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Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2004

Angel Furlan, presidente da Igreja Evangélica Luterana Argentina [Foto:ALC]
Angel Furlan, presidente da Igreja Evangélica Luterana Argentina [Foto:ALC]

Líder luterano argentino pede justiça no trato da dívida externa

OSLO, Noruega, Dezembro 18, 2003

Uma postura justa do problema da dívida externa dos países em desenvolvimento deve incluir a Taxi Heathrow Airport investigação de como ela foi contraída e utilizada, definiu o reverendo Angel F. Furlan, presidente da Igreja Evangélica Luterana Unida da Argentina (IELU).

Os modelos que formatam a discussão atual da dívida externa não resolverão o problema fundamental da corrupção global. As práticas ilegítimas continuarão, enquanto elas não forem processadas como fatos ilegais e criminosos, afirmou.

O líder da IELU defendeu essa posição ao participar do II Fórum Social da Noruega, que se realizou em Oslo no final de outubro, reunindo participantes de países em desenvolvimento.

Na qualidade de convidado de "Os Reformadores", uma ramificação da organização Ajuda das Igrejas da Noruega (NCA, a sigla em inglês) que congrega jovens, Furlan comentou a ilegitimidade da dívida externa, citando exemplos do que ocorreu na Argentina.

Furlan é o moderador da Conferência de Bispos e Presidentes das igrejas da América Latina membros da Federação Luterana Mundial (FLM).

Numa perspectiva histórica, indicou, há diferentes maneiras de descrever a ilegitimidade da dívida externa. Trata-se de uma dívida que foi construída sobre a drenagem sistemática dos recursos da região, iniciada há 500 anos, com o "descobrimento" da América pelos europeus.

Nos últimos anos ingressaram nesse cenário as instituições financeiras internacionais. Em 1976, citou, a dívida externa da Argentina era de 8 bilhões de dólares. Até o ano 2000, o país pagou mais de 200 bilhões de dólares a título de serviço da dívida, que hoje ainda é de 160 bilhões de dólares.

Essa é a "mágica matemática financeira" do Fundo Monetário Internacional, apontou. "Nós devíamos um, abonamos serviços por dois, no entanto ainda devemos três. Quanto mais pagamos, mais devemos", ironizou.

A dívida pode ser descrita como genocida, por causa dos seus efeitos negativos sobre a população mais necessitada do país, o que também a torna ilegítima, acrescentou Furlan.

Quanto à dívida contraída durante a ditadura, que é um dos aspectos mais criticados por "Os Reformadores", Furlan explicou que, de acordo com a Constituição argentina, todo empréstimo deve ser aprovado pelo Parlamento.

Como de 1976 a 1983, durante a ditadura militar, não existiu Parlamento, todos os empréstimos contraídos nesse período e os juros deles decorrentes são ilegais e ilegítimos. "Sequer devemos discutir sobre essa dívida, simplesmente ela deve ser apagada", sustentou.

Furlan também apontou, segundo o serviço de imprensa da FLM, a responsabilidade dos credores. "O fato desses créditos terem sido contraídos de forma ilegal demonstra que a corrupção não se limita aos funcionários de governo de nossos países, mas que alcançam as instituições financeiras e os bancos do hemisfério norte", sublinhou.

Essas instituições e bancos foram cúmplices de ditaduras sangrentas e ilegais, junto com os funcionários corruptos dos governos democráticos, assinalou Furlan.

Fazendo alusão ao Fórum Social Mundial de Porto Alegre de 2003, cujo slogan proclama que "Um outro mundo é possível", Furlan comentou que "não será possível construir um mundo diferente se estiver embasado na corrupção e na impunidade. Por isso as igrejas latino-americanas membros da FLM estão interessadas num manejo da dívida que tenha a justiça como objetivo fundamental".

A FLM foi fundada em 1947 e tem 136 igrejas-membros, de 76 países, somando mais de 61,7 milhões de fiéis. Da América Latina, 13 igrejas luteranas são membros da FLM.