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Quarta-feira, 10 de Novembro de 2004

Eduardo Chinchilla, secretário do CLAI para Centro-América [Foto: Manuel Quintero]
Eduardo Chinchilla, secretário do CLAI para Centro-América [Foto: Manuel Quintero]

Igrejas evangélicas sofrem ameaças às vésperas da eleição

Manuel Quintero, SAN SALVADOR, El Salvador, Março 17, 2004

Num ambiente de grande polarização, marcado por insultos e acusações mútuas entre os principais concorrentes à presidência do país, duas igrejas evangélicas receberam telefonemas de intimidação e ameaça que recordam os piores momentos da guerra civil em El Salvador.

"Nas últimas semanas, a Igreja Reformada Calvinista e a Igreja Luterana Salvadorenha têm recebido chamadas telefônicas com ameaças de bombas em seus escritórios, e outras chamadas que procuram averiguar quem são e de onde procede seu financiamento", informou o reverendo Eduardo Chinchilla, secretário do Conselho Latino Americano de Igrejas (CLAI) para a região meso-americana.

A polícia civil também prendeu, momentaneamente, irmãos e irmãs dessas igrejas, relatou Chinchilla, que participará como observador internacional nas eleições de El Salvador, marcadas para o próximo domingo, 21.

"Esse tipo de ameaças lembra os momentos mais difíceis da guerra, quando grupos de esquadrões da morte se dedicavam a perseguir e ameaçar as nossas instituições e membros de nossas igrejas e comunidades", assinalou o pastor.

Concorrem à presidência da República o ex-guerrilheiro da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional (FMLN), Schafik Handal, e o representante da Aliança Republicana Nacionalista (Arena), partido que está no poder, Tony Saca.

Saca é um locutor esportivo que conseguiu chegar à elite empresarial radical e converteu-se num dos homens mais populares do país. Handal é um descendente de imigrantes palestinos que dedicou sua vida à atividade política à sombra da ideologia comunista. Nas pesquisas, o candidato da Arena aparece como favorito.

A candidatura de Handal, que foi secretário geral do Partido Comunista Salvadorenho (PCS) e líder da FMLN, moveu a direita a levantar o espectro do comunismo. Por sua parte, a FMLN recrudesceu seus ataques contra o modelo neoliberal nas últimas semanas de campanha.

A Arena usou com freqüência, nas suas concentrações, o antigo slogan "pátria sim, comunismo não". A FMLN acusou o governo da Arena de corrupto. A Arena está no poder desde 1989.

O clima de confronto é tão forte que o arcebispo auxiliar de San Salvador, Gregorio Rosa Chávez, declarou à agência "Prensa Asociada" que o país "retrocedeu porque a intolerância chegou ao limite quase extremo. Falta somente que voltemos a nos matar como há décadas, estamos quase às vésperas disso pelo tom que o discurso ganhou e pela maneira de fazer campanha".

Nos últimos meses, em plena campanha eleitoral, a Igreja Luterana saiu a público com pronunciamentos críticos do governo. Em setembro passado, o bispo luterano Medardo Gómez emitiu carta pastoral na qual criticou o envio ao Iraque de um contingente de 380 soldados salvadorenhos.

Em outubro, o bispo Gómez manifestou consternação pela aprovação da chamada lei antibando, lei que, em opinião do prelado luterano, "obedece a um espírito vingativo, fanático, visceral e não reflexivo".

A oposição dessas igrejas evangélicas ao governo da Arena poderia estar na raiz das ameaças que agora são objeto, às vésperas da mais disputada eleição em El Salvador nos últimos 15 anos.

O pastor Chinchilla pediu às igrejas de todo o mundo que expressem sua solidariedade ante essa situação com o envio de cartas ao presidente Francisco Flores, ao diretor da Polícia Nacional Civil e ao Fiscal Geral da República, para que se investiguem tais ameaças e cessem de imediato as intimidações.


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