
A revolução sandinista,
Harold Segura C., SAN JOSÉ, Costa Rica, Fevereiro 5, 2004
"A revolução sandinista foi um caso único na História: ela foi ganha, como todas, pelas Taxi Heathrow Airport armas, e se entregou, como nenhuma, por meio de eleições democráticas".
"Foi bela, assim também como outras, frustrada pelos Estados Unidos, que aplicaram o embargo econômico e apoiaram a luta antiguerrilha que deixou milhares de mortos".
"De nada serviu que o Tribunal Internacional de Haia condenasse esse país e lhe exigisse o pagamento de 17 milhões de dólares. Nunca os pagou e nunca se retratou".
Com essas palavras o sacerdote e poeta nicaragüense Ernesto Cardenal respondeu a uma das tantas perguntas que lhe foram dirigidas no auditório da Casa Cultural da Embaixada do Chile em São José da Costa Rica e na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade da Costa Rica, em recente visita a esse país.
O padre Cardenal apresentou na ocasião o seu último livro, intitulado "Revolução perdida", publicado pela Editora Centro-Americana Anama.
Com esse título completa-se a obra de três tomos das memórias pessoais do padre Cardenal. "Quisera ter escrito mais, mas não o faço porque tenho péssima memória", disse.
Primeiro veio "Vida perdida", no qual conta seus anos moços e as circunstâncias de sua vocação religiosa. "Meu encontro com Deus era o melhor que tinha para contar. Por isso o escrevi primeiro".
Depois apareceu o segundo tomo: "As línguas estranhas", no qual narra seus anos na Ilha de Solemtiname e a experiência espiritual com um grupo de camponeses ávidos por aprender os segredos do compromisso cristão e da entrega à causa do reino de Deus e sua justiça.
O mais recente, "Revolução perdida", faz um balanço dos anos da revolução e narra com luxo de detalhes a participação do autor na mesma, seja como contato estratégico no exílio, como embaixador internacional na busca da solidariedade dos povos, como guerreiro valente na hora de enfrentar a Guarda, seja como ministro da Cultura depois do triunfo.
Ele traz um testemunho comovente de muitos heróis desconhecidos que entregaram sua vida lutando contra uma ditadura cruel e desapiedada.
"A revolução foi perdida?" Não de todo, responde o poeta, "foi traída por quem fez dela fonte de lucro. Nessa apropriação foram repartidas as terras e se aproveitaram para roubar e se tornarem milionários. Ficou a democracia, embora imperfeita, mas ao fim e ao cabo democracia que era o que não havia quando Somoza governava; também ficou um dos melhores exércitos da América, nascido das entranhas da guerrilha daquele tempo; ficou a arte popular, a poesia, enfim... Isso ficou... o demais foi perdido".
Cardenal, hoje com 79 anos, confirma sua vocação revolucionária, justifica a guerra quando conduz à libertação dos povos oprimidos, aceita a violência quando se dirige contra os opressores, crê que o reino de Deus se constrói aqui na terra e que "toda revolução nos aproxima desse reino, mesmo uma revolução perdida".
É o poeta que continua sonhando e o cristão que continua rezando a Deus "para que se faça sua revolução na terra como no céu".

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