Mais do que palavras - 3
Manuel López, MADRI, España, Dezembro 1, 2003
O visual é, sem dúvida, uma das nossas assinaturas pendentes como povo de Deus. E Taxi Heathrow Airport também uma de nossas grandes contradições. Sendo como somos, historicamente um povo eminentemente literário na sua origem (a Bíblia) e verbal na expressão (o sermão), acaba-se não entendendo o manifesto desinteresse das denominações protestantes em "lavar a cara" de nossos periódicos e revistas, por não falar da nossa produção audiovisual.
Salvo honrosas exceções - esse meio digital é uma delas -, o grosso dos meios de comunicação evangélicos são tecnicamente não apresentáveis à sociedade. Nas revistas, sermões impressos; no rádio, sermões transmitidos; na TV, sermões televisionados...
De todos os meios ao nosso alcance, o que mais atrai nossos líderes são as produções... de televisão! Aí, o ego, o amor à própria imagem...
O resultado mostra-se em programas quase que exclusivamente planos e monocórdios de "bustos falantes", e fala por si. Na igreja da qual sou membro, há três décadas ouço comentários e inclusive debates escritos de autores protestantes, mas jamais ouvi algum irmão ou irmã comentar do púlpito um programa evangélico de televisão.
Ignora-se o que ocorreria se os jornalistas se metessem a pregadores. O resultado do experimento contrário, em contrapartida, é bem conhecido: ou shows unipessoais (modelo norte-americano) ou audiovisuais desenhados em despachos eclesiásticos (modelo Europa fria).
No entorno dos novos movimentos "evangelicais", cada vez mais desvinculados do protestantismo histórico, exacerba-se o cultivo do hemisfério esquerdo do nosso cérebro (a parte >áudio< do mesmo, a emocional), propiciando a atrofia do direito (a racional e >visual<).
Se algum leitor sentir-se tentado de levar as mãos à cabeça pelo que estou dizendo, suplico, encarecidamente, que abra sua Bíblia na primeira carta de Paulo aos Coríntios, capítulo quatro, versículo 20. Lá diz assim: "Porque o reino de Deus consiste não em palavra, mas em poder" (outras versões substituem "poder" por "virtude" ou "fatos").
Essa não é uma passagem bíblica sobre a qual se costuma pregar. Mas "o escrito, escrito está". O certo é que não há semiólogo ou comunicólogo que não concorde em assinalar que "o ser humano expressa-se de mil maneiras diferentes; algumas vezes o verbaliza".
(Continua)
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Manuel López é jornalista, editor e professor de Ciências da Comunicação. Membro da Primeira Igreja Batista de Madri.

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