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Terça-feira, 30 de Dezembro de 2003

Posição de bispo gera contestações

BRASÍLIA, Brasil, Novembro 19, 2003

O monge católico Marcelo Barros e o professor da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo, Rudolf von Sinner, criticaram os ásperos termos com que o bispo anglicano do Recife, Robinson Cavalcanti, condenou a consagração do cônego Gene Robinson ao bispado da Igreja Episcopal dos Estados Unidos (ECUSA, a sigla em inglês).

Barros é teólogo e integrante da Comissão Teológica da Associação de Teólogos do Terceiro Mundo (ASETT). Ele qualificou o artigo e a atitude de Cavalcanti de antievangélica e antianglicana, num momento em que todos devem unir-se em favor da paz e da justiça no mundo.

Sinner é professor de Teologia Sistemática, Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso. Ele se declarou profundamente preocupado, como ser humano, pastor e teólogo, com o "tom agressivo" que Cavalcanti usou "em relação às pessoas homossexuais, que considero uma ofensa não apenas a elas, mas a todos os seres humanos criados, como elas, à imagem e semelhança de Deus".

O artigo de Cavalcanti censura a consagração de Gene Robinson com bispo coadjutor da Diocese de New Hampshire, da ECUSA. O bispo anglicano do Recife entende que essa consagração é uma mostra da arrogância da ECUSA e qualificou-a de "vergonha para todas as religiões, uma expressão de pecado, uma perversa abominação".

Barros não concorda em classificar de arrogante a atitude da ECUSA por não ter consultado outras regiões eclesiásticas no caso da consagração de um bispo homossexual, mas, admite, ela cometeu um erro metodológico.

"Minha experiência de tentar ser fiel à profecia de Jesus e aos apelos do Espírito é que nem sempre os profetas podem depender da maioria. Quando a consulta pode ser realizada em clima de diálogo e busca do que o Espírito quer de nós, ela é positiva e importante. Mas, muitas vezes, esbarra na burocracia eclesiástica e na arrogância dos dogmatismos. Neste caso, a democracia formal devora a profecia. O profeta e profetiza têm de ser ousados e não consultar", assinala Barros.

Ele indaga qual é a teologia de Cavalcanti, que não respeita a autonomia de uma igreja local nem as diferenças entre as regiões e entre as comunidades. "Acho lamentável misturar a crítica à arrogância norte-americana que existe mesmo em outros níveis com esse assunto eclesial", aponta.

Sinner anota que a consagração do bispo Robinson é um assunto da ECUSA e da Comunhão Anglicana. Acrescenta que Cavalcanti parece querer elevar o tema da homossexualidade de tal maneira que essa parece tornar-se mais importante para a fé cristã que outros.

Frente a escassez de referenciais bíblicos sobre o tema, "podemos questioná-las se são, realmente, referências à homossexualidade como ela ocorre hoje – e não, muito mais, à pedofilia comum no âmbito helenístico e rejeitada por Paulo".

O conhecimento científico sobre a homossexualidade indica que ela não é adquirida, mas natural a certa percentagem de seres humanos, e até uma tendência pela qual todos passam na infância, lembra Sinner.

"Sabemos que a homossexualidade é uma questão que gera controvérsia em muitos lugares. Porém, mesmo onde não se concorda com a ordenação de homossexuais praticantes, acolhe-se as pessoas com amor da irmã e do irmão", destaca.

As palavras do bispo Cavalcanti, conclui, são "exageradas e ofensivas" e merecem, como é justo dever dos cristãos, uma explicação e desculpa.