Latina do Conselho Nacional de Igrejas dos Estados Unidos [Foto: M. Quintero]

Consulta ecumênica analisa realidade colombiana

Manuel Quintero, CARTAGENA DAS ÍNDIAS , Colombia, Março 25, 2004

Como a Colômbia se enxerga e como é vista a realidade colombiana na Europa e Taxi Heathrow Airport nos Estados Unidos foi o tema central do painel que deu início, nesta localidade, ao encontro da Rede Ecumênica da Colômbia. O evento reúne mais de 50 pessoas, representantes de igrejas e organismos cristãos desse país, convidados de organizações ecumênicas de outros países e regiões.

A partir de uma sucinta e lúcida análise da história das relações entre os Estados Unidos e a América Latina, começando com Thomas Jefferson e chegando até o presidente George Walker Bush, o reverendo Fred Morris explicou os antecedentes e perfis da política do país do norte no continente.

Ele destacou que desde os anos remotos da doutrina Monroe (1830) e passando pela doutrina do "destino manifesto" (1845) até as atuais visões geopolíticas, a política do governo dos Estados Unidos orientou-se para a defesa dos interesses econômicos do país nessa parte do mundo, e, nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, a brecar a penetração e expansão do comunismo.

Depois da queda do Muro de Berlim e o colapso do socialismo real, o novo inimigo dos Estados Unidos é o narcotráfico. Para combatê-lo são destinados enormes recursos, disse Morris. Ele é diretor de Relações com a América Latina e o Caribe do Conselho Nacional de Igrejas dos EUA.

Lamentavelmente, prosseguiu, muitos missionários norte-americanos que vieram para a América Latina não se deram conta de que pregavam uma imagem do reino de Deus ao tom de sua própria cultura, identificando os valores do reino com os do modo de vida americano.

Nesse contexto, as igrejas da Colômbia e dos demais países do continente podem desempenhar um papel importante na denúncia de uma das mais poderosas heresias do cristianismo nos Estados Unidos, que é a individualização excessiva da fé.

"É preciso ajudar o povo cristão dos Estados Unidos a se conscientizar de que a solidariedade é o novo nome da fé", enfatizou Morris.

O coordenador do escritório sobre Impunidade e Reconciliação para a América Latina e o Caribe do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), Guillermo Kerber, apontou as razões que relegaram a Colômbia a um lugar secundário na agenda política européia.

Mencionou, em primeiro lugar, a ampliação e consolidação do projeto de unidade européia, que faz com que os países desse continente se preocupem, prioritariamente, com os seus problemas internos. Em segundo lugar, a própria exigência do projeto se traduziu numa sensível diminuição dos recursos que antes eram destinados aos países do Sul.

Kerber acrescentou que os atentados terroristas de Madri, de 11 de março, introduziram um novo elemento na situação política na Europa: o terrorismo já não é mais um fenômeno isolado, como no caso do País Basco na Espanha, mas uma realidade instalada no coração da Europa.

Na opinião de Kerber, existe uma ambigüidade fundamental na política da União Européia para com a Colômbia. Por um lado, disse, existe a rejeição mais ou menos explícita da visão militarista inerente ao Plano Colômbia, uma visão que aponta a solução do conflito pela via armada.

"Os países europeus assinalaram reiteradamente a necessidade de se alcançar uma negociação política e não militar ao conflito", afirmou. Mas, por outro lado, a ameaça do terrorismo de criar um clima de opinião resulta mais fácil apreciar positivamente a chamada política de "seguridade democrática" que o governo colombiano propõe.

Olhar de dentro

O vice-presidente da Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH) e membro do Coletivo de Advogados José Alvear Restrepo, Alirio Uribe, assinalou que no desenvolvimento da política de "seguridade democrática", o governo colombiano "vem reeditando as velhas concepções da Doutrina da Segurança Nacional".

Na opinião dele, isso se reflete na concepção governamental de que existe "um inimigo interno de caráter coletivo, do qual se considera que fazem parte não somente as organizações insurgentes, mas adicionalmente organizações sociais, cívicas, sindicais, de direitos humanos e políticas de oposição".

Embora seja válido o uso do sistema jurídico por parte do Estado para combater as manifestações de violência, "a ativação do sistema penal só é legítima se suas atuações se enquadrarem no devido respeito aos direitos e garantias processuais", definiu.

Uribe denunciou que a política de seguridade democrática assume que "quem reside em áreas de conflito ou desenvolve lutas reivindicatórias é suporte da guerrilha".

Essa noção, prosseguiu, é a que desencadeou as "maciças, indiscriminadas e arbitrárias privações da liberdade executadas por parte da Força Pública nesse período".

Segundo relatório da Fundação Comitê de Solidariedade com os Presos Políticos, entre setembro de 2002 e dezembro do ano passado 6.038 pessoas foram presas, das quais 4.846 corresponderam a detenções em massa - detenções nas quais foram privadas da liberdade 20 ou mais pessoas. Daquele total, 3.939 pessoas foram detidas arbitrariamente, e, subseqüentemente, 3.750 foram deixadas em liberdade.

A consulta, que termina nessa quinta, foi convocada sob o lema "A partir da fé, na diversidade, por uma causa comum onde haja vida abundante".

A Rede Ecumênica da Colômbia, constituída em 2002, agrupa diferentes denominações evangélicas, a Igreja Católica e organismos cristãos que procuram fortalecer processos de defesa da vida e dos direitos humanos, e promover iniciativas de paz.


Ultimos titulares