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Terça-feira, 30 de Dezembro de 2003

Equecco, um papai Noel andino que percorre o altiplano

Hugo Lévano, LIMA, Perú, Dezembro 10, 2003

No comercializado mundo global papai Noel conseguiu desbancar até mesmo o mítico Santa Claus e Taxi Heathrow Airport o verdadeiro motivo da festividade natalina, Jesus Cristo. No Peru, um papai Noel autóctone, conhecido como equecco, percorre o altiplano andino há séculos.

É importante lembrar que os povos andinos não tinham porque recorrer a lendas do bom velhinho com traje vermelho, abrigo de pele, trenó e alces, objetos estranhos à cultura andina.

Na realidade, na mitologia andina existe um personagem tão ou mais antigo que Santa Claus, que os escandinavos inseriram nas celebrações de Natal nos primeiros séculos do cristianismo, junto com o pinheiro iluminado.

O equecco é um bonequinho, de não mais de dez ou quinze centímetros de altura, que leva ao ombro pequenas bolsas repletas de presentes, porém, a diferença do papai Noel, não se trata de brinquedos e artigos vistosos e supérfluos, mas de coisas úteis às pessoas.

Nas bolsas do equecco há sempre coisas práticas: carros, casas, alimentos variados, relógios, ferramentas, eletrodomésticos e licores. Todos, é claro, em miniatura, porém elaborados com a meticulosidade e o engenho com que no passado os antigos peruanos levantaram seus templos e fortalezas.

O eqecco é um produto peruano que começou a circular faz séculos no altiplano conhecido Collao, uma meseta de grande altitude, a mais de 3 mil metros acima do nível do mar, que se estende pelo sul andino do Peru e parte da Bolívia, povoado por gente de fala aymara.

A ciência não sabe ao certo como surgiu o equecco. Algumas lendas dizem que houve época em que aconteceu uma grande seca no altiplano. Foi então que apareceu o homenzinho. Ele andava entre o vento, tocando sua flauta de cana. Os que o ouviam recebiam de presente os objetos que trazia nas lotadas alforjes.

Outros dizem que ele teve origem nos comerciantes picaretas, no período colonial. Esses comerciantes ambulantes, mestiços locais ou espanhóis empobrecidos, percorriam aldeias andinas levando artigos que para os índios eram símbolo de modernidade: relógios, panelas, talheres.

Seja como for, o equecco leva em suas bolsas uma infinidade de objetos, todos pequenos, que são chamados de "alesitas", que são oferecidos em feiras de agricultores. "Alesita" é uma voz aymara que significa "leva-me" ou "compra-me".

Mas nos primeiros tempos, nem os equeccos nem as alesitas eram compradas. Para que surtissem os efeitos de prosperidade que lhes eram atribuídos tinham que ser presenteados.

Historiadores dizem que os antigos peruanos confeccionavam equeccos e alesitas de ouro e prata. Mas agora é comum fabricá-los em argila, osso ou outros materiais de baixo custo. O traje que vestem é comum dos indígenas, embora às vezes se mostre esfarrapado. Usam "ojotas", sandálias de couro comum nos Andes, mas alguns vestem botas.

O equecco, assim como o verdadeiro "dono" do Natal – o menino Jesus -, é símbolo de amor e generosidade. Inclusive de fecundidade, que, de certo modo, é também símbolo de opulência para o povo andino.