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Quinta-feira, 20 de Maio de 2004

Marcos Murillo, líder indígena evangélico de Equador [Foto: CLAI]
Marcos Murillo, líder indígena evangélico de Equador [Foto: CLAI]

Feine chega aos 23 anos como força política reconhecida

Manuel Quintero, QUITO, Ecuador, Dezembro 15, 2003

Num ambiente festivo e de reconhecimento, a Federação Equatoriana de Indígenas Evangélicos (Feine) comemorou o Taxi Heathrow Airport vigésimo terceiro aniversário de fundação, no dia 12 de dezembro. A festa contou com a participação do prefeito da capital, Paco Moncayo, ministros, autoridades do governo e representantes de organismos internacionais.

Nos primeiros dez anos de existência, a Feine, fundada em 1980, preocupou-se principalmente com a realização de programas de educação e saúde, e outros projetos vinculados à problemática do desenvolvimento das comunidades indígenas.

A partir dos anos 90, com a crescente organização e mobilização dos povos e nacionalidades indígenas, a Feine envolve-se na arena política. No plano internacional, ela participa do Comitê da Década dos Povos Indígenas, uma iniciativa da Organização das Nações Unidas.

A presença da Feine na vida política do país acentuou-se no início do novo século, primeiro com a derrota do presidente Jamil Mahuad, em janeiro de 2000, por causa da mobilização popular e do golpe de Estado protagonizado por uma coalizão cívico-militar. Nos dois momentos as organizações indígenas desempenharam papel decisivo.

Em janeiro de 2001, a Feine e outras duas organizações indígenas convocaram e realizaram um grande levante indígena e popular para protestar contra as medidas econômicas do governo de Gustavo Noboa.

O levante durou duas semanas e paralisou a região central do país, alcançou os principais objetivos que reclamava, entre eles o congelamento do preço dos combustíveis e a criação da mesa de diálogo com o governo.

Fruto dessas experiências e de um prolongado debate no seio da Feine, ela criou um movimento político próprio, chamado Amauta Jatari – que significa "o sábio se levanta", em quechua. Amauta Jatari encaminhou seu registro ao Supremo Tribunal Eleitoral em 2002, habilitando-se, portanto, à disputa eleitoral.

O novo movimento político não conseguiu, contudo, o apoio das bases indígenas e o fracasso da experiência reavivou o debate nas comunidades locais e entre a liderança acerca do perfil e papel específico da Feine.

Na opinião do teólogo indígena equatoriano Julián Guamán, que recentemente escreveu livro sobre o tema, um setor significativo dos indígenas evangélicos pensa que a Feine deve ficar restrita ao religioso e eclesial, e deixar os assuntos sociais e políticos para as outras organizações indígenas.

À margem desse debate, é evidente que a Feine alcançou nesses anos o reconhecimento das demais forças políticas e do conjunto da sociedade civil equatoriana. Esse reconhecimento ficou claro neste 12 de dezembro nos discursos de autoridades, como o do ministro do Bem-Estar Social, Carlos Pólit, que destacou a importância da contribuição religiosa para avançar rumo à unidade do país.

O prefeito de Quito entregou condecoração do Conselho Metropolitano da cidade para a Feine, e afirmou que o governo local reconhece e respeita a diversidade. Mencionou que a prefeitura criou um departamento especial para fortalecer a participação das comunidades indígenas no projeto de converter a capital "numa cidade solidária, eqüitativa e produtiva".

O secretário geral do Conselho Latino-Americano de Igrejas (Clai), pastor Israel Batista, ficou encarregado de apresentar a reflexão bíblica nas comemorações dos 23 anos da Feine. Ele destacou que não é possível construir o Equador sem a riqueza das culturas indígenas. Disse que uma das tarefas da Feine, conseqüente com sua vocação pastoral, é a de "lutar pela unidade dos povos e nacionalidades indígenas do país".

"Se a Feine converter-se num partido político a mais, ou numa ONG a mais, deixará de cumprir um papel profético entre seu povo", frisou Batista. Recorrendo à visão do profeta Ezequiel, acrescentou que a Feine tem que colocar carne nos ossos secos de um país, para que proclamem a esperança.

O presidente da Feine, Marco Murillo, lembrou, no discurso que encerrou a solenidade, que os indígenas evangélicos tiveram que enfrentar uma dupla discriminação: de indígenas e de evangélicos, num país onde, até há pouco tempo, desconhecia-se a pluralidade e a diversidade étnica e religiosa.

Referindo-se a problemas de governabilidade e tensões políticas presentes na vida nacional, Murillo disse que são os políticos e não os indígenas os causadores da crise.

O presidente da Feine concluiu o discurso afirmando que os indígenas evangélicos "vão lutar para que o país mude, sem egoísmo nem critérios partidários, mas com um projeto de desenvolvimento sustentável para o bem-estar de todos os equatorianos".