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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2004

Quando os pacificadores são presos

Carlos Valle, BUENOS AIRES, Argentina, Janeiro 30, 2004

As vozes dos que clamam no deserto são escutadas hoje em dia? Há os que estão dispostos a lançar a voz, mas também existem os que estão dispostos a calá-la. Essa semana, a co-fundadora de "Vozes no Deserto" e três vezes indicada ao Nobel da Paz, Kathy Kelly, foi presa nos Estados Unidos, junto com outros líderes de movimentos não-violentos.

Seu delito: ter-se manifestado contra a violência militar de seu país, introduzindo-se na base militar de Fort Benning em protesto contra a Western Hemisphere Institute for Security Cooperation, novo nome dado em 2001 para a famosa e sinistra Escola das Américas.

É bem conhecido que essa escola treinou, durante anos, ditadores militares e soldados que massacraram centenas de milhares de pessoas na América Central e na América do Sul. Passaram por seus bancos escolares, dentre os mais de 60 mil alunos, os ditadores Manuel Noriega, do Panamá, Hugo Banzer, da Bolívia, e Leopoldo Galtieri, da Argentina.

Kathy Kelly e outras 27 testemunhas pela paz quiseram expressar o seu protesto pelo enorme mal que a escola causou e o medo que intervenções militares criaram nesses países, com a convicção de que, ao faze-lo, davam um passo de esperança na busca da paz e da justiça social no mundo.

Ao ser presa, ela foi vítima de tratamento desumano, sofrendo agressões verbais e físicas. Foi algemada, atirada ao chão; um soldado colocou o pé em cima dela, dificultando-lhe a respiração.

"Vozes no Deserto" foi fundada em 1996 para opor-se à guerra econômica e militar contra o povo do Iraque. Professores, trabalhadores sociais, gente de fé, alentados pela busca da paz através da não-violência, desenvolveram diversas tarefas no país para tomar consciência sobre as atrocidades cometidas contra os iraquianos.

A ONG opõe-se a todo tipo de armamento de destruição de massa, armas químicas, nucleares ou biológicas. Delegações visitaram várias vezes o país, e, violando decisões das Nações Unidas e das leis norte-americanas que impedem o envio de ajuda, supriram crianças e famílias em necessidade com medicamentos.

Numa declaração enviada ao juiz G. Mallon Faircloth, que a condenou à prisão, Kathy Kelly afirmou: "Durante os bombardeios norte-americanos em março e abril de 2003 vi como as crianças sofrem quando as nações decidem colocar seus recursos em armas e em guerras antes que responder às necessidades humanas. Juiz Faircloth, experimentamos e vimos os efeitos mortais da política militar dos Estados Unidos em mães e crianças, nas famílias. Tivemos em nossos braços crianças e tratamos de consolá-las sob as bombas".

Ela concluiu na carta: "Às vezes penso que estamos frente a um deserto de compaixão neste país. Mas quando penso nas muitas vozes que trataram, nesta corte, de clamar pelas ações de misericórdia antes que pelas ações de guerra, sinto-me em casa, agradecida, e sinto-me profundamente ungida a permanecer em silêncio e escutar os clamores daqueles afligidos - com freqüência é duro escutá-los -, mas quando os escutamos somos chamados, todos nós, a sermos como vozes no deserto, levando o seu lamento e motivando-os a construir um mundo melhor".

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Carlos Valle, pastor metodista argentino e ex-secretário geral da Associação Mundial para a Comunicação Cristã (WACC).