Marcha fecha consulta sobre delinqüência juvenil
Manuel Quintero, TEGUCIGALPA, Honduras, Fevereiro 1, 2004
Carregando cartazes e cantando hinos em favor da paz, jovens evangélicos da Guatemala, Nicarágua, El Taxi Heathrow Airport Salvador e Honduras caminharam do Estádio Nacional até o Parque do Obelisco, na capital hondurenha, fechando dois dias de deliberações sobre delinqüência juvenil.
A tranqüilidade da ensolarada manhã de domingo encheu-se com a ruidosa presença de uma centena de jovens centro-americanos, aos quais somaram-se jovens e adultos de igrejas locais, numa peregrinação de uma hora que atraiu a atenção da imprensa local. Três canais de televisão cobriram a marcha, encerrada com um concerto de música cristã que se prolongou até o meio-dia.
"Essa marcha é uma demonstração da vontade das igrejas de trabalhar a favor da paz. Queremos uma sociedade de paz", disse a advogada Noemí Espinoza no fechamento da marcha, junto ao Parque do Obelisco. Espinoza é diretora executiva da Comissão Cristã de Desenvolvimento (CCD), o organismo anfitrião da consulta meso-americana sobre a delinqüência juvenil, auspiciada pelo Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI).
O pastor Israel Batista, secretário geral do CLAI, disse que a consulta demonstrou que as igrejas da região têm uma vocação comum pela vida, e chamou os jovens para que sejam "fazedores de paz e não construtores de violência".
Na homilia do ato de encerramento do encontro, o pastor Eduardo Chinchilla, secretário do CLAI para a região meso-americana, afirmou que "a delinqüência juvenil está organizada e semeia terror nas nossas ruas, mas esses jovens são as novas gerações que buscam saídas à violência porque estão sem paradigmas nem esperança".
Por isso, é necessário que os governos centro-americanos "meçam o alcance das leis repressivas e pensem mais em criar caminhos viáveis de desenvolvimento e ofereçam esperança de superação para a juventude".
O programa da consulta incluiu conferências sobre o marco legal da lei antiquadrilhas, a cargo do ex-fiscal geral de Honduras, o advogado Edmundo Orellana, e sobre a cultura da violência, que foi apresentada pelo psicólogo Juan Gilberto Torres, da organização Casa Aliança.
Também foram apresentados diagnósticos das realidades nacionais dos quatro países, focados na problemática da delinqüência juvenil, preparados por equipes de jovens das igrejas envolvidas; e testemunhos de jovens que estiveram vinculados a quadrilhas e gangues, resgatados por experiências de fé.
No segundo dia da consulta, os participantes trabalharam em grupos para aprofundar a análise e apresentar propostas de ação a suas igrejas. As propostas foram discutidas e aprovadas em sessão plenária, e serão recolhidas em documento final da consulta.
Os jovens centro-americanos aprovaram a chamada "Declaração de Monte Carmelo", na qual assinalam que o problema da violência e delinqüência vinculada às quadrilhas juvenis "tem raiz em causas e efeitos derivados das guerras, condições de pobreza, corrupção, migração e projetos neoliberais que empobreceram mais os povos centro-americanos".
Mencionaram, ainda, como causas a desintegração familiar, a violência doméstica e a incompreensão que muitos jovens vivem no seio familiar.
Na declaração, os jovens manifestam desacordo com a forma de aplicação das chamadas leis antiquadrilhas, leis que, entendem, não representam uma solução ao problema, mas que provocam mais violência, mais temor na população.
"Não defendemos a violência nem a delinqüência, nem estamos de acordo com a ação de jovens associados em quadrilhas e guangues; mas consideramos que os métodos utilizados não são os mais adequados, porque não contemplam a prevenção do delito nem a reabilitação dos jovens", argumentam.
O documento pede aos governos que revisem e ajustem o espírito e o conteúdo da lei antiquadrilhas em função dos convênios internacionais que promovem e protegem os direitos da infância, e que invistam em programas de reabilitação de jovens vinculados a quadrilhas e gangues.
O documento reclama a revisão e avaliação do papel das policias da região, e que se dê ênfase especial à capacitação dessas forças da ordem no conhecimento e respeito dos direitos humanos.
Os jovens também pedem a regulação dos meios de comunicação, em razão da influência que eles têm sobre infantes e jovens, e por serem um dos principais difusores de programas que enaltecem a violência.
No final do documento, os participantes da consulta em Monte Carmelo pedem às igrejas que revisem sua proposta de trabalho com a juventude, oferecendo maior apoio e autonomia aos jovens, sujeitos e protagonistas por excelência dessa pastoral, e que coordenem os esforços e recursos com os governos locais para o tratamento da problemática da delinqüência juvenil.

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