
O perigo indígena
Carlos Ramos, QUITO, Ecuador, Novembro 26, 2003
O escritor peruano Mario Vargas Llosa formulou declarações inquietantes na Cidade de Bogotá. Disse que Taxi Heathrow Airport os coletivismos são uma ameaça ao sistema democrático, colocando nessa classificação o indigenismo do Equador, Peru, Bolívia.
Llosa põe na mesma categoria o socialismo, o nazismo, o fascismo e o movimento indígena, que, a juízo do escritor, apela a baixos instintos de desconfiança para com o outro, ao que é distinto e se encerra em si mesmo.
É verdade que resulta perigosa uma visão etnocêntrica. Na sociedade equatoriana temos testemunhado, neste último ano, manifestações que vão nessa linha. Enquanto durou o co-governo de Pachakutik com o coronel Gutiérrez e ocorreram vários tropeços, o próprio presidente acusou os líderes mestiços desse movimento de provocaram enfrentamentos no interior do regime; foram apresentados como os maus do filme dirigentes como Hernández, Buendía e Pozo, com o que se alimentava uma visão indigenista em Pachakutik que exclui as demais pessoas.
O etnocentrismo de Pachakutik apareceu quando se tratou de renovar seus quadros diretivos, há apenas dois meses. Todos sabemos que Pachakutik é o braço político da CONAIE e que essa agrupa povos e nacionalidades indígenas das três regiões geográficas do Equador continental. O movimento não é exclusivamente indígena, uma vez que nele militam destacados intelectuais, profissionais, trabalhadores e jovens mestiços.
O Congresso reunido em Riobamba elegeu seus quadros diretivos e nessa equipe se reafirmou o etnocentrismo, ao excluir das funções mais importantes quem não era indígena, e colocar na máxima dignidade de coordenador nacional um porta-bandeira do indigenismo - o ex-deputado Gilberto Talahua, indígena da província de Bolívar.
Em torno do mesmo Pachakutik, outro fato que o Congresso de Riobamba resolveu foi seguir como movimento e não constituir-se num partido político. É evidente que existiam em seu interior as duas tendências, mas prevaleceu a do movimento.
Por quê? Uma explicação lógica é de que os indígenas resistem a ser partido porque sabem que isso exige deles, por disposição legal, ter uma clara, definida e diferenciada Declaração de Princípios, também um estatuto, no qual devem estabelecer sistemas democráticos de eleição de seus diretores e de candidatos a postos eletivos. Diante dessas exigências do sistema partidário, os indígenas argumentam que não têm quadros índios suficientes, ao mesmo tempo em que não querem deixar as lideranças em mãos de mestiços.
Outras organizações indígenas, como a FEINE e a FENOCIN, sofrem de etnocentrismo similar, com alguns ligeiros matizes que os diferenciam.
Certo, uma visão que exclui o "outro" é perigosa para a convivência humana e para um sistema democrático, e desses perigos devemos estar alertas e em alerta. A verdade histórica é que os indígenas andinos não existiram na nossa sociedade por mais de quatro séculos.
Usurpadas suas terras, abatidos os seus direitos, massacrados, abusados e violados, só serviram para ser a nova criadagem de brancos e mestiços. Acuados nos inóspitos andinos e esquecidos nas amazônicas selvas eles não existiam como sujeitos da política na nossa democracia.
Somente a partir das duas últimas décadas do século XX é que aparece no imaginário político de nossas nações o movimento indígena. São as novas gerações de índios nascidos livres, depois que os processos de Reforma Agrária no continente libertaram da servidão da fazenda milhares e milhares deles. Então colocaram-se de pé e começaram a caminhar desfrutando o marginal da nossa democracia.
Uma das virtudes da democracia, imperfeita mesmo assim perfectível, é que tem a pluralidade como um de seus componentes básicos, por isso suas regras de jogo possibilitam a participação das minorias e a imposição das maiorias.
Amparados pelo sistema democrático surgiram, com força nos últimos anos, líderes indígenas que foram ganhando espaços políticos legitimamente, o que lhes permitiu galgar o Parlamento, prefeituras e ministérios. No exercício do poder eles mostram sua capacidade e desnudam suas limitações e defeitos.
Qual seria, segundo Vargas Llosa, a solução ao tema indígena? Isolá-los nos altiplanos? Negar-lhes o voto e todo direito político? Construir uma sociedade só para eles, ao estilo da velha África do Sul? Eles têm direito de participar da vida política do seu país? É evidente que sim.
Corresponde à sociedade em geral dar oportunidade de integração e participação aos indígenas; aos partidos e movimentos políticos cabe representar seus interesses e promover seus líderes.
Já o movimento indígena deve assimilar a história: os coletivismos que menciona Vargas Llosa passaram a ser autoritarismos tão nefastos que engendraram em si mesmos o elemento de sua própria ruína. Portanto, não cabe que em suas fileiras se cultive um etnocentrismo que tem lampejos de racismo já superado em outras latitudes.

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