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Quinta-feira, 20 de Maio de 2004

Ataques a templos e símbolos religiosos agravam tensão

Manuel Quintero, CARACAS, Venezuela, Dezembro 13, 2003

 A profanação da imagem de uma virgem e a explosão de petardo em porta de templo católico, ocorridos recentemente, agravaram o já prolongado e inflamado conflito entre a Igreja Católica e o governo venezuelano.

No sábado, 6, uma imagem da Virgem Maria, medindo meio metro de altura, foi decapitada, e outra maior foi pichada com as primeiras letras do nome Chávez com tinta vermelha.

As imagens enfeitavam o altar em meio à Praça França, do bairro Altamira, em Caracas, centro de reunião de militares dissidentes e de grupos da oposição.

Os canais privados de televisão mostraram cenas de dezenas de pessoas com mantas e boinas vermelhas, símbolos do chavismo, tomando as imagens da santa enquanto gritavam palavras de ordem em apoio ao presidente Hugo Chávez.

A profanação provocou a reação do arcebispado venezuelano, que na segunda-feira, 8, emitiu declaração na qual diz que esses fatos, "carentes de toda racionalidade", são "rejeitados, tanto pela ofensa em si às veneradas imagens, como porque expõem de público a decomposição e perda de valores em que vivem os que atuaram dessa forma".

O presidente da Conferência Episcopal da Venezuela, bispo Baltasar Porras, declarou, em entrevista no rádio, que são "atos de vandalismo" e advertiu que "os signos do religioso não podem ser mesclados nem manipulados impunemente para nenhum projeto de tipo político".

O governo respondeu, afirmando o caráter pacífico da manifestação que agrupou centenas de milhares de simpatizantes do chavismo na avenida Bolívar, de Caracas, e culpou pessoas infiltradas pelas agressões às imagens.

O vice-presidente da República, José Vicente Rancel, disse que Porras é um "porta-voz sistemático da oposição mais recalcitrante".

Três dias depois do incidente na Praça França, 11 desconhecidos incendiaram a porta da igreja El Carmen, localizada junto à Praça Miranda, na localidade de los Teques. O fogo espalhou-se até a nave central do templo e consumiu parte do teto.

A expressa oposição da hierarquia católica ao governo Chávez parece favorecer a hipótese de que os autores desses atentados são militantes do chavismo. Mas alguns observadores perguntam-se se os fatos não correspondem a uma estratégia de setores da oposição para exacerbar ainda mais a polarização no seio da sociedade venezuelana, mediante a manipulação da religiosidade do povo.

Essa religiosidade expressa-se de forma majoritária na Igreja Católica, mas também encontra forte componente nas religiões provenientes da cultura indígena e afro-americana.

A religião da batalha ideológica

As pugnas entre Chávez e a Igreja Católica começaram nos primeiros meses do mandato presidencial, em 1999, quando o presidente da República criticou a hierarquia e apoiou padres que trabalhavam nos bairros pobres.

A polêmica agudizou-se depois da presença da igreja nos eventos relacionados com o golpe de 11 de abril de 2002. O hoje desaparecido cardeal Ignacio Velasco assinou, então, o decreto do autoproclamado presidente provisório, o empresário Pedro Carmona, que dissolveu todos os poderes públicos. Depois, numa de suas últimas entrevistas, o cardeal argumentou que não sabia o que assinara, porque assinara um papel em branco.

De outro lado, o presidente da Conferência Episcopal da Venezuela (CEV), dom Baltazar Porras, acusou reiteradamente Chávez de invocar o nome do povo para imbuir-se de maior poder político, de ter relegado e esquecido os agudos problemas da pobreza e do desemprego, e de levar o governo a avançar para um "regime monocolorido e totalitário".

O presidente Hugo Chávez, em cujo matizado ideário convive o pensamento de Bolívar lado a lado com elementos da Teologia da Libertação e do marxismo, não demorou em atacar os prelados católicos, que ele chegou a chamar, no programa de televisão "Alô, presidente", de "tumor".

Segundo Chávez, o cardeal Velasco e outros bispos estreitam relações com a elite que governava o país no passado e descuidam dos pobres da Venezuela. "Acostumaram-se a viver em palácios e se esqueceram do povo... Quem viu esses bispos que nos criticam irem aos bairros pobres? Não andam pelo caminho de Deus, não andam pelo caminho de Cristo", disse.

Embora existam suspeitas e hipóteses contrapostas sobre a paternidade dos mais recentes atentados contra o catolicismo, o que poucos duvidam é que o fator religioso continuará sendo um dos ingredientes essenciais na batalha ideológica que confrontam governo e oposição na Venezuela. Uma batalha que, depois dos abaixo-assinados de novembro, parece entrar numa etapa decisiva.