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Sábado, 10 de Novembro de 2007

Perplexidade e satisfação pela visita do Patriarca Ecumênico

Manuel Quintero, HAVANA, Cuba, Janeiro 27, 2004

A breve mas intensa visita do Patriarca Ecumênico a Cuba deixou atrás de si uma Taxi Heathrow Airport esteira de perplexidade e satisfação. Satisfação porque Bartolomeu I, fazendo uso de um bom instinto político, seguiu ao pé da letra um programa que não deixou espaço para atividades que modificariam o caráter espiritual e pastoral de sua visita.

Nesse sentido, as tentativas para que se reunisse com dirigentes políticos cubanos não tiveram êxito, uma atividade que lhe granjeou críticas em setores da oposição dentro e fora de Cuba, especialmente no sul da Flórida.

Em verdade, ao apegar-se estritamente a seu programa e evitar uma intromissão direta na realidade nacional, não o impediu de emitir, à véspera de sua partida, um claro juízo sobre a política dos Estados Unidos em relação a Cuba. Segundo Bartolomeu I, o embargo dos Estados Unidos contra a ilha é um "erro histórico", já que os conflitos entre os povos devem ser resolvidos "através do diálogo".

Por isso, na avaliação que fez do evento, o reitor da paróquia episcopal de Matanzas e um dos três deputados no Parlamento cubano, reverendo Odén Marichal, assinalou que a visita constitui um encosto moral e político para Cuba.

Na opinião de Marichal, a presença do Patriarca Ecumênico na ilha também favorece o desbloqueio mental entre os fiéis grego-ortodoxos nos Estados Unidos. "Esse desbloqueio mental é uma premissa fundamental para conseguir o levantamento do bloqueio contra Cuba", enfatizou.

Mas a visita do líder espiritual de mais de 300 milhões de cristãos ortodoxos também gerou perplexidade, porque Bartolomeu I veio a uma ilha onde a população greco-ortodoxa soma algumas poucas centenas de pessoas.

Uma ilha na qual a cultura grega está presente sobretudo na figura do mítico Homero e seus dois poemas épicos, A Ilíada e A Odisséia - que ainda são estudados nas escolas secundárias - mas que em sua riqueza e esplendor é antes tema de estudo e desfrute de um reduzido número de intelectuais e especialistas.

Templos confiscados

O certo é que, à margem do indubitável significado religioso e espiritual da presença de Bartolomeu I em Cuba, sua visita colocou na mesa algumas perguntas de natureza política, tanto doméstica como internacional.

A edificação do templo de São Nicolau num local privilegiado da Havana Antiga obedeceria, em primeiro lugar, a um velho reclamo da Igreja Ortodoxa Grega, cujo templo nesta mesma cidade foi confiscado pelo governo revolucionário e eventualmente despojado de seus atributos como centro de culto.

Por anos, essa igreja e o governo da Grécia pediram a restituição dessa propriedade, pedido ao qual o governo cubano finalmente teria respondido com a doação do belo templo contíguo ao Convento de São Francisco.

O gesto também poderia ser interpretado como um reconhecimento à atitude do governo grego de não se imiscuir nos assuntos internos da ilha. Diferente de outros países da União Européia, a Grécia é um dos quatro países europeus - junto com Áustria, Bélgica e Portugal - que não haviam convidado nem recebido dissidentes cubanos em suas respectivas embaixadas em Havana.

Direitos humanos

Em consonância com essa política do governo grego, Bartolomeu I não aceitou o convite a uma recepção na residência do chefe do Departamento de Interesses dos Estados Unidos, alegando "outros compromissos". Participou da recepção o arcebispo de Nova Iorque, Demétrius, que recebeu carta do líder opositor Osvaldo Payá, do Movimento Cristão Libertação e coordenador nacional do Projeto Varela.

Na carta, Payá assinala que o grupo opositor busca realizar um projeto próprio e cubano de justiça e democracia, ao mesmo tempo em que lamenta a existência de centenas de homens e mulheres prisioneiros no país "por proclamarem a verdade, por alentarem a reconciliação e por defenderem" os direitos humanos.

A carta também assinala que aqueles que desejam ser solidários com o povo cubano devem apoiar "as mudanças pacíficas para a democracia no país" e reclamar "a libertação dos presos políticos".

De acordo com testemunhas presenciais, o arcebispo Demétrius recebeu uma cópia da carta, mas declinou comentá-la.

Em declarações no domingo, 25 de janeiro, Bartolomeu I falou a favor da liberdade religiosa, a qual qualificou de "direito humano básico". Um anúncio sem maiores conseqüências num país cujo governo, nos últimos seis ou sete anos, deu passos importantes para corrigir a situação anterior em que existiam mecanismos jurídicos e políticos que impediam o pleno desfrute desse direito.

Em todo o caso, a consagração de um templo ortodoxo em Cuba mostra a um setor do cristianismo que o governo de Havana persiste em sua declarada política de abertura e pluralismo frente ao fenômeno religioso, uma vez que abre uma janela de oportunidades para ações desse governo no campo dos direitos humanos.

A esse respeito, um especialista em religião e secretário da Comissão para a História da Igreja na América Latina (CEHILA) de Cuba, Enrique López Oliva, pensa que não seria estranho se, passado um tempo prudente da visita do Patriarca Bartolomeu I, o governo cubano liberar alguns dissidentes, especialmente os que sofrem alguma doença física e fazem parte de um grupo de 75 que foram julgados e condenados a longas penas de prisão em abril de 2002.

Em 1998, por causa da visita de João Paulo II à ilha, o governo liberou 101 presos políticos. Semelhante gesto de boa vontade reforçaria a imagem de tolerância do regime e poderia granjear alguns votos favoráveis na próxima reunião em Genebra da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, entre eles o do México, que nas sessões mais recentes da Comissão e afastando-se de sua política tradicional, votou a favor da resolução de condenação contra Cuba.

Obviamente, o impacto mais profundo e duradouro da visita demorará em se manifestar. "A visita nos pegou de surpresa e temos de reconhecer que, inclusive os cristãos, conhecíamos muito pouco da tradição ortodoxa", disse o reverendo Carlos Camps, secretário geral da Igreja Presbiteriana de Cuba e um dos líderes eclesiásticos que participou em várias atividades da visita do Patriarca.

Camps destacou que a presença do Patriarca Ecumênico despertou o interesse na população em conhecer mais acerca do cristianismo e de sua história. "Mas creio que o benefício mais importante de sua visita e da presença em Cuba de uma igreja com uma liturgia e uma teologia que enfatizam a terceira pessoa da Trindade será um novo e fecundo aporte para a espiritualidade nacional", concluiu.