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Terça-feira, 30 de Dezembro de 2003

Sonhar é um ato subversivo, destaca pastor luterano

SAN SALVADOR, El Salvador, Dezembro 5, 2003

Desafiados por um mundo que busca a uniformidade, os jovens têm o direito de não Taxi Heathrow Airport se deixar enganar e defender o direito de sonhar, sustentou o teólogo luterano Roberto Pineda em conferência apresentada no fórum sobre "O papel dos jovens nas transformações sociais".

O fórum foi organizado pelo Movimento Social de Integração Centro-Americana (Mosica) e reuniu-se, no dia 28 de novembro, na Universidade de El Salvador. A conferência de Pineda levou o título de "A vontade de sonhar do jovem José".

Reportando-se à história bíblica de José, Pineda disse que o hebreu foi um jovem que se atreveu a sonhar, a ser diferente naquela época. Ele teve a ousadia de imaginar que outro mundo era possível.

Por esse motivo seus irmãos o rejeitaram e o odiaram, decidindo sua morte. Eles internalizaram o ódio e o temor dos poderosos quanto às mudanças, as transformações. O espírito de Caim, que é o espírito da opressão, apoderou-se dos seus corações e mentes. Os irmãos viam em José um perigo para os seus interesses, apontou.

Em todas as épocas e nações os poderosos assassinaram jovens sonhadores. "No nosso país, os poderosos mataram e continuam matando os que sonham e lutam, os sonhadores, porque continua sendo subversivo sonhar. Os poderosos deste país assassinaram monsenhor Oscar Romero, nos anos 80, porque ele se atreveu a sonhar um país onde se respeitassem os direitos humanos e se vivesse como irmãos", afirmou.

Os poderosos fuzilaram Farabundo Martí, em 1932, porque ele atreveu-se a desafiar o poder dos latifundiários, e organizou os camponeses e os trabalhadores para a tomada do poder.

Mesmo assassinados, Romero e Farabundo são bandeiras de luta e ambos vivem na memória do povo, porque não se pode matar o seu espírito de luta. A morte, o ódio, a inveja jamais conseguiram deter sonhos. Os poderosos, os impérios, os exploradores podem interrompê-los ou atrasá-los, mas nunca detê-los, "porque os sonhos voam como os pássaros ou as nuvens no horizonte da história".

Milhares de jovens continuam sonhando, como José. A vida precisa dos sonhos para respirar, e da luta para caminhar pelas estrelas da terra, acrescentou.

Durante a ditadura militar, nos anos 70 do século passado, "quando eu era jovem como vocês, sonhávamos com uma sociedade diferente, na qual os quartéis não definiriam a vida, e que não tivéssemos que nos humilhar diante de nenhum uniformizado. Isso era um sonho, que atingimos, alcançamos a vitória, derrotamos a ditadura militar", frisou o conferencista.

Durante a guerra, prosseguiu, "sonhávamos em conquistar uma paz com justiça social, em construir uma sociedade democrática na qual não seriam castigados os que sonham, os que pensam diferente. Uma sociedade baseada na tolerância, na qual se respeitam os direitos humanos. Em grande parte não a alcançamos. Nossa sociedade mudou e precisa mudar mais", admitiu.

Hoje, é preciso mudar a economia. "Vivemos num mundo globalizado, com telefones celulares, computadores e Internet. Hoje, uma superpotência atua como um império. E nos obriga, como colônias, a defender seus interesses. Por isso é que temos tropas no Iraque. Jovens soldados salvadorenhos estão no Iraque para defender os recursos petrolíferos do império", acusou.

Obrigam os jovens salvadorenhos a buscar emprego em Los Angeles, Washington, Chicago. "Isso faz com que a luta seja em nível mundial. E, por isso, a cada reunião dos poderosos, dos banqueiros, dos donos das corporações, das agências financeiras, do Banco Mundial e da Organização Mundial do Comércio encontram a rejeição dos povos, principalmente dos jovens, em Seattle e em Barcelona, em Cancún e em Miami", frisou.

Vocês, disse, dirigindo-se aos jovens, enfrentam o desafio de não se deixarem manipular pela tecnologia e entender que ela pode ser utilizada para oprimir, mas também para libertar. "Enfrentem o desafio de não se deixar enganar pelas toneladas de mentiras e deformações surgidas das cadeias de notícia, de não se deixar influenciar pelo discurso que legitima os atos do império e impõem uma só forma de ver o mundo, de comer, de vestir, de dançar, de pensar e até de viver", admoestou.

E arrematou: "Temos o desafio de sermos diferentes num mundo que estabelece a uniformidade. De sermos solidários num mundo que nos empurra ao individualismo. De lutarmos por justiça num mundo que nos quer de joelhos. De sonharmos mundos novos. E de lutarmos, de vivermos e morrermos lutando, a única maneira de morrer com dignidade", proclamou.

Esse é o espírito de José, de Jesus de Nazaré. É o espírito que não pode ser destruído. "É o Espírito de Deus, que nos permite sonhar sempre, nunca claudicar, sempre esperar um novo amanhecer e o nascimento de uma nova flor, de novos céus e novas terras", concluiu Pineda.