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Quarta-feira, 19 de Maio de 2004

Depois do "kairós" a igreja emudeceu

Manuel Quintero, CAPE TOWN, Sudáfrica, Novembro 18, 2003

O "kairós", ou "o tempo de Deus", parece coisa do passado. As igrejas sul-africanas, que Taxi Heathrow Airport comoveram o mundo com um documento histórico que ajudou a processar a energia de muita gente em favor da luta pela libertação do país, preferem optar, hoje, pelo silêncio e uma "solidariedade crítica", que coloca em dificuldade sua vocação profética.

Nos dias mais difíceis da luta contra o apartheid, quando a repressão tornou muito difícil o trabalho conspirativo e organizador dos sindicatos, das associações estudantis e dos movimentos de libertação, as igrejas foram uma das poucas organizações democráticas que puderam sobreviver. E esse simples fato converteu-as em espaço de reunião e bastião indiscutível da oposição ao regime.

Nessa época foi criada uma "igreja dentro da igreja", constituída pelos opositores mais radicais contra o apartheid. Esse grupo de bispos e pastores, teólogos e leigos, produziu, em setembro de 1985, o célebre Documento Kairós, que foi um marco na história do cristianismo e do movimento ecumênico sul-africano.

A nomeação do bispo anglicano de Johannesburgo, Desmond Tutu, para presidir a Comissão da Verdade e Reconciliação, organismo que desempenhou um papel de suma importância na transição, é um reflexo do reconhecimento dos movimentos de libertação ao papel significativo que as igrejas desempenharam para a queda do apartheid.

Mas o triunfo dos movimentos de libertação significou que "algumas das figuras mais proeminentes dessa igreja profética estão hoje incorporados no aparato do Estado, em organizações não-governamentais e nos partidos políticos, e assim a igreja perdeu muitos de seus profetas", relata o diretor do Instituto pela Justiça e Reconciliação, Charles Villa-Vicencio.

Hoje, a igreja está dividida em três grupos: os que trabalham estreitamente com e dentro do governo, uma pequena minoria que é crítica de algumas políticas oficiais, e uma grande massa que ainda busca a maneira de comprometer-se nesse processo, afirma Villa-Vicencio.

Em todo caso, a atitude predominante parece ser de neutralidade, quando não de estreita cumplicidade com os governantes do país, como se evidencia no caso do Zimbábwe.

"As igrejas sul-africanas sabem muito bem que as últimas eleições no Zimbábwe foram arranjadas para que Mugabe continuasse no poder, e reconhecem que nesse país há uma ditadura instalada. O Conselho de Igrejas da África do Sul emitiu, recentemente, declaração na qual afirma que as eleições foram justas", relata o padre Joe Modhela, diretor de comunicação do Conselho.

A razão dessa flagrante distorção da verdade? Evitar um conflito com a posição oficial do governo sul-africano, que procurou cobrir com uma cortina de fumaça a realidade no vizinho país.

A relação com o governo ficou definida como de "solidariedade crítica", ou seja, participar no processo de transformação de uma maneira tal que a crítica não faça desaparecer a solidariedade. Nessa dinâmica, alguns princípios têm que ser comprometidos para que dita solidariedade exista, esclarece Modhela.

Na opinião do padre, a dimensão crítica aparece raras vezes, algo que também ocorre com outras forças e personalidades políticas no país.

"É uma atitude baseada no medo de perder a relação com os antigos camaradas de luta contra o apartheid", reconhece o funcionário do Conselho, um organismo que congrega 26 das maiores igrejas cristãs do país, inclusive a Católica Romana, e que constitui a voz mais autorizada do povo cristão sul-africano.

Como outros países sul-africanos, a população da África do Sul é majoritariamente cristã. Cerca de 26 milhões dos 41 milhões de habitantes do país – 63% da população – pertencem a alguma igreja cristã. A maioria dos brancos e mulatos, 60% dos negros e 40% dos índios professam o cristianismo; 2% são muçulmanos e 1,5% é hinduísta, enquanto que 33,5% praticam religiões ancestrais e animistas.

Perda do "inimigo comum"

Alguns analistas acreditam que o desaparecimento do apartheid também significou para as igrejas a perda de um inimigo comum facilmente identificável, um fator que inspirou sua ação durante os anos de luta pela libertação; nos anos subseqüentes, essas igrejas não foram capazes de identificar seu novo papel na etapa de construção da nação.

A isso soma-se o fato de que a Constituição da África do Sul reconhece o direito à igualdade de todas as religiões, e que estabelece um Estado secular no qual o cristianismo goza de privilégios, muito menos que a hegemonia que desfrutou em sua versão reformada e calvinista durante o regime de apartheid.

Há, contudo, exemplos mostrando uma vitalidade renovada de certas igrejas no contexto sul-africano. Talvez o mais notável é o da Igreja Católica Romana, que se viu freqüentemente reprimida sob o regime do apartheid em virtude da política do governo e sua ideologia pretensamente reformada. Há muitos sacerdotes católicos em bairros pobres altamente politizados que desempenham um papel destacado na luta contra as injustiças, relata Modhela.

O bispo de Rustemburg, Kevin Dowling, alcançou notoriedade internacional por causa dos seus pronunciamentos sobre o problema do HIV/Aids e sua postura em favor do levantamento da proibição contra o uso da camisinha no país, o que o colocou em aberta oposição à política oficial do Vaticano.

Calcula-se que 4,7 milhões de sul-africanos, mais de 10% da população, estão infectados pelo vírus de imunodeficiência adquirida. As projeções mais pessimistas indicam que, dentro de três anos, 250 mil sul-africanos poderão morrer de Aids anualmente, e que em 2008 a esperança de vida no país poderia reduzir-se a 40 anos, se não forem tomadas medidas urgentes para atacar os efeitos da pandemia.

Também do lado das igrejas pentecostais, em sua maioria fruto de esforços missionários nascidos nos Estados Unidos, observa-se uma importante animação e um esforço por enfocar temas de índole moral e ética na agenda pública, uma vez que uma permanente mobilização dos setores menos favorecidos mostra-se indispensável para a consolidação da sociedade civil e da democracia na África do Sul.

Alguns sinais parecem indicar que as igrejas históricas e o movimento ecumênico estão começando a reconsiderar sua atitude e a assumir um papel mais crítico e pró-ativo frente aos ingentes problemas que o país vive, desde a proliferação da Aids até a inadequada distribuição das terras, sem esquecer a corrupção nos círculos governantes.

Talvez essa atitude de genuína solidariedade crítica foi a que inspirou as palavras do bispo metodista de Cape Town, Peter Storey, ora retirado, no ato de instalação de seu sucessor, o reverendo Ivan Abrahams: "Você não pode jantar com César um dia e no dia seguinte profetizá-lo".

Os verdadeiros profetas, como ensinam as Escrituras, raras vezes foram populares. Mas talvez chegará o dia, para beneplácito da sociedade sul-africana e de outros muitos países do mundo, no qual os governos terão a sabedoria para escutá-los, e os profetas para dizer sua palavra de juízo durante a sobremesa.