
Caçador de si próprio
Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil, Março 23, 2004
Entre os mitos trazidos pelos africanos para a América, um deles relata uma caçada. O Taxi Heathrow Airport caçador fica à espreita do animal. Ao se aproximar um pouco mais da grande ave que vislumbra entre as folhas, o caçador estica ao máximo o seu arco e solta a flecha, ferindo-se gravemente. Esqueceu-se que o arco estava virado contra o seu próprio peito. Assim, o caçador tornou-se sua própria caça.
Com o avanço das pesquisas sobre os modos de ser e de viver de outros povos distintos e distantes, descobriu-se que mito não é sinônimo de mentira. Antes, é uma relato repetido, contado, que revela aspectos significativos de um povo. Todos os povos têm os seus mitos. Logo, é uma fala de um outro tipo de verdade, que não se confunde com a ciência.
No paraíso bíblico, por exemplo, havia uma árvore cujo fruto era proibido comer. Era uma ordem divina. Mas a cobra seduziu a mulher. Esta, por sua vez, convenceu o homem. Este, ao ser interrogado pela voz divina, jogou a culpa na mulher. Sem titubear, esta acusou a serpente. Como a cobra fazia parte da criação divina, pode-se concluir que, no final da conversa, a responsabilidade recaiu sobre o próprio Criador.
Arte do auto-engano.
Pensando nas corrupções que se generalizam em todas as dimensões da vida, seja no âmbito social, político, econômico e eclesial religioso, podemos correr o risco de repetir o jogo de Adão e Eva: corruptos sempre são os outros. E, quando alguém dos baluartes de ética tropeça, os corruptos e os corruptores fazem questão de se autodenunciarem: eles são iguais a nós. Como Adão e Eva, estão nus diante de todos.
É salutar, pois, que políticos e pessoas de referência comunitária, bem como as contas de suas instituições, estejam nus diante de nós. Nem instituições nem pessoas podem se ostentar à infalibilidade.. Na Carta aos Romanos, capítulo 3, o apóstolo Paulo fala da democracia do pecado: Não há justo, nem um sequer... todos se extraviaram...
A percepção acurada do apóstolo Paulo não nos conforma com a corrupção e o pecado. Preconiza, isto sim, o controle público e comunitário de nossas vidas e das contas públicas e comunitárias. Quando nos "acusamos" mutuamente de pecadores, garantimos as condições para a democracia na política, nas igrejas e outras instituições. Nada há de privado e privatizante diante de Deus.
A reivindicação de uma administração pública dos recursos eclesiásticos, políticos e de outra ordem é louvável. A busca, porém, da infalibilidade ética em pessoas e instituições é altamente perigosa. O que precisamos exercitar, então, é o controle comunitário e público de nossos recursos e vidas pessoais.
Nas primeiras páginas da Bíblia a queda é a condição para se ter consciência da nudez, a fim de evitar que sejamos a nossa própria caça. A nudez da vida pessoal e dos recursos públicos governamentais e eclesiais indica o caminho da vida plena e da democracia. Quem se cobre, encobre.
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Oneide Bobsin, Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo/RS/Brasil.

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