![Edson Ponick, presidente da CELADEC [Foto: Rui Bender]](/picture/Edson.jpg)
Educar para o ecumenismo
Entrevista: Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Janeiro 25, 2004
A Comissão Evangélica Latino-Americana de Educação Cristã (CELADEC) completou 40 anos em 2003 fortalecida e Taxi Heathrow Airport revigorada na sua tarefa de educar para o ecumenismo. Ela definiu, na assembléia que realizou em outubro do ano passado, em Porto Alegre, três programas prioritários: capacitação, comunicação, intercâmbio e pesquisa.
Eleito presidente na assembléia de outubro, o catequista brasileiro Edson Ponick enfatizou, em entrevista concedida à ALC, que é no campo da educação que CELADEC pode contribuir com o movimento ecumênico “e é isso que pretendemos fazer”.
CELADEC, definiu, quer capacitar formadores de agentes de transformação da sociedade - homens, mulheres, jovens e crianças assumindo seu papel protagonista na construção de um mundo onde a fraternidade, o respeito e a valorização do outro perpassem todas as relações.
Um dos objetivos do organismo, disse, é contribuir para a construção de uma sociedade ecumênica, justa, democrática e solidária, com a atenção voltada para as realidades dos setores populares da América-Latina e Caribe. “Neste sentido, queremos auxiliar na gestação, eu diria, de maiores e melhores condições de vida para homens e mulheres de hoje e de amanhã”.
Leia, abaixo, a entrevista com o presidente de CELADEC.
ALC -Como é que o recém eleito presidente avalia a CELADEC?
Edson Ponick - CELADEC ainda sente a transformação estrutural, aprovada na Assembléia de 1998, em Assunção. Estávamos divididos em cinco regiões - América Central e México; Caribe e Venezuela; Região Andina; Brasil; Cone-Sul -, e em cada região havia um coordenador ou coordenadora responsável pela articulação e promoção das atividades. Por questões basicamente financeiras essa estrutura foi desmontada. A conseqüência foi uma desarticulação local e continental.
Houve, no entanto, uma re-articulação, eu diria, em função da Assembléia Geral em Porto Alegre (em outubro de 2003). Com o apoio do Centro Regional de Assessoria e Serviço (CREAS) e a participação de outros assessores convidados por CELADEC, foram promovidas consultas locais com o objetivo de avaliar a caminhada do organismo e projetar novos caminhos. Mais de 200 pessoas participaram das consultas em 12 países. O resultado foi a produção de um documento de trabalho, que serviu como base de estudos na Assembléia e orientará também as decisões do Conselho Diretivo eleito.
Avalio a mobilização em torno das consultas como um aspecto muito positivo. Também foi animadora a inclusão de 11 novas instituições no quadro de membros de CELADEC.
ALC - Quais são os grandes desafios de CELADEC para os próximos quatro anos?
Edson Ponick - A experiência das pré-consultas mostrou que a articulação e a mobilização das pessoas e instituições ligadas à CELADEC é viável também na atual estrutura. Basta que se tenha objetivos claros e desafios a serem alcançados.
Creio que um dos grandes desafios é criar uma estratégia de ação envolvente que motive a participação das instituições filiadas e que dê visibilidade à CELADEC no campo ecumênico educacional. Precisamos pôr em prática os três programas definidos na Assembléia: Capacitação, Comunicação, e Intercâmbio e Pesquisa, desenvolvendo-os a partir do tema central para os próximos quatro anos: Educação para o Ecumenismo e a inter-religiosidade.
Educar para o ecumenismo – no seu sentido mais amplo – a partir da fé cristã é a nossa vocação. É no campo da educação que CELADEC pode contribuir com o movimento ecumênico e é o que pretendemos fazer.
Edson Ponick - Já temos nossa página na internet – www.celadec.com.ar – e pretendemos dinamizá-la cada vez mais. Também estamos em contato com editoras que distribuem materiais para toda a América Latina e Caribe. Queremos produzir e publicar subsídios para educadores e educadoras, e fazer com que esses materiais cheguem o mais rápido possível em todos os países.
CELADEC também tem uma parceria com o Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI). É a Red Latinoamericana de Liturgia, uma rede de liturgia e recursos para a educação cristã.
Como se diz no Brasil, precisamos crescer e aparecer, não necessariamente nessa ordem. Crescer e aparecer não no sentido ambicioso e exibicionista, mas no sentido de ser cada vez mais um organismo que auxilia igrejas e instituições a promoverem e vivenciarem a prática ecumênica.
ALC – Como CELADEC entende a capacitação?
Edson Ponick - CELADEC quer capacitar formadores e formadoras de agentes de transformação da sociedade: homens, mulheres, jovens e crianças assumindo seu papel protagonista na construção de um mundo onde a fraternidade, o respeito e a valorização do outro perpassem todas as relações.
A capacitação passa pela promoção e organização de cursos, encontros e consultas em nível local, regional e continental. Claro que a capacitação não está desvinculada dos outros dois programas. Ela também passa pela pesquisa e pela elaboração e publicação de subsídios impressos ou divulgados no nosso site.
É importante destacar que essa capacitação acontece num diálogo constante da teoria com a prática educativa, relacionando ação-reflexão-ação. Nossa capacitação parte da prática educativa e deve retornar para ela. Nesse processo, avaliamos, revisamos e reformulamos conceitos e metodologias a partir de contribuições teóricas e do intercâmbio entre educadores e educadoras. Nesse sentido, é também uma capacitação que visa o aprendizado coletivo através da troca de experiências e conhecimentos.
ALC – Onde CELADEC faz pesquisa?
Edson Ponick - A pesquisa, enquanto programa, é um desafio recente. Não que estejamos iniciando agora com pesquisa, mas a elaboração de uma estratégia de pesquisa é nova.
Há vários pesquisadores latino-americanos, ligados à educação cristã e educação popular, que estão envolvidos e identificados com CELADEC: Matthias Preiswerk (Bolívia), Danilo Streck (Brasil), Carlos Nuñes (México) são alguns exemplos.
Temos entidades de nível superior inscritas como membros de CELADEC: Escola Superior de Teologia, no Brasil, e a Comunidade Teológica do México, por exemplo. Ao lado das instituições de nível superior, aparecem também – e com a mesma importância – as ONGs e outras entidades onde atuam os campos de trabalho, onde atuam educadores e educadoras identificados com CELADEC. Também ali queremos intensificar nossa pesquisa.
ALC – Como se dá o vínculo da educação popular com a educação cristã? O que as diferencia?
Edson Ponick - Creio que o principal vínculo é a esperança por um mundo melhor. E essa esperança se concretiza através da participação ativa de todas as pessoas na construção de uma sociedade justa, que vive em paz e que respeita a diversidade religiosa, cultural e étnica.
A educação cristã, baseada no Evangelho, enquanto Boa Nova de libertação e salvação, é educação popular. Por outro lado, toda a educação popular que busca a dignidade humana e o envolvimento protagonista dos sujeitos parte de um princípio comum à fé cristã.
O que as diferencia é o seu contexto, embora até aqui haja muitos lugares comuns. De qualquer forma, a educação popular está mais voltada para as questões sociais através do envolvimento com associações de moradores, sindicatos, ONGs, movimentos populares, independente da denominação religiosa a que pertencem os sujeitos. A educação cristã, por sua vez, tem como abrangência prioritariamente o espaço eclesiástico, embora não deva ficar encerrado aí.
ALC – Tem igrejas do meio evangélico que não aceitam essa vinculação da educação popular com a educação cristã. Como CELADEC pretende trabalhar isso?
Edson Ponick - CELADEC convive com a educação popular há várias décadas. As instituições filiadas e as pessoas identificadas com CELADEC sabem dessa vinculação e apóiam essa parceria.
Creio que é importante manter o diálogo aberto e franco entre pessoas e instituições envolvidas, respeitar e valorizar as opiniões diferentes – e até divergentes – e procurar solucionar conflitos em prol de objetivos maiores assumidos coletivamente.
ALC – Assim como a teologia, a educação também é feita a partir dos pobres? Como isso acontece?
Edson Ponick - Um dos objetivos de CELADEC é contribuir para a construção de uma sociedade ecumênica, justa, democrática e solidária, com a atenção voltada para as realidades dos setores populares da América-Latina e Caribe.
Neste sentido, queremos auxiliar na gestação, eu diria, de maiores e melhores condições de vida para homens e mulheres de hoje e de amanhã. E queremos fazer isso da forma mais coletiva e participativa possível. Isso implica avaliar constantemente a coerência entre o conteúdo e a prática educativa, respeitando os processos locais, sem perder o nosso horizonte.
ALC – Onde excluídos abrem novos caminhos no campo da educação?
Edson Ponick - Lá onde são propiciadas condições para que descubram ou fortaleçam seu papel como agentes de transformação, de seres humanos dignos, capazes de, unidos, mudar a realidade na qual vivem. Pode ser um sonho, mas nós não vivemos sem ele.
Conheço muitas educadoras e educadores – e falo também por experiência própria – que destacam o quanto aprenderam no convívio com as pessoas. No Brasil, há uma canção popular que diz quanto mais a gente ensina, mais aprende o que ensinou. Esse aprendizado não se dá individualmente. Ele acontece na interação entre as pessoas, que ensinam e aprendem o tempo todo.
Só podemos ensinar os excluídos e abrir novos caminhos caminhando com eles e elas. Portanto, temos que aprender com eles e elas como e o que ensinar-lhes e ensinar para eles e elas o que e como aprendemos. O caminho de Emaús, em Lucas 24, é um bom exemplo de uma caminhada educativa que leva para a descoberta da ressurreição e da libertação.
ALC – A educação popular entra em confronto com a educação formal?
Edson Ponick - Se a educação popular nasceu, é porque a educação formal não estava suprindo todas as necessidades educativas, nem ocupando todos os espaços que deveria ocupar.
Acho que não se deve pensar em confronto e sim em tensões que geram movimento. A educação popular tem muito a aprender da educação formal; quando falamos em pesquisa, por exemplo, estamos pensando em envolver, como já disse antes, também as instituições de ensino superior.
Por outro lado, a educação formal pode aprender que educar tem a ver com a vida cotidiana e a construção de cidadania e, nesse sentido, a educação popular pode contribuir teórica, didática e metodologicamente.
ALC – CELADEC é uma organização evangélica, mas volta-se ao ecumenismo. Como ela se articula nesses ambientes?
Edson Ponick - Evangelicamente, eu diria. O termo evangélico, aqui, deve ser entendido no sentido mais amplo da palavra. CELADEC surgiu no contexto dos primeiros esforços de unidade fraternal e missionária de algumas denominações evangélicas.
Esse espírito de unidade e fraternidade perpassou todos esses 40 anos. Talvez tenha até se ampliado. Hoje, assumimo-nos como um organismo de inspiração cristã que busca gerar e fortalecer práticas educativas ecumênicas, ligadas a processos eclesiais e sociais baseados nos princípios e valores de inter-religiosidade e interculturalidade e libertação integral. Ou seja, mantemos nossa identidade cristã e, a partir dela, motivamos e convidamos para o diálogo entre todas as culturas e religiões.
ALC – Quais são, ou foram, nesses 40 anos, os grandes feitos de CELADEC no campo da educação?
Edson Ponick - Na Assembléia, em Porto Alegre, no mês de outubro de 2003, reunimos diferentes materiais publicados por CELADEC durante essas quatro décadas. Foram muitas publicações, desde cadernos temáticos, cadernos de estudo, cadernos de capacitação, revistas de educação, estudos bíblicos – vale destacar o Curso Nova Vida em Cristo, que propunha confrontar a mensagem bíblica com a realidade social.
Também foi um grande feito abrir-se para a educação popular nos anos 70. CELADEC mostrou que estava atento às transformações sociais e disposta a ampliar sua vocação ecumênica.
A partir de 1995, promoveu cursos latino-americanos para educadores e educadoras, com o objetivo de formar um quadro de multiplicadores e multiplicadoras regionais de CELADEC. Esses cursos envolveram pessoas de muitos países latino-americanos e caribenhos, promovendo o intercâmbio e fortalecendo teórica e metodologicamente as instituições participantes.
Mais recentemente, estamos traduzindo para o espanhol e publicando uma coleção de 15 Cuadernos bíblicos para niños y niñas. Pretendemos re-editar essa coleção, mas isso é assunto para a primeira reunião do Conselho Diretivo.
ALC – Onde CELADEC está bem presente na América Latina?
Edson Ponick - Diria que estamos presentes em todas as regiões da América Latina e do Caribe, embora com maior ou menor visibilidade em algumas delas, mas não gostaria de destacar uma ou outra região. Vamos, sim, nos empenhar para fortalecer CELADEC em todas as regiões. Esse é um dos desafios das pessoas do novo Conselho Diretivo, que são também articuladoras e motivadoras regionais.
ALC – Quando CELADEC produz materiais, de onde ela capta os recursos para produzi-los?
Edson Ponick - Das agências cooperadoras internacionais. O grande desafio de CELADEC, no momento, é a circulação dos materiais produzidos. Nesse sentido, estamos estabelecendo contatos com editoras que distribuem material por toda a América Latina e Caribe. Pensamos que tais parcerias aumentarão em muito a circulação do material e servirão também para criarmos um fundo de publicação que, na medida do possível, se auto-sustente.
ALC – Que igrejas absorvem o material produzido por CELADEC?
Edson Ponick - Tanto o material produzido quanto os cursos e congressos promovidos por CELADEC são um auxílio para todas as instituições e igrejas filiadas. Destacaria alguns países que absorveram mais os Cuadernos bíblicos para niños y niñas que foram distribuídos no México, Cuba e Equador.
ALC – CELADEC tira seus materiais em espanhol e português?
Edson Ponick - Nem todos. A coleção Cuadernos bíblicos para niños y niñas, por exemplo, foi traduzida e adaptada de um material da Igreja Metodista brasileira já existente. Por enquanto, os cadernos de estudo, que já estão no número 37, estão publicados só em espanhol. Apenas dois cadernos de capacitação também foram publicados em português. Mas esse também é um desafio do novo Conselho Diretivo: publicar o maior número possível de material nos dois idiomas.
ALC – Como CELADEC define o que publica ou não?
Edson Ponick - Definimos nossas publicações a partir das necessidades, mas também das ofertas e possibilidades. Os cadernos de estudo, por exemplo, serviram, nos últimos anos, para publicar o conteúdo e a metodologia de cada curso latino-americano continental e regional.
O que queremos é oferecer subsídios teóricos e metodológicos para educadores e educadoras nos diferentes contextos. Também pretendemos solidificar o intercâmbio de materiais produzidos nos diferentes países. Esse é mais um assunto de pauta na nossa primeira reunião, em janeiro.

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