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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2005

Raúl Suárez, diretor do Centro Martin Luther King [Foto: José A. Paz]
Raúl Suárez, diretor do Centro Martin Luther King [Foto: José A. Paz]

Jogo do conservadorismo religioso compromete a missão

José Aurelio Paz, HAVANA, Cuba, Janeiro 28, 2004

Depois de uma primeira jornada de trabalho, o Encontro de Acompanhamento Pastoral com as igrejas Taxi Heathrow Airport cubanas aprumou-se hoje, na plenária final, para os objetivos propostos, aprofundando formas concretas do relacionamento dos cristãos que aspiram um ecumenismo participativo e solidário, como é o próprio ato da eucaristia ensinado por Jesus.

O coordenador da área de Ecumene e Serviço do Conselho de Igrejas de Cuba (CIC) e diretor do Centro Memorial Martin Luther King, reverendo Raúl Suárez, detonou o debate em grupos e colocou na mesa importantes proposições para estudo, as quais virão a público, em breve, na carta final do evento, redigida por representantes de diferentes conselhos e igrejas participantes.

Suárez apontou três aspectos que preocupam a igreja cubana, na sua opinião: as relações Estados Unidos e Cuba. Ele entende que a administração Bush representa "os piores interesses da sociedade norte-americana". Disse, ainda, que "a linguagem dos dois governos é cada vez mais forte, situação que pode levar a conflitos maiores".

O segundo ponto que Suárez frisou é a relação de força entre o gigante ianque e os povos latino-americanos. "Os Estados Unidos impuseram, através do Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, um sistema econômico que tem sido um desastre para a região. E isso, contrário aos seus cálculos, despertou maneiras diferentes de pensar com a presença esperançada de novos governos", afirmou.

Lembrou que na última Cúpula das Américas, os Estados Unidos não receberam o apoio dos países do continente para realizar ações e sanções contra Cuba, "e isso os penalizou à medida em que crescem as preocupações contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alca)", avaliou.

O terceiro aspecto preocupante, na visão do pastor batista, é o perigo de uma nova dependência das igrejas cubanas das norte-americanas. Ele afirmou que "o dólar converteu-se num demônio para o nosso país e existem correntes do conservadorismo religioso mais rígido que querem invadir-nos" para impor, segundo o seu critério, uma fé retrógrada que elimine de uma só tacada o verdadeiro ecumenismo, desconhecendo o papel protagonista da mulher no trabalho evangelizador e desenvolvendo um apostolado de essência suspeita.

"O que nós, pastores e pastoras cubanos, temos feito nesses anos todos? Acaso não contamos com uma igreja viva e vibrante através da qual se manifesta o Espírito Santo"? – indagou.

Para afirmar em seguida: "Temos provas de que esse conservadorismo religioso, ligado à direita política que gerou dano em outras regiões, é orquestrado expressamente por Washington".

E defendeu: "Por isso, como diz o poema do nosso poeta nacional Nicolás Guillén, fecharemos a muralha aos que pretendem vir com novos ares de missionários colonizadores e a abriremos àquelas igrejas que chegarem com o sadio propósito de contribuir para a vida ecumênica e para a vida espiritual dos cristãos desse país".

De acordo com Suárez, "fazer o jogo desse conservadorismo é comprometer o ministério profético ao qual a igreja cubana foi chamada".

O espírito de fraternidade presente no encontro foi propício para conhecer, por parte dos diferentes representantes de Conselhos de igrejas presentes e do Conselho Mundial de Igrejas, a dedicação de Reinerio Arce Valentín para o fortalecimento do ecumenismo cubano e as relações internacionais. Arce Valentín conclui o seu mandato como presidente do CIC em março, quando haverá eleições gerais no organismo.

Num profundo momento litúrgico os participantes do evento tiraram os sapatos e construíram com eles uma cruz. No centro da cruz colocaram um círio iluminando o livro sagrado. Todos os participantes se deram as mãos simbolizando o caminho para a luz de Deus, segundo uma tradicional canção africana, música que se fundiu com outra histórica canção: "We shall over come".