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Sábado, 6 de Novembro de 2004

Hilario Wynarczyk, sociólogo argentino.
Hilario Wynarczyk, sociólogo argentino.

O santo popular

Hilario Wynarczyk, BUENOS AIRES, Argentina, Janeiro 16, 2004

Como acontece todos os anos, no dia 8 de janeiro uma multidão reuniu-se no principal Taxi Heathrow Airport santuário do Gauchito Gil, na cidade de Mercedes, localizada no centro da província de Corrientes. Quando Antonio Jesús Gil morreu degolado, há 130 anos, as autoridades o consideraram um ladrão perigoso.

Para outras pessoas o gaúcho correntino foi, no entanto, um benfeitor dos humildes, pois repartia com eles o que roubava dos latifúndios, das "estâncias". A cultura popular faz seus processos e tem sua própria alquimia. Aquele que no segundo quarto do século XIX foi talvez um bandido rural convive na mente dos peregrinos junto a outras entidades de origem católica.

A oração diz, no almanaque alusivo a Gauchito Antonio Gil: "Humildemente te peço que intercedas diante de Deus para que se cumpra o milagre que tanto necessito. Prometo que cumprirei minha promessa e te ofertarei meu fiel agradecimento, hoje e todos os dias da minha vida".

Outra variante da oração diz "e te prometo que cumprirei minha promessa, e diante de Deus o farei ver, e te ofertarei o meu fiel agradecimento e demonstração de fé em Deus e em você, Gauchito Gil, amém".

O almanaque traz a imagem de um gaúcho de longos cabelos negros ondulados, amarrados com uma tira de cor vermelha, lenço vermelho no pescoço. Na mão direita sustenta uma boleadera, instrumento usado no século XIX para capturar cavalos, vacas, avestruzes e também como arma contra pessoas.

A camisa e a bombacha do Gauchito são celestes, semelhantes ao céu e à bandeira argentina. Como todo gaúcho, veste bombacha e chiripá, um poncho amarrado como um calção em cima da bombacha.

Por detrás e na altura da cabeça abre-se uma cruz enorme, de cor marrom, rodeada por fachos de luz dourada que aparecem como uma aura de espírito e poder. Ao redor aparece um céu com algumas nuvens.

Para muitos católicos ele é uma figura pagã. Mas Gauchito Gil convive com santos num mesmo sistema de crenças populares. Pude comprová-lo pessoalmente. Há duas semanas viajei a Vila da Quebrada, na província de São Luis.

No lugar vivem poucas pessoas. Mas a cada mês de maio, durante cinco dias, o local reúne cerca de 150 mil pessoas, peregrinos que visitam o santuário da Virgem e o Cristo da Quebrada, ao longo de uma pesada espiral na montanha onde reproduzem momentos do martírio de Jesus.

À entrada da Vila também encontrei um santuário do Gauchito Gil com suas bandeiras vermelhas em forma de triângulos. O Gauchito morreu, mas agora é um espírito que, do além sobrenatural, pode interceder diante de Deus e fazer ou propiciar milagres no plano natural.

Ele tem forças como os santos venerados pelo povo. Os crentes fazem uma transação com o Gauchito. Eles pedem milagres e, em troca, oferecem promessas e oferendas, e acendem para ele velas vermelhas. Assim agradecem as curas milagrosas.

As reuniões dos fiéis do Gauchito incluem bailes regados a bebida. A festa crioula não é exclusiva dessa figura considerada por muitos católicos como um intruso pagão, incompatível com a santidade e o poder da santidade.

Nas reuniões da Villa da Quebrada, em maio, os devotos também celebram bailes e consomem bebidas alcoólicas. O fisco da Villa, repleta de postos de venda, contabiliza boas entradas com os peregrinos.

No último dia 8 de janeiro, mais de 100 mil pessoas dirigiram-se a Vila. Dentre as várias ofertas de produtos, havia um calendário do Gauchito, que não comprei na localidade, mas na Praça do Congresso, no centro de Buenos Aires.

Ele estava junto a outros calendários com figuras de santos e virgens, heróis da cultura popular e política, e de um bebê trajando roupas com as cores do Boca Juniors.

Com tanto público, a convocatória anual do Gauchito na cidade de Mercedes compete, sem deixar de ocupar o segundo posto entre as multidões que atrai, junto com a Virgenzinha de Itati, Madre de Corrientes, na outra cidade da mesma província.

Não é mera casualidade a importância do Gauchito nesse ponto da geografia argentina. Corrientes é um lugar de passagem entre Argentina, Brasil e Paraguai. Algo assim como um forte laboratório de tradições ameríndias.

Alguns evangélicos especializados em combater espíritos territoriais costumam tomar como objeto de suas orações de guerra contra espíritos malignos as figuras de San La Muerte e o Pombero, irradiados a partir de Corrientes.

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Hilario Wynarczyk. Sociólogo da religião, membro da Igreja Evangélica do Rio da Prata, Argentina.


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