
Bradbury e Max Weber são espelhos da Argentina
Hilario Wynarczyk, BUENOS AIRES, Argentina, Fevereiro 18, 2004
"Na vida existem duas regras: uma é lidar com os problemas e a outra é Taxi Heathrow Airport fazer bem o trabalho". Essas palavras levantadas em reportagem telefônica por Fabiola Czubaj (La Nación de Buenos Aires, 7 de janeiro de 2004) revelam um aspecto do pensamento de Ray Bradbury. Nelas se refletem fibras do pensamento calvinista presentes na cultura dos Estados Unidos.
Estou lendo Max Weber, "A ética protestante e o espírito do capitalismo". Diante da reportagem não pude deixar de fazer comparações que me parecem apropriadas. Bradbury continua respondendo à jornalista. "Precisamos que exista a competição, como ocorreu com a história do descobrimento da América. Os homens precisam competir entre si porque é saudável e não há nada de mal nisso..."
Com a segunda Reforma protestante, vários novos movimentos evangélicos se levantaram contra as igrejas afiliadas aos Estados europeus, nas quais os poderes ou carismas de Deus estavam instalados em mãos de algo assim como apoderados ou mandatários do sobrenatural.
As igrejas se convertiam em institutos de salvação ou o "fiel depositário", dito nas palavras de Max Weber. As novas igrejas da segunda onda da Reforma não seguiram necessariamente o esquema calvinista da predestinação limitada a uma parte da humanidade, de acordo com um desígnio misterioso de Deus. Mas serviram de veículo e prolongamento de certos aspectos do calvinismo relacionados com a ética pessoal.
A luta pela vida como uma forma de luta pelo céu substituía em parte os meios da graça administrados pelos mandatários de Deus na terra. E Bradbury segue dizendo algo que reflete o mesmo espírito dessa rebelião, o espírito cuja fonte calvinista Max Weber acredita conhecer na cultura dos norte-americanos.
"... Como o fizeram os colonizadores do Novo Mundo, que deixaram para trás as políticas européias, suas monarquias e suas guerras, pisaram solo americano para começar de novo". Aos 83 anos, Bradbury fala com firmeza, diz a jornalista, embora não faz muito tempo perdeu sua esposa e padece enfermidade.
Assim continua. "E veja o que conseguimos: pessoas que chegam de todo o mundo ao continente para viver melhor". A América foi uma empresa de promissão.
As "igrejas batizantes" tratavam de criar novas comunidades, que na realidade eram - supunha-se - as formas da primitiva, a única e a verdadeira igreja. Para os colonos americanos tratava-se de criar um mundo novo.
Bradbury segue falando e o escutamos. "Marte tem todos os elementos que necessitamos: só temos que penetrar o solo; é preciso levar maquinaria que permita cavar o terreno para poder extrair o oxigênio. Podemos criar a atmosfera, o combustível..." Podemos criar um mundo.
Esse mesmo espírito não foi patrimônio exclusivo de uma cultura na qual Weber, em 1905, reconhece raízes distantes do calvinismo. O espírito dos pioneiros e o ascetismo ético na vida cotidiana surgiram também em outros contextos, incluindo o da cultura soviética, embora pareça tão pouco óbvio, com as claras diferenças específicas que nos corresponderia marcar para sustentar a afirmação.
O que segue é politicamente incorreto. Trata-se do espírito de empresa, que deu lugar à formação de uma grande nação. O espírito de marchar para adiante e criar um mundo novo. O politicamente correto seria não dar atenção a esse pano de fundo do discurso de Bradbury.
Ou indicar - pelo menos - todas as conseqüências que esse mesmo espírito trouxe. Novas guerras. Formas de religiosidade controladas que asfixiam a consciência que quer ser livre.
Mas não posso deixar de dizer que esse espírito fascina quando vemos a realidade de culturas como a de meu país, a Argentina, onde o debate gira, e gira, e gira em torno do mesmo: o passado, sem estancar as feridas, a justiça em suspenso, a corrupção, a falta de compreensão de parte da cidadania acerca de seus próprios direitos, o desejo de voltar para trás, para um estado virginal da nação liderada por um grande pai e caudilho.
Cada vez mais acredito que o problema de fundo está na estrutura. Não na estrutura social e econômica. Esse ainda é um plano intermediário. Mas no plano cultural. O espírito da nação.

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